As redes sociais têm vindo a alterar a forma como as pessoas comunicam, mas não só. Em Macau, estão a influenciar os padrões de beleza e levam muitas mulheres a procurar correcções faciais ou grandes mudanças para se assemelharem a celebridades sul-coreanas ou chinesas. À TRIBUNA DE MACAU, uma cirurgiã plástica e a presidente da Aliança dos Concursos de Beleza sublinham que as mulheres deixaram de ter vergonha de confessar que fizeram uma operação plástica. Algumas pacientes procuram mesmo mudanças visuais pouco naturais, semelhantes a bonecas, revelou a cirurgiã Leong Sao Ieng. Por um lado, a abundância de informação online retirou “da mesa” possíveis preocupações com os procedimentos e, por outro, criou padrões de beleza que, quando não são correspondidos, também podem ser motivo de “bullying” online

 

Viviana Chan

 

No universo das redes sociais, o fenómeno dos influenciadores digitais é um elemento cada vez mais presente. Através das suas vidas, as celebridades da nova era digital despertam vários desejos a quem as segue e que podem ser tão simples como uma viagem, uma experiência gastronómica ou incentivar ao consumo de um produto específico. Por outro lado, contribuem para a criação de padrões estéticos, difíceis de atingir na vida real e que levam mesmo muitas mulheres a procurar a ajuda da cirurgia plástica na sua busca pela perfeição e obsessão pela aparência física.

Para a cirurgiã plástica Leong Sao Ieng, acabam por não faltar motivos para recorrer a uma intervenção médica. “Basta procurar na internet por fotografias com o carácter chinês para apelativo, ‘eye catching’, e percebemos que os valores de hoje em dia desvalorizam a beleza interna. As pessoas querem ser atraentes ao primeiro olhar, porque é considerado uma vantagem para encontrar emprego ou namorado”, disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

A médica associa a procura da cirurgia plástica ao materialismo. “Resumindo, as mulheres querem dinheiro rápido ou casar com homens ricos, por isso, procuram este tipo de cirurgia”, frisa.

Segundo Leong Sao Ieng, os padrões de beleza em Macau têm-se alterado significativamente. “Desde há três ou cinco anos, com o boom económico da China e a influência das celebridades sul-coreanas, a ideia das pessoas sobre as cirurgias plásticas tem mudado muito. Antigamente, só se fazia quando havia mesmo necessidade, mas hoje em dia ter uma cara exagerada está na moda”, assegura a especialista.

Leong Sio Ieng

Lamentando que obter algumas melhorias no rosto já não seja suficiente para muitas jovens que vão à clínica para pedir uma cirurgia plástica, a médica revela que os pedidos são semelhantes. “Todas querem ser parecidas com celebridades sul-coreanas ou chinesas. Adoram fazer operações aos olhos para que sejam muito grandes e profundos. Outros procedimentos para terem o nariz alto também estão entre os preferidos”, apontou, em tom de desilusão.

Quando abriu a clínica, “as mulheres preferiam melhorias mais naturais”, recorda, ao salientar que queriam “ficar mais bonitas, mas nada de exageros”.

“Anteriormente, o resultado da cirurgia mais procurado era aquele que as outras pessoas não notavam, mas hoje em dia, as pessoas não se importam tanto se os outros sabem ou não que fizeram uma plástica”, indica.

A cirurgiã apresenta outro exemplo: mesmo sendo muito jovens, as mulheres seguiam um critério estético mais natural, “mas agora, mesmo as clientes mais maduras querem ter uma cara de boneca”, ou seja uma aparência pouco natural.

“A maioria das pessoas chega à clínica com uma ideia definida sobre a parte que quer mudar. Algumas levam mesmo uma foto. Muitos dos exemplos são caras artificiais, mas as pacientes acham que são bonitas”, disse Leong Sio Ieng, explicando que compete-lhe encontrar um equilíbrio. “Não posso fazer uma cirurgia cujo resultado nem eu quero aceitar”, assevera a cirurgiã plástica.

Outra consequência passa pelo facto de o mesmo critério estético levar à ausência das características individuais das pacientes. “Ficam todas iguais. A aparência física das pessoas perde as especificidades. Os olhos ficam grandes, o nariz alto e o queixo muito saído”, refere.

 

Pressão da beleza causa “bullying”

A responsável pela Aliança dos Concursos de Beleza de Macau e vencedora do concurso de beleza “Miss Macau” (3º lugar em 2008), também lamenta que a juventude seja fortemente influenciada pela internet nesse capítulo.

“O critério de beleza da nova geração de Macau é extremamente influenciado pelas redes sociais”, adverte Cherry Ng, notando que, além desse aspecto também é criado e incentivado um ambiente pouco saudável na vida real, porque não ser bonita(o) pode ser motivo para “bullying” online.

“É difícil controlar isto, porque as pessoas acham que podem dizer o que querem sem assumir as responsabilidades”, criticou, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

A moda das “selfies” leva também cada vez mais pessoas a pensar em formas de se tornarem mais fotogénicas. Porém, para Cherry Ng, “a beleza interna é tão importante como a externa”.

Cherry Ng

Recordando a sua experiência nas competições internacionais de beleza, destaca que o aspecto que mais a impressionou foi ter contactado com concorrentes de países abalados pela guerra. “Macau tem um ambiente muito fechado, as mulheres ficam limitadas à sua imaginação sobre o mundo exterior. Além disso, muitas vezes, os pais chineses protegem demasiado os filhos e os jovens acabam por ter falta de capacidade para pensar independentemente. É fácil ser influenciado por outros e não ter a capacidade de avaliar a informação, por isso acabam por seguir outras pessoas sem pensar se esse padrão se aplica a eles próprios”, afirma.

Na análise de Cherry Ng, a popularização das redes sociais e da internet entre os jovens levou à diminuição das preocupações sobre a cirurgia plástica, porque existe muita informação sobre tudo.

Para além disso, denota que a influência dos amigos também afecta muito o modo como se vê ou pensa a beleza. “Se as pessoas à sua volta começam a preocupar-se mais com a aparência física, perdem mais tempo a combinar a roupa, a maquilhar-se, e pode haver amigos que começam a segui-los”, disse.

Tal como a cirurgiã Leong Sio Ieng, Cherry Ng também considera que se antigamente as pessoas não se sentiam à vontade para falar sobre a cirurgia plástica, nem assumir que tinham feito uma, agora a situação é muito diferente. “As pessoas até pensavam que era uma coisa negativa”, salientou.

Devido à proliferação da informação online, “muitas pessoas partilham as suas experiências sobre a cirurgia plástica e, como vêem que os resultados foram bons, podem pensar que também terão sucesso se fizerem o mesmo”.

A responsável pela Aliança dos Concursos de Beleza acredita que, actualmente, a cultura popular influencia um número crescente de adolescentes e cada vez mais novas. Aliás, os menores começam a imitar o estilo da vida dos adultos muito cedo e muitas alunas sentem necessidade de se maquilhar para ir para a escola ou de saber se estão bem “arranjadas”.

“A imprensa de Hong Kong foi sempre a principal influenciadora em Macau, porque a cultura é a mesma. Mas, devido ao declínio da indústria de entretenimento em Hong Kong, a cultura sul-coreana ganhou um lugar dominante”, concluiu.

 

Cirurgias não resolvem problemas de autoconfiança

Psicóloga Cheng Mei Chan

A psicóloga Cheng Mei Chan concorda que a publicidade e disseminação da informação leva a que novos padrões sejam absorvidos e se condensem na sociedade.

“O impacto das celebridades e da publicidade que têm os seus padrões de beleza preferidos, e mesmo o lançamento de novos produtos, podem definir novos padrões. É comum encontrar informações sobre beleza nas redes sociais ou na vida real e gradualmente as pessoas vão sendo influenciadas”, afirma a especialista, membro da direcção da Associação de Psicologia de Macau.

Cheng Mei Chan reconhece que “uma melhor aparência física pode ser uma vantagem no trabalho ou no namoro, porque pode alargar o leque de opções e, portanto, as pessoas desejam as mudanças [de visual] para ter acesso a essas oportunidades”. “Mas claro, ser bonita não é o único factor determinante para se ter um bom trabalho ou encontrar namorado”, alerta.

Na perspectiva da psicóloga, as redes sociais passaram a ser uma parte indispensável na vida das pessoas e “no mundo virtual, toda a gente pode ser comentador ou jornalista”. “A difusão da publicidade levou as pessoas a terem um critério estético único, e isso faz com que aceitem apenas um tipo de padrão de beleza. A partir daí, podem julgar os outros com base nesse critério universal”.

As melhorias na aparência física podem servir para ter mais autoconfiança, mas o resultado final nem sempre é o mais desejado, aponta ainda. “Há muitos factores que podem ser motivos para uma cirurgia plástica. Muitas pessoas querem fazer as cirurgias para aumentar a autoconfiança, mas mesmo depois de várias operações continuam insatisfeitas. Muitas vezes, a cirurgia muda o exterior, mas não muda o que se passa no interior. Se não forem resolvidos, os problemas e as barreiras psicológicas vão continuar mesmo que façam as operações”, concluiu Cheng Mei Chan.

 

Mais de 12 mil consultas externas em 2016

De acordo com os dados estatísticos mais recentes dos Serviços de Saúde, em 2016 registaram-se 12.090 consultas externas de cirurgia plástica e 1.873 de cirurgia maxilo-facial, num total de 13.963, mais 1.798 do que no ano anterior. Para além disso, o serviço público deu conta de 427 internados para cirurgia plástica e de reconstrução, mais 106 face ao ano de 2015.