Desde a eleição de Sulu Sou como deputado da Assembleia Legislativa, a Associação Novo Macau teve, em parte, de alterar as suas estratégias até porque tem recebido um maior volume de pedidos de ajuda dos cidadãos, destaca Kam Sut Leng em entrevista à TRIBUNA DE MACAU. Embora admita que o actual número de membros é inferior ao existente na “era” de Ng Kuok Cheong e Au Kam San, a nova presidente da associação garante que, em contrapartida, são mais activos. Noutro âmbito, a antiga professora critica as lacunas na educação sexual e o modo como são abordados casos de assédio como os que têm surgido recentemente numa sociedade “conservadora”
Viviana Chan
-Como decorreu o seu processo de integração na Associação Novo Macau (ANM)?
-Abracei esta associação há pouco tempo, se compararmos com outros membros. Conheci alguns membros no final de 2012 e, a partir de 2013, comecei a participar mais nas actividades. Numa altura em que a Teledifusão de Macau (TDM) suspendeu o programa Fórum Macau, os deputados Ng Kuok Cheong e Au Kam San defenderam a sua continuação, por isso, a Novo Macau pensou organizar um evento do mesmo género e convidou-me para ser apresentadora. Esse foi um início que me deu muitas oportunidades para participar nos trabalhos. Mais tarde, entrei para a direcção. Nessa altura, estava a trabalhar num grupo composto maioritariamente por homens. Eles são muito inteligentes nas suas políticas, a expressar opiniões e a defender algumas ideias, mas não eram bons a coordenar e organizar as coisas. Nesse sentido, pensei que seria capaz de contribuir nessas situações, complementando o trabalho deles. Desde que integrei a direcção, sinto-me motivada para assumir responsabilidades. Desde que tenha disponibilidade estou sempre disposta a ajudar. Gradualmente, o meu trabalho foi sendo reconhecido pelos outros membros e acabei por ser eleita presidente da ANM no final do ano passado.
-A ANM completou recentemente 26 anos. Como assinalaram o aniversário?
-Fizemos uma festa do 26º aniversário da ANM, e, ao mesmo tempo, realizámos uma assembleia de membros à porta fechada. Apresentámos os trabalhos feitos no último ano, por exemplo, a participação nas eleições legislativas, a mudança de sede e o peditório. Temos promovido projectos e dado a nossa opinião, por exemplo, sobre a criação de órgãos municipais sem poder político. A festa foi organizada para convívio dos membros, apoiantes e voluntários. Cidadãos que já foram apoiados pela ANM também participaram. A atmosfera foi muito boa, notava-se um grande entusiasmo, comparando com anos anteriores. Por outro lado, a festa aconteceu poucos dias depois do regresso de Sulu Sou à Assembleia Legislativa (AL). Achámos que o número de participantes podia ser muito maior.
-Desde que tomou posse como presidente da ANM houve alguma mudança ao nível do funcionamento da associação?
-Quando Jason Chao era presidente, ele fazia tudo, tanto o estudo das políticas, como o trabalho administrativo da associação. Admiro-o muito porque ele conseguiu assegurar todos os trabalhos que são muito cansativos. Jason Chao é muito exigente com ele próprio. Sempre achei que ele também lidava com muita pressão. Reestruturámos a divisão dos trabalhos depois de Sulu Sou ter sido eleito. Assim, Sulu Sou deve focar-se mais no trabalho legislativo e eu assumi os trabalhos da administração, mantendo contacto com os apoiantes, tratando dos pedidos de ajuda, coordenando o trabalho dos voluntários e organizando as acções comunitárias. Houve um ‘boom’ no número de pedidos de ajuda dos cidadãos desde que Sulu Sou foi eleito deputado. Ele tem de dar resposta ao dobro da quantidade de trabalho que havia antes de a nova geração da ANM conseguir um lugar no Hemiciclo. Ele está focado nos trabalhos da AL e comunitários. Desde Setembro do ano passado, recebemos mais de 300 pedidos de ajuda e mais de 80% dos casos já foram resolvidos. Isso é um grande desafio, tanto para Sulu Sou como para os funcionários da ANM. Como também somos novos é sempre preciso aprender a lidar com questões novas ao mesmo tempo. Arranjar soluções para os problemas dos cidadãos não é fácil, pode até ser uma questão de estratégia. Temos de escrever cartas ao Governo, a serviços diferentes, e nem sempre recebemos uma resposta. Os problemas dos cidadãos não podem ser resolvidos imediatamente, ‘de acordo com a lei’. Os serviços públicos têm direito a 45 dias para responder, mas creio que as pessoas conseguem sentir a nossa determinação em ajudá-las. A maior diferença entre a ANM e as associações tradicionais é que as grandes associações são capazes de contratar muitos trabalhadores, mas nós temos apenas três a tempo inteiro e um a tempo parcial. Eu trabalho aqui sem vencimento. O funcionamento da ANM também está dependente do apoio dos voluntários, não são muitos, mas existem. Um dos nossos voluntários é motorista de mercadorias e ajudou-nos com o transporte durante a campanha eleitoral. Precisamos muito deste tipo de voluntários. É importante criar um ambiente que una as pessoas e gere um sentido de pertença. Actualmente muitos voluntários não são membros. Estamos a falar de entre 20 e 30 pessoas.
-Tendo em conta esse aumento significativo dos pedidos de ajuda após Sulu Sou ter sido eleito deputado, o que faz com que a ANM seja especial para as pessoas lhe baterem à porta?
-Creio que damos um tratamento diferente do de outras associações. Pelo menos, sinto isso em alguns casos. Alguns cidadãos chegam aqui para pedir ajuda e damos sugestões que não lhes agradam. Eles podem sentir-se desconfortáveis quando dizemos a verdade mas insistimos na nossa postura relativamente às questões. Não vamos dizer alguma coisa só para agradar aos cidadãos sem eles perceberem, de facto, qual é a nossa posição.
-Em comparação com a altura em que Ng Kuok Cheong e Au Kam San estavam na ANM, qual é a situação da Novo Macau em termos de membros?
-Temos actualmente 48 membros. Na era de Ng Kuok Cheong e Au Kam San a associação tinha entre 90 e 100, mas é claro que o número de membros não representa o dinamismo das pessoas. Os membros da Novo Macau são hoje mais activos. Pelo menos na altura em que entrei para a associação, metade dos membros registados não estavam activos. Portanto, embora o número de membros seja cerca de metade do que antigamente, há uma taxa de participação elevada e um grande entusiasmo.
-A Novo Macau vai organizar um curso de verão para formar políticos. Com a saída de membros como Jason Chao, Roy Choi, Chan Wai Chi, pretende encontrar sucessores?
-Já fizemos várias vezes este tipo de formação. O curso é de apenas um mês e o objectivo é incentivar as pessoas, falar dos temas, porque temos experiências para partilhar. Houve uma acção de formação deste género na altura em que o Governo pretendia rever o regime político. A proposta preferida era a ‘2+2+100’, isto é, adicionar dois lugares para deputados eleitos pela via directa, dois pela via indirecta e ter mais 100 vogais na Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo. A associação tem uma posição pré-definida sobre essa questão, que é apoiar a proposta do Governo, uma vez que nem valia a pena discutir o tema porque já estava definida a decisão. A nossa formação vai dar grande destaque à criação de um espaço de discussão sobre os temas políticos, incentivar as pessoas a opinar sobre estas questões. Não vamos dar soluções porque não deve haver uma resposta única.
-A sua família apoia a decisão de desistir da carreira de professora, ficando a exercer funções não remuneradas na ANM?
-A minha família pode até não compreender, mas respeita bastante essa escolha.
-Qual é o plano para o futuro da “Macau Concealers” após Roy Choi ter deixado recentemente de ser o gestor da publicação online?
– Contratámos mais um jornalista, uma pessoa nova pode trazer novas ideias. Ainda estamos a fazer tentativas. Vamos manter o estilo habitual.
-Depois das polémicas envolvendo casos de alegado assédio sexual na Universidade de Macau (UM), esta questão tem sido muito falada. Estarão as pessoas mais sensibilizadas para esse problema?
-Têm sido conhecidos outros casos de alegado assédio sexual, o que motivou debates acesos na sociedade. O ponto de vista das pessoas sobre a questão varia. Alguns poderão acreditar que é bom que os casos sejam divulgados ao público, mas também podem ser vistos quase como uma ‘telenovela’. Não há muita gente a falar da igualdade de género, porque nem todos vêem as coisas desta forma. Aliás, nem toda a gente está consciente do que é a igualdade de género. Agora há um ambiente mais aberto à discussão de casos de assédio. Antigamente, quando a imprensa ou as publicações ‘online’ não estavam tão desenvolvidas, se um caso fosse noticiado no jornal ‘Ou Mun’, faltavam meios de comunicação, como as redes sociais, para incentivar a interacção. Por isso, também era difícil ter uma reacção rápida aos casos. Agora temos plataformas como o Facebook para as pessoas darem a sua opinião e isso também pressiona os envolvidos a reagir, sobretudo os alegados autores.
-O que se pode fazer para aprofundar a sensibilização sobre a igualdade de género?
-É preciso haver uma educação sistemática. Para isso, também é necessário tempo. No recente caso de alegado assédio sexual numa escola secundária, envolvendo um professor e uma aluna, o estabelecimento de ensino teve a reacção errada, tentando ‘apagar o fogo’ dizendo que o professor já tinha sido penalizado para que as pessoas ficassem caladas. Sem julgar quem está errado ou não, podemos verificar que a escola não soube lidar com este caso, tendo uma atitude autoritária. Nem a queixosa nem os colegas gostaram da resposta dada.
-Lam Lon Wai, deputado e professor de educação cívica, mostrou-se preocupado com jovens que trocam carícias à noite. A comunidade chinesa continua a ser demasiado conservadora na educação sexual para crianças?
-Sem dúvida. As ideias que os alunos têm do sexo são sempre diferentes, mas podem dividir-se em dois grupos. Pode notar-se facilmente que há alunos que já namoram e arriscam em algumas situações. Nesse caso, os professores podem apostar na proibição dos namoros, mas isso não impede necessariamente que os alunos o façam. Tendo em conta que alguns alunos até já podem ter tido relações sexuais, a educação deve adoptar uma estratégia mais flexível. Isto é: uma abordagem muito directa relativamente às questões relacionadas com sexo pode não ser adequada para alunos que são mais envergonhados. Até os docentes podem tornar-se alvo de queixas por parte dos pais. Por exemplo, se um professor disser que não devem ter sexo antes do casamento, esses alunos podem ficar convencidos e seguir a sugestão. Mas, obviamente, quem já tem namorado, não vai dar ouvidos, até porque alguns já tiveram relações sexuais. A educação sexual deve ser dada acompanhando o desenvolvimento da sociedade. Tem de haver uma adaptação, não se pode aplicar o mesmo método pedagógico da época dos nossos avós. Os jovens de hoje não vão ouvir e o recurso apenas aos manuais é aborrecido. O maior problema é que existe uma diferença entre a expectativa e a realidade. Muitos pais esperam que os filhos só tenham relações sexuais depois de acabar a universidade e do casamento, mas a realidade não é assim.
-Tendo em conta que a sociedade continua a ser conservadora, o ensino de sexualidade encontra muitas dificuldades?
-Quando eu era professora, receava que a educação sexual pudesse levar a queixas porque não sabia se a escola iria apoiar a ideia de ensinar dessa maneira. Para apoiar alguns alunos tive de conversar com eles como se fossemos amigos e, assim, ajudei-os a resolver problemas. Recentemente, um jovem de 14 anos foi alvo de uma acusação de abuso sexual por engravidar a namorada com a mesma idade. Se fossem dados certos conhecimentos na escola, podia evitar-se esta tragédia. Um jovem de 14 anos não deve perceber muito bem o que quer do futuro, por exemplo, se quer ter filhos. É uma questão muito complicada. Este aluno está no 6º ano, tenho a certeza que a educação sexual não lhe vai dar muitos conhecimentos porque normalmente são ensinadas as mudanças físicas do corpo ao longo do crescimento. Tanto os manuais como os materiais de ensino dos professores não têm conteúdos para orientar os adolescentes psicologicamente. Alguns conhecimentos, como os relativos ao VIH ou aos preservativos, são tabus na educação sexual. As escolas temem que falar destes tópicos seja incentivar os alunos a ter sexo e essa é uma questão muito sensível, tanto para os pais como para as escolas.
-Nesse sentido, a educação sexual tem falhado?
-Não posso dizer isso. É uma educação muito conservadora. Os educadores são idealistas e, por isso, o ensino não corresponde à realidade. Obviamente, essa não é a forma correcta de fazer as coisas. Toda a gente sabe que não se deve cuspir no chão ou atravessar a rua fora das passadeiras, no entanto, na realidade, isso acontece.
-O movimento “MeToo” tem, de alguma forma, influenciado Macau?
-Sim. Quando muitos casos de assédio ou abuso sexual foram noticiados, algumas pessoas poderão ter pensado sobre se a mesma situação aconteceu com elas próprias. Porém, hoje em dia há pessoas que também estão contra o movimento por considerarem que é muito radical, abusivo ou feminista.
-Há uns anos, foi criticada por usar uma mini-saia num protesto, quando ainda era professora. Hoje, mantém-se esse tipo de conservadorismo na sociedade?
-O facto da sociedade continuar a ser conservadora ou não, não a impede de avançar. As pessoas podem continuar a ter pensamentos conservadores mas chegou a era da alta velocidade, do desenvolvimento das redes sociais, da onda da globalização, que são irreversíveis. As pessoas mais conservadoras devem adaptar-se ao ritmo da sociedade, não será a sociedade a moldar-se às suas preferências.



