Ilha de Padar
Ilha de Padar

Em Labuan Bajo o cheiro do bom café que se produz em Flores contrasta com o do sistema de esgotos. Mas o turismo gera oportunidades, e há quem comece a descobrir os benefícios económicos que daí resultam

 

A ilha de Padar é tal e qual como nas pesquisas da internet. Não é edição de fotografia que torna a ilha verde e o mar de três tons diferentes, nem a areia preta, cor de rosa, e branca consoante a enseada para que se olhe. É natural. Mas a intensidade do sol e a caminhada até ao topo, apesar de durar apenas cerca de uma hora, não é para os fracos. O sol começa a queimar a pele desde cedo, e a humidade dificulta a respiração. Mas a vista compensa pelas dificuldades, e nem quem tem de levar os filhos ao colo fica desencorajado da aventura.

Talvez seja por isso que o negócio de Juber tenha tanta afluência. No final do percurso, encontra-se junto ao mar a vender cocos. Uma faca, uma pedra, e zumba, o produto fica pronto para venda. “É bom dinheiro”, diz. Tem apenas 18 anos e aproveita as alturas de férias em que não tem de ir à escola, para se dedicar a apagar a sede a turistas. Mas em Abril retoma o ensino secundário. Começou há dois anos, a ajudar o irmão mais velho. “O meu irmão já vendia bijuteria aqui e começou a dizer-me para ter o meu negócio também”, explicou.

Por isso, enquanto Juber fica a vender os cocos, tem amigos que vão buscar mais para repor o stock, sendo que depois dividem o dinheiro. “Normalmente consigo vender 30 por dia, porque há muitos estrangeiros a virem à ilha”, explicou. Não há habitantes na ilha de Padar, mas Juber, que é da ilha de Komodo, arranjou um sistema. “Durante este tempo vivo no barco com o meu irmão, é nosso”. Para o futuro, porém, espera entrar no exército e deixar o empreendedorismo de parte.

Juber (à dta) vende uma média de 30 cocos por dia

Juber é um caso de sucesso na exploração do potencial do turismo, numa região onde o desenvolvimento da cidade não acompanha a expansão de visitantes. Do hotel para o centro da cidade, a vista da moto-táxi permite acompanhar a rápida transformação de cenário para casas e lojas mais pequenas e caóticas com telhados de betão, pontes de madeira para passagem por cima dos esgotos e escavadoras a iniciar trabalhos de construção. “O Governo enfrenta a dificuldade de falta de hotéis e alojamento, ainda tem dúvidas que haja condições para acomodar um grande grupo de turistas. Os hotéis ainda não estão prontos”, reconheceu o regente de West Manggarai, Agustinus Dula. A lotação completa dos hotéis em Labuan Bajo não é necessariamente sinónimo de muitos turistas, mas antes de falta de alojamento.

Até ao momento, há apenas oito hotéis e algumas pensões. “É por isso que o Governo está a fazer esforços para captar investidores e facilitar acesso às licenças. O objectivo é que daqui a cinco anos haja desenvolvimento na área, em sectores como a agricultura, a pesca, transporte, alojamento e melhores acessos à ilha”, comentou Agustinus Dula.

O Governo central providenciou electricidade e água limpa na região, foram construídos um aeroporto, um hospital público, e está a haver uma aposta nos portos marítimos, explicou, mas outros desafios persistem. “Há um problema de lixo, queremos construir uma incineradora de lixo fora da cidade”, comentou. Para além disso, de forma a combater a poluição, o governo central providenciou navios para transportarem o lixo do mar, e as autoridades portuárias passaram a requer que os barcos que circulem na zona carreguem o lixo que encontram nas ilhas onde param.

 

Viver do mar

O mar é uma importante fonte de receitas, com as actividades aquáticas a ganharem dimensão na região, e há quem se mude de longe para aproveitar essa oportunidade. Cecilia é instrutora de mergulho e oriunda da Argentina. Começou por fazer fotografia e realizar filmes no sul do seu país, na Patagónia, e acabou por completar um curso de instrutora de mergulho no Brasil. Chegou ainda a morar no México, mas a procura por um local novo trouxe-a até Labuan Bajo. “Queria viver numa ilha, então entrei em contacto com centros de mergulho no Hawaii, Maldivas e Indonésia. Uma empresa da Indonésia tinha uma vaga aberta, contactei-a, fizemos entrevista por Skype e acabei por vir em Dezembro de 2017”, disse.

“Pink beach” é uma das atracções

A instrutora, que acredita que é necessário “oferecer aos visitantes informação sobre como reduzir o impacto do turismo, principalmente para reduzir o lixo no oceano e nas praias”, explicou que a empresa onde trabalha tem cerca de 90% clientes da Indonésia, vindos de Jacarta. “Mas outras empresas recebem muitas pessoas da Europa, como a Alemanha e Espanha”, acrescentou.

Cecilia acompanhou-nos a fazer “snorkeling” na “pink beach”, que se avista do topo de Padar. Com os pés em cima do fenómeno, a areia já não parece tão rosada. A verdade é que o tom resulta de fragmentos de coral avermelhados por causa da produção deste pigmento por parte de animais microscópicos chamados “foraminifera”. É possível, ao nadar na zona, ver pequenos corais e peixes multicolores. As atracções marinhas continuam, com o “Manta Point”, uma das principais actividades recomendadas a quem visita Flores.

As raias, tal como os tubarões, são espécies protegidas na área marítima de West Manggarai, que se tornou um santuário para estes animais. E de acordo com Ummu Fatimah, que vende peixe no mercado enquanto acaricia os seus gatos, confirma que não se pesca nem vende tubarão por lá. “[Os pescadores] estão mais interessados em polvo”.

“Antes de haver tantos vendedores no mercado conseguia vender mais, mas agora há muitos barcos e ferries que também trazem peixe”, indicou, acrescentando que ao longo dos últimos anos também se alterou a frequência com que vê estrangeiros. “Mas estou feliz porque tornam a vila mais viva”.

Nora de Ummu é descendente de portugueses

A sua família está na área desde 1917, e Ummu vende peixe há 10 anos. Os pais faziam tecido para a roupa tradicional e o pai dela era pescador. Mas não foi por isso que se lançou na profissão. “Antes vendia roupa noutro mercado, mas como agora há muitas lojas e competição comecei a vender peixe”, disse. Também há muitos competidores mas as pessoas precisam de comer peixe diariamente, algo que garante negócio.

A maioria dos restaurantes e hotéis compram peixe fresco, mas alguns restaurantes também vão directamente ao mercado comprar peixe seco. “Durante o tempo do meu pai podia-se pescar tudo porque era apenas pesca tradicional para as pessoas da vila”, comentou, afirmando que agora já não há pescadores a pescar tubarão. Para além de peixe, Ummu tem também a oferecer uma ligação a Portugal: a nora é descente de portugueses e fala a língua, embora viva numa ilha afastada.

 

S.F.