A assumir a presidência da “Art For All” (AFA) pela segunda vez, Alice Kok reconhece que a associação passou por uma fase marcada por alguma crise, que engloba o factor financeiro. Contudo, uma mudança na estrutura da direcção e a uma nova dinâmica na associação com 10 anos de existência abriu um novo caminho orientado para o apoio a jovens artistas e ao desenvolvimento do sector. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Alice Kok lamenta que não haja uma “liderança muito sábia” em termos culturais que impulsione o sector local. Ainda assim, considera que houve uma mudança para melhor em termos educativos
Catarina Almeida
– Que balanço faz deste segundo mandato como presidente da AFA?
– Terei de começar por abordar o primeiro mandato porque, nessa altura, estávamos a passar por um momento de risco na ‘Art for All’ (AFA). Estávamos em crise porque precisávamos de mudar de sítio a cada dois anos, e ainda não se tinha estabelecido uma ponte entre os membros mais antigos e os mais novos, de modo a convidar novos membros para a AFA. Aliás, foi precisamente por causa disso que James Chu decidiu abandonar a presidência e eleger um novo corpo gerente, abrindo assim as portas a mais jovens artistas neste processo. Ele sentiu que se estava a atingir um ponto de saturação na dinâmica da associação e que não deixa de ser normal. Desse modo, foi eleito um novo corpo gerente. Nos últimos três anos – a par com novos membros da direcção – conseguimos tomar algumas decisões que mudaram o rumo. Por exemplo, estávamos com alguns problemas com o arrendamento de espaço. Na época, tínhamos não só uma galeria em Macau como outra em Pequim. Percebemos que o panorama em Pequim, nomeadamente o custo das rendas, estava a mudar e o facto de não conseguirmos estar lá fisicamente para gerir a galeria começou a colocar-nos dificuldades. Queríamos fazer mais e melhor e, para isso, tínhamos de controlar a situação directamente de lá. Por isso, uma das decisões mais difíceis de tomar foi fechar a galeria em Pequim. Percebemos que estávamos um bocado fracos e precisávamos, antes de tudo, de concentrar as nossas energias para Macau. Olhando para trás, por muito que tivesse custado, foi a decisão mais correcta. Conseguimos estabelecer num espaço de três anos uma nova dinâmica na associação que era, de facto, necessária.
– Como funciona essa nova dinâmica?
– Temos reuniões mensais para decidir o que fazer e as exposições a organizar na AFA, partilhamos a situação corrente e falamos sobre novos artistas que conhecemos. Conseguimos assim partilhar mais informações e trocar opiniões. É muito importante. Antes de assumir a presidência, as coisas estavam a perder-se. Precisávamos de renovar, convidando novos membros a participar no processo de decisão.
– Nesse contexto, qual é a abordagem para este segundo mandato?
– A abordagem é, realmente, diferente. Até porque entretanto mudámo-nos para o ‘Art Garden’ que é uma óptima base e com óptimas condições. Foi James Chu que sugeriu a mudança para o Art Garden, com mais três associações, arrendando todo o espaço, no centro da cidade, que inclui galerias e estúdios para os artistas. Assinámos um contrato por cinco anos, o que é mais sustentável pois garante-nos uma continuidade e não nos obriga a mudar a cada dois anos, o que é muito cansativo. Pelo menos por cinco anos vamos ficar por aqui. Está a correr bem, aliás, cada vez melhor, mas é claro que temos problemas ao nível da manutenção do espaço. Com a passagem do tufão ‘Hato’, a chuva foi um problema. Há infiltrações no último piso, precisamente onde está a AFA. Por exemplo, chove dentro do meu estúdio o que não é muito bom porque temos materiais de todos os tipos lá dentro.
– Que objectivos traçou para este novo capítulo?
– A minha principal prioridade é consolidar. Sentimos que, no primeiro mandato, conseguimos estabelecer algo mas não tínhamos tempo, sinceramente, para pôr os projectos em prática e fazer experiências. Com a mudança para o Art Garden, não só tentámos manter a estrutura-base da AFA como adicionar novos membros. Éramos 11 e agora somos 14, pois decidimos acrescentar mais pessoas no processo de decisão de forma a garantir a continuidade da associação até porque, este ano, assinalamos o 10º aniversário. Por causa disso, estamos bastante ocupados com as iniciativas de aniversário. Finalizei na semana passada um documentário sobre a efeméride, que foi subsidiado pelo Governo porque nos candidatámos a um plano de financiamento e fomos um dos quatro seleccionados. Além disso, ainda este ano, tivemos uma exposição com trabalhos do fundador da AFA. Para os meses seguintes, temos projectada, para Dezembro, uma série de actividades de três dias durante os quais vamos abrir as portas dos nossos estúdios e lançar exposições. Convidámos outros responsáveis de galerias em Macau para partilharmos experiências e ideias. Na recta final, teremos uma iniciativa de recolha de donativos. Convidámos artistas da AFA que vão doar trabalhos e vendê-los. As vendas revertem para a AFA e serão aplicadas nos gastos diários da associação.
– Tem sido fácil garantir essa continuidade, tendo em conta o panorama cultural e artístico de Macau?
– Não tem sido fácil, claro. É curioso porque testemunhei todo o crescimento da associação, numa primeira fase, do outro lado. Estive recentemente na Europa, onde estudei, e depois passei pela Índia e pelo Tibete. Regressei em 2007, após nove anos fora de Macau. Já era amiga de James Chu na altura, tanto que ele pediu-me para o ajudar na curadoria de exposições e organização de projectos para a AFA e acabei por me tornar gradualmente parte da associação. Estando do outro lado percebi que não foi um processo fácil, de todo. Momentos de crise, financeiros, de espaço, enfim… Em contrapartida, nos últimos 10 anos temos visto e conhecido muitos mais artistas, que estão a produzir cada vez mais e melhor do que na altura em que éramos mais novos. Têm também mais oportunidades e ver isso é muito encorajador. Demonstra que pelo menos os nossos esforços não são em vão. Agora, dizer que é fácil? Claro que não. O balanço é a nossa paixão, acreditando e criando um bom ambiente artístico local.
– E esse ambiente é saudável?
– Depende de vários factores. Temos o ambiente físico, que engloba a oferta de estúdios e galerias, e o financeiro que inclui a criação de um mercado artístico local. Agora, é muito exagerado pensar e referirmo-nos a um mercado cultural e artístico de Macau porque ele não existe. Ainda assim, há 10 anos, ninguém comprava arte e os que o faziam eram portugueses e europeus na medida em que já têm, intrinsecamente, uma disposição para comprar arte. É algo que, para eles, já é normal. Mas, para os chineses de Macau, a arte não é algo que tenha de ser comprado. Felizmente, hoje em dia, já há locais a comprar e a criar colecções. Há mudanças a esse nível ainda que continue a não ser possível para os artistas viver simplesmente das vendas. Mas é também importante perceber que isto não é algo que aconteça apenas em Macau. Vê-se noutros lugares como Pequim ou na Europa.
– A mentalidade e sensibilidade para com o trabalho artístico estão a mudar?
– Certamente. E a AFA representa um papel muito importante nessa mudança de mentalidade. Insistimos, com bastante frequência, nas exposições individuais de artistas locais encorajando-os a elevar o trabalho a um nível profissional. No início da AFA, éramos seis artistas e agora somos 45. É uma diferença muito grande. Macau é uma cidade muito pequena, claro que 45 artistas não é muito.
– É essencial abrir horizontes e sair de Macau?
– Confesso que a AFA foi mais ambiciosa durante a presidência de James Chu. Abrimos a galeria em Pequim, e organizámos outros eventos lá fora, mas no meio desse processo percebemos que tínhamos de solidificar as bases em Macau. Por outro lado, em tempos recebíamos mais subsídios do Governo para a realização de eventos no exterior. Nos últimos anos, o orçamento reduziu bastante o que não nos impediu de continuar a submeter candidaturas. Contudo, continua a ser difícil reunir o dinheiro necessário para organizar exposições e feiras no exterior.
– Como vê a evolução do ensino artístico?
– Está muito melhor! Na altura em que estudava, não era dada qualquer atenção à arte nos currículos escolares do ensino primário ou secundário. Agora, as escolas oferecem opções aos alunos para desenvolverem as suas capacidades ao nível artístico. A educação artística está muito melhor. Por exemplo, no Instituto Politécnico, só havia a opção de design visual e agora há outras ainda que continue a não existir uma escola de artes como na Europa. Mas, há mais opções em diferentes universidades e outras instituições de ensino superior.
– Uma Escola de Artes poderia influenciar pela positiva o cenário cultural em Macau?
– Costumava achar isso. Mas, tendo em conta a minha experiência, ganhei outra visão sobre a questão. Estudei na Escola Nacional de Artes, em Toulouse (França), num país que valoriza bastante a educação artística. Basta ver que, em cada cidade, por muito pequena que seja, há uma escola de artes. E isso dá uma plataforma e uma base educativa importante no caminho para a profissionalização artística. A esse nível, o ambiente é muito importante. E foi muito valioso para mim. Também podemos recorrer a isso nesta zona, muitos jovens artistas locais optam por estudar em Taiwan, no Continente ou Japão. Em Macau, não temos o espírito de iniciativa e as condições para criar isso. Cheguei a sonhar com uma Escola de Artes em Macau mas percebi que, para isso acontecer, é preciso muita coisa, aprovação e burocracias a vários níveis… Sinceramente, já não me debato muito com essa ideia e eventual necessidade de termos uma Escola de Artes, desde que continuemos a trabalhar no sentido de melhorar a situação actual.
– De que forma a AFA contribui para a formação de jovens artistas?
– A situação em Macau, a esse nível, é irónica. Há uns anos, o Governo lançou um plano de subsídios de aprendizagem contínua, no valor de cinco ou seis mil patacas. Na altura, vimos que os subsídios eram bons já que as pessoas mostravam-se mais dispostas a aprender porque não precisavam de pagar do próprio bolso, uma vez que usavam os apoios do Governo. Só que, e aqui é que se vê a ironia, começaram a surgir turmas a mais. A AFA, em concreto, teve alguns problemas com isto porque não conseguia preencher os requisitos necessários para abrir acções de formação e dar essas aulas. Por exemplo, o facto de funcionar num edifício industrial é negativo pois, para ser aceite, a instituição em causa tem de ter um carácter, em parte, comercial. E nós não somos comerciais. Mesmo a mudança para o Art Garden não fez da AFA uma associação ‘comercial’, logo, não conseguimos entrar no plano de financiamento. Os programas de formação que oferecíamos não eram gratuitos, por isso, foi difícil encontrar alunos para abrir turmas. Nos últimos anos, ainda assim, tentámos abrir cursos mas só conseguimos atingir metade do nosso objectivo.
– A AFA já estabeleceu um nome e marca no território. O próximo passo é singrar no exterior?
– No plano anual para 2018 temos traçadas algumas exposições em Berlim. Algo que já fizemos, em Portugal, em várias zonas mas claro que é mais fácil estabelecer esses contactos devido à ligação histórica que existe. Para já, queremos estabelecer relações com outros países e cidades, e sabemos que Berlim em termos culturais e artísticos será muito benéfico para nós e para os artistas locais.
– Há um espírito competitivo e ao mesmo tempo saudável no sector local?
– É engraçado porque enquanto fazia o documentário do 10º aniversário da AFA falei sobre isso com muitos artistas locais. Recebi muito feedback. Não há muita competição em Macau na medida em que sobrevivemos muito de subsídios e por causa disso não sentimos a necessidade de competir. Há também quem diga que este factor não é muito encorajador para os artistas. Contudo, Macau tem este espírito até romântico pois os artistas não precisam de entrar numa dura competição para serem bem sucedidos. Só precisam de se concentrar naquilo que querem realmente fazer. Até pode ser uma visão um pouco ingénua da realidade mas não deixa de ser verdadeira e pura até. No meu caso, não tenho necessidade de ser famosa e criar o meu próprio nome. Apenas me concentro naquilo que quero fazer, não sinto essa necessidade de provar quem sou e o que valho. Por um lado isso é bom, mas claro que há quem diga que é um aspecto negativo pois faz com que os artistas não trabalhem em prol da inovação.
– Os jovens artistas, em início de carreira, têm os apoios necessários para progredir?
– O Governo não tem uma estratégia muito prudente a este nível porque tem planos a curto prazo e dá dinheiro. Em termos de políticas e medidas, até mesmo as destinadas às chamadas indústrias criativas, não são muito encorajadoras. A forma como definem as indústrias criativas é basicamente atribuindo-lhes um carácter comercial e empresarial. O que, por si só, é muito diferente de toda a concepção e ideia por detrás daquilo que é arte. No fundo, acabamos por ser encorajados a fazer dos nossos trabalhos criativos produtos de negócio. Em parte, isso não é o que devíamos fazer. O Governo dá a cada residente 9.000 patacas. É bom? Claro. Mas será bom para o desenvolvimento a longo prazo? É preciso muito mais, e não me refiro a dinheiro. É curioso porque há uma expressão que diz basicamente que Macau é tão pobre porque só tem dinheiro. E acho que isto diz tudo. Não temos uma liderança muito sábia a nível cultural que impulsione o desenvolvimento do sector.
– Definir o real conceito das indústrias criativas seria um bom ponto de partida?
– Olhemos para a Europa, onde as indústrias culturais partem de uma base cultural e de design muito sólida que, naturalmente, se transforma numa indústria. Em Macau, é o oposto. Impõe-se a definição do que é uma indústria criativa. Só o facto de a definir em algo é restrito por si só. Por exemplo, a AFA não faz parte das entidades beneficiadas através do Fundo das Indústrias Culturais, e não é que não tenhamos tentado. O problema é que o plano de financiamento é desenhado de uma forma muito empresarial. E nós não somos pessoas orientadas para o negócio, o que não é mau, simplesmente não somos assim. Antes, focamo-nos em criar e oferecer ao público boas exposições e trabalhos do género. Não nos esforçamos demasiado no sentido de crescer e ganhar essa conotação comercial. Se acontecer, será um processo natural. A arte deve chegar às pessoas, entrar nas suas casas, no seu dia-a-dia, no seu pensamento. O documentário é, neste contexto, uma tentativa a esse nível. Falámos com jovens artistas locais, em início de carreira, e outros mais estabelecidos para perceber o que têm feito nestes anos e partilhar com a população o que está a acontecer. Isto sim, deve ser feito. Partilhar com as pessoas o que nos motiva a ser artistas e a escolher este caminho.



