Este Verão, Macau fará parte da rota de um dos contos mais representados de sempre, trazido pelo Ballet Escocês. A companhia está em digressão pela Ásia com “Hansel e Gretel” com uma nova coreografia que já correu o mundo, da Nova Zelândia aos Estados Unidos. Christopher Hampson, director artístico da companhia britânica e criador desta produção, partilha impressões e as suas fontes de inspiração
A nova versão de “Hansel e Gretel” pelo Ballet Escocês é um apelo à inovação numa adaptação tanto para as crianças como para os mais crescidos. O conto mundialmente reconhecido dos irmãos Grimm de inícios do século XIX tem sido desde então imortalizado, através de uma multiplicidade de versões, das artes de palco às produções cinematográficas. Indo além dos pozinhos mágicos das adaptações anteriores, o ballet concebido por Christopher Hampson para a companhia escocesa adiciona-lhe uma nuance criativa, situando o clássico mais próximo do domínio do surreal. “Quero atrair as pessoas que de outra forma não viriam ao teatro”, afirma o coreógrafo.
Mantendo-se fiel às ideias mestras do conto original, a interpretação de Hampson reteve os elementos principais deste favorito infantil, da casa feita de doces em plena floresta, ao tom de aventura que descreve duas crianças a superar uma bruxa. Procurando encontrar um sentido de relevância para um novo público, Hampson substituiu o tradicional cenário medieval por um enquadramento inspirado em meados do século XX, algures entre os anos 50 e 70.
Hansel & Gretel
(c) Andy Ross
Como tantos outros contos populares alemães baseados em histórias negras e lendas, as incontáveis versões recontam a perturbante história de uma família tão pobre que teve de abandonar as crianças na floresta, para que o alimento sobrasse em casa. Nesta história, apesar dos pais não serem retratados de forma tão cruel, possuem outros defeitos. “Discutem muito. O pai bebe demasiado; a mãe fuma muito”, diz o coreógrafo, acrescentando querer “mostrar que nós, os adultos, também podemos ter os nossos demónios”. “Estes pais não vão abandonar os filhos na floresta, mas gastam o dinheiro em cigarros e álcool quando poderiam gastá-lo em comida”, afirma.
Uma vez que os pais têm nesta versão um peso menor no desenrolar dos acontecimentos, a maior parte da maldade foi transferida para a bruxa. Desde o início que a bruxa é uma presença constante na visão de Hampson, assumindo, entre vários disfarces, o papel de professora.
“Encontrámo-la pela primeira vez na escola onde, um a um, vai hipnotizando todos os alunos da turma com doces”, faz notar Hampson.
A solista do Ballet Escocês Marge Hendrick fez parte do elenco original na estreia há cinco anos, tendo uma missão difícil, não só porque desempenhava o papel principal, mas também por que a Bruxa encerra duas personalidades distintas. Hendrick teve de se transformar, de mulher glamorosa e misteriosa numa criatura feia e malévola. Do cenário mais luminoso da cidade para a floresta sombria, a Bruxa incorpora de forma perfeita os contrastes entre o bem e o mal simbolizando os perigos do desconhecido, atraindo crianças com iguarias tão irresistíveis, que até o público fica com água na boca. E é então que os adereços se revelam em palco como uma parte crucial deste espectáculo.
Guloseimas verdadeiras
Hampson sabia que uma das coisas com a qual os miúdos se identificam, mais até do que a interpretação e a destreza, é o gosto com que os bailarinos que representam Hansel e Gretel se ‘atiram’ à mesa dos doces posta no covil da bruxa. No entanto, para que tudo pareça o mais autêntico possível, as guloseimas têm não só de parecer reais como ser comidas de forma convincente. Ainda mais quando parte do elenco tem de, a cada espectáculo, lambuzar-se com uma quantidade enorme de doces.
“Quando Hansel e Gretel estão dentro da casa de doces, eu não queria que fingissem que estavam a comer; teria de ser comida verdadeira e a lambuzeira que lhe está associada. Queria que o público visse duas pessoas literalmente empanturradas em creme de chocolate. Mas claro que eles não podiam fazê-lo noite após noite. Iriam adoecer!”, explicou.
Depois de várias tentativas e alguma pesquisa, Hampson revela que a companhia optou pelo clássico bolo de lanche escocês, uma cobertura malvaísco e chocolate numa base de biscoito. “Não é necessário comê-lo; basta esfregar na cara e fica com um aspecto pastoso e sujo, que é exactamente a imagem que eu queria”, adianta o encenador.
Hansel & Gretel
(c) Andy Ross
Os que seguem o trabalho coreográfico de Hampson sabem seguramente que a música é, frequentemente, o seu ponto de partida para uma peça. E desta vez não foi diferente.
Escrita originalmente para a ópera “Hansel e Gretel” composta por Engelbert Humperdinck em 1891, a música para este ballet foi rearranjada pelo maestro principal do Ballet Escocês, Richard Honner.
As deliciosas e familiares melodias foram adaptadas de forma a favorecer um tempo mais alto, uma direcção nítida para manter a acção fluida mesmo entre as transições de cena, captando de forma perfeita a atmosfera que muda “da luz para a escuridão, e de novo para a luz”.
Na estreia em Macau, os magníficos bailarinos da companhia escocesa serão acompanhados pela Orquestra de Macau, a quem se juntará em palco um grupo de crianças recrutadas localmente que ajudará a completar uma grande produção que tem vindo a aperfeiçoar-se desde a sua estreia mundial.
O mais provável é que esta grande história continue a espalhar um sentimento mágico em todo o lado em que é contada, por muitas mais gerações.
Os espectáculos estão marcados para os dias 13,14 e 15 de Julho e os bilhetes variam entre as 150 e as 380 patacas.
JTM/CCM



