Apesar de reconhecer que foram dados grandes passos em prol da melhoria do sistema educativo do território desde o início do século, o director da Escola das Nações entende que ainda há um caminho a percorrer em direcção a novas práticas no ensino e no modo como se olha para a aprendizagem. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Vivek Nair diz acreditar que as instituições de ensino devem focar-se em compreender quais são as necessidades do futuro, de modo a preparar os alunos para o mercado de trabalho
Inês Almeida
-Está em Macau há 17 anos. Como é que o sector educativo evoluiu desde então?
-Macau tem trabalhado muito para se tornar cada vez mais sistemático. O mais importante é que a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) fez um esforço para garantir que a Educação seja cada vez mais organizada. Outra coisa a salientar é que a DSEJ se apercebeu de que isso leva tempo. Não é algo que acontece de um dia para o outro, é preciso gradualmente introduzir medidas para encorajar o sector educativo a organizar-se em torno do modo de pensar actual em torno da educação.
-Onde se nota a maior organização?
-Quando cheguei não havia currículos definidos, as escolas podiam fazer basicamente o que queriam, não havia sistemas de avaliação claros, mesmo as oportunidades de formação profissional para os professores eram limitadas, se é que existiam. A qualificação dos professores era básica em 2001, mas agora tornou-se muito mais sistemática. Ao mesmo tempo, claramente há pessoas na DSEJ que olham para o modo mais actual de pensar sobre a educação e tentam perceber as implicações em Macau. Nem sempre esse processo é muito ponderado, mas toda a gente está num processo de aprendizagem, até mesmo as escolas. Além disso, a DSEJ olha para o que as escolas estão a fazer e aprende com isso.
-Qual é o estado actual do sector educativo?
-Não se pode mudar a educação do dia para a noite. Os professores são, provavelmente, das pessoas mais difíceis de mudar padrões estabelecidos e há uma razão para isto. Os professores, muitas vezes, estão ocupados. Quando se quer mudar as práticas dos professores, não chega dizer-lhes apenas que têm de ir a um seminário ou dois. Estão tão ocupados que trabalham em “piloto automático”, com os hábitos que já desenvolveram. Por isso, é preciso mudar hábitos para que tenha impacto na sala de aula. É um processo a longo prazo. Numa nota mais positiva, a exigência da DSEJ para que os professores se submetam a um certo número de horas de formação para o seu desenvolvimento profissional é um conceito útil. O modo como é aplicado em cada uma das escolas define o impacto que terá.
-O que ainda está por melhorar no sector educativo?
-Há uma grande diferença entre os padrões de ensino em Macau, desde mínimos até outros de excelência. De alguma forma, conseguir que isso se torne mais igual e haja ensino de melhor qualidade, é uma área em que o sector deveria trabalhar. Outra coisa em que a DSEJ finalmente está a trabalhar é a questão dos currículos. Até muito recentemente as escolas podiam ter o currículo que queriam mas agora a DSEJ e, penso que a Universidade de Macau, estão a definir padrões mínimos. Nenhuma escola pode ficar abaixo de determinado padrão, o que é bom porque algumas têm melhores desempenhos, e é óptimo que haja instituições de excelência, mas também é preciso que todas correspondam aos padrões mínimos.
-Macau continua a ter uma elevada taxa de chumbos. Que medidas podem ser usadas para fazer face ao problema?
-Sou um pouco radical a este nível. Se melhorarmos a qualidade de instrução na sala de aula, é possível melhorar a forma como os estudantes aprendem. Há investigação por todo o mundo a mostrar isso. No entanto, não acredito necessariamente nesta ideia de chumbos. Estamos muito agarrados ao sistema que define que há uma nota e que se estamos abaixo dela chumbamos, se estamos acima passamos. Os seres humanos são indivíduos únicos, cada um tem forças e fraquezas. Há formas que os professores podem usar para enriquecer as forças e colmatar as fraquezas para que os estudantes continuem a crescer. Apenas passar ou chumbar é uma forma muito simplista de ver a educação, no entanto, sei que é a realidade actual de Macau e que vai ser preciso tempo para mudar isso. Por exemplo, este ano abolimos o nosso exame intermédio. Não temos um exame a meio do ano. Em vez disso, o que fizemos foi ter duas semanas de projectos que todos os estudantes do jardim de infância até ao sexto ano fizeram. Os estudantes receberam perguntas e tinham de arranjar soluções que abrangiam várias disciplinas, não era uma pergunta para inglês, outra para matemática. Era uma mistura de disciplinas e problemas que podem ser encontrados em situações da vida real. Os estudantes tiveram de se preparar, quer criando modelos ou fazer apresentações, fazer a pesquisa. Nestas duas semanas, o volume de aprendizagem conseguido foi muito maior do que se tivessem um mês durante o qual os professores os ensinam com métodos regulares.
-Devia haver uma abordagem mais prática à educação?
-Claro, mas não é algo que se consiga fazer do dia para a noite. As bases para fazer isso já estão consolidadas, há exemplos disso. Periodicamente a DSEJ realiza visitas de estudo para os directores da escola levando-os a outros países para verem como estas coisas estão a ser implementadas para alargar horizontes e formas de pensar, o que é muito útil para ter novas ideias, analisá-las à luz do nosso contexto e ver se funcionam na prática.
-O sistema actual ainda é muito virado para as ciências e matemáticas?
-Coloco a questão de forma diferente. Em Macau reconhecemos a importância das ciências e da matemática. Agora temos de reconhecer a importância das línguas, das artes e humanidades. Não penso que a sociedade de Macau as ignore, que diga que não têm valor, mas na matemática e nas ciências a nossa força está consolidada e é muito mais aparente. Encorajar as outras áreas é bom. Isso não é apenas responsabilidade do Governo, é também uma questão de educar os pais. Venho da Índia e, enquanto crescia, os meus pais diziam-me que tinha de ser muito bom em ciências e ser engenheiro informático, e foi isso que fiz. Mas, é preciso que se perceba que em todas as áreas se pode encontrar sucesso, seja as humanidades, artes, ciências ou matemática porque todas têm um papel para formar um ser humano completo.
-Uma das áreas em que investe são as artes. Porquê?
-Por várias razões. Uma é a necessidade de arranjar um equilíbrio em relação às ciências e matemática, temos de educar a criança por completo. Em segundo lugar, a criança é sobretudo um ser espiritual e o espírito expressa-se mais facilmente através das artes, quer seja teatro, dança, música ou artes visuais. Tem sido uma das minhas missões estabelecer um programa artístico forte na escola. Em Macau as artes são valorizadas. Basta ver o número de exposições e performances que acontecem constantemente. É uma forma de chegarmos até à alma e ao espírito das crianças.
-Qual tem sido o impacto nas crianças?
-Deveriam ser as próprias a responder mas se vir os nossos estudantes verá uma diferença: eles estão muito mais confortáveis com quem são, reflectem muito mais e pensam muito sobre problemas quer dos próprios, quer da comunidade. Uma abordagem holística, na qual não minimizamos as ciências e a matemática, mas estamos a focar-nos em todas as áreas em conjunto, é o que traz resultados.
-Os métodos de ensino usados em Macau são os mais adequados?
-Há um pouco de tudo. Há pessoas que usam métodos muito tradicionais e outras que dão vida à sala de aula de muitas formas. Uma das coisas que observei é que os professores são muito abertos a novas abordagens. Por exemplo, trabalhamos de perto com escolas que expressaram interesse em perceber outras formas de aprender e ensinar línguas e convidamo-las a visitar ou vamos até outras escolas para organizar workshops. Há abertura para aprender. As escolas têm de começar a preparar as crianças para o mundo em que vão entrar, não aquele em que nós entrámos quando éramos pequenos. Temos de ver quais serão as necessidades do mundo daqui a 15 ou 20 anos, quando entrarem no mercado de trabalho. Estamos a dar-lhes as ferramentas e capacidades que precisam? Se começarmos a pensar nessas necessidades, automaticamente mudaremos a nossa abordagem. Não podemos ensinar como há 100 anos para os preparar para o mundo em que vão entrar. No momento em que as escolas se aperceberem disso, os métodos começarão a mudar.
-Que capacidades emergem como mais importantes para os adultos do futuro?
-Não tenho uma bola de cristal, podemos apenas olhar para as tendências. Por exemplo, já não é útil memorizar informação, porque se quisermos encontrar alguma informação basta pegarmos no telemóvel. O que é preciso são ferramentas que nos ajudem a encontrar informação correcta, não deturpada. Isso é um grande problema. A segunda capacidade tem a ver com a colaboração. Os locais de trabalho hoje em dia exigem que as pessoas colaborem como nunca, não apenas com pessoas que vêm de ambientes semelhantes mas também diferentes. Ao mesmo tempo, a sociedade em si tem muitos problemas. A forma como a tecnologia mudou a sociedade trouxe imensos benefícios mas também alguns problemas. As crianças já não são tão activas, a disparidade entre os mais ricos e os pobres está a aumentar. Temos de preparar os estudantes para darem resposta aos problemas da humanidade e não apenas às suas necessidades especiais. Há muitas outras, mas estas são algumas formas de mudar o sistema utilizado para educar as crianças.
-Tem um mestrado em Liderança da Educação. Qual é a importância dessa área?
-Sinto que enquanto líder numa escola tenho de também estar a aprender. Nunca vou poder dizer as palavras ‘eu sei’. Estou sempre disposto a aprender. Se demonstrar isso, tanto aos funcionários como aos alunos, estou a dar o exemplo do que quero que aconteça. A aprendizagem é um processo que demora a vida toda. Formei-me em Liderança da Educação para ser mais eficiente, tornar-me melhor líder, compreender os problemas que tenho em mãos para poder apoiar os meus funcionários da melhor forma. Dou um exemplo: um dos processos que tem surgido por todo o mundo é o do desenvolvimento profissional para os professores, mas só é possível mudar mentalidades criando novos hábitos. Então, à quarta-feira as aulas acabam mais cedo e todos os funcionários estudam. Há um impacto na sala de aula, na natureza colaborativa da escola, tanto entre os professores como no modo como trabalham com os estudantes.
-O que estudam os professores?
-Coisas diferentes relacionadas com o seu crescimento profissional. Há um grupo que se foca na avaliação e em formas de a tornar mais eficiente. Outro grupo estuda instruções de ensino: como é que se ensina numa sala de aula com estudantes com capacidades diferentes, ajudando cada um deles a atingir o seu potencial. Há tópicos específicos à nossa situação enquanto escola e permite aos professores melhorar as suas capacidades. Não acredito que todos os professores tenham de fazer este tipo de estudo, mas em todas as escolas tem de haver pessoas com essa visão. É muito importante para as escolas estarem a par das tendências do sector da educação. Nos últimos 15 anos aprendemos muito mais devido aos avanços na área das ciências sobre como o cérebro aprende e trabalha, mas há professores que já foram formados há 30 anos e, se aplicarem hoje o que aprenderam nessa altura, perderam 30 anos de investigação durante os quais o nosso entendimento sobre a educação mudou.
-De que forma mudou a Escola das Nações nos últimos anos?
-Quando cheguei estávamos no quarto andar de um edifício habitacional com 200 crianças. Os apartamentos tinham sido convertidos em salas de aula, laboratórios, salas de professores. Além das mudanças físicas, hoje na escola é possível vermos a visão de sucessivas pessoas que por cá passaram e contribuíram e não me refiro apenas a directores mas também a professores ou funcionários. Além disso, hoje em dia estamos numa posição que nos dá capacidade para apoiar processos educativos na RAEM e isso, para mim, é o mais entusiasmante.
-Quais são os projectos futuros da Escola?
-Há vários. Um deles é continuar a melhorar os padrões educativos e a qualidade, isso não significa que queremos ensinar apenas os estudantes mais inteligentes. Olhamos para cada criança como uma mina de pedras preciosas de valor inestimável e só através da educação elas podem brilhar. Acho que somos a única escola que usa o inglês como língua veicular a ter um programa para crianças com necessidades educativas especiais e outro para estudantes com capacidades muito fortes. Temos um ex-aluno que foi admitido em Harvard e outros que vão para universidades de topo um pouco por todo o mundo, mas também temos alunos do nosso programa de educação especial que estão a florescer, a atingir o melhor que conseguem. Ao mesmo tempo, queremos ajudar na formação de professores, não apenas da nossa escola. Assim, estou a fazer um convite aberto às outras escolas de Macau: se nos quiserem usar de alguma forma – não digo que temos todas as respostas – daremos apoio em todas as formas que for preciso para que os professores se tornem melhores naquilo que fazem. O terceiro e mais importante é que gostávamos de melhorar a forma como apoiamos o crescimento e desenvolvimento de Macau e servirmos a comunidade.
-O programa de educação especial envolve turmas de crianças com necessidades educativas especiais ou visa a educação inclusiva?
-Temos ambos. Nalgumas alturas, uma criança com necessidades educativas especiais precisa de momentos a sós com o professor para conseguir ter capacidades específicas, mas, ao mesmo tempo, também sentimos os enormes benefícios, tanto para a criança com necessidades especiais, como para as que estão numa turma regular, da interacção e colaboração entre eles. É um programa que combina ambos. Temos quase instrução ‘de um para um’ na educação especial ou instrução a pequenos grupos e outros momentos em que estas crianças interagem com o resto da turma para participar nos processos que as outras estão a desenvolver. Concluímos que há uma sinergia maravilhosa entre os dois e os nossos alunos não olham para as crianças com necessidades educativas especiais como sendo diferentes ou sentindo necessidade de ter pena delas ou de tomar conta delas. Olham para elas como colegas. É um processo de colaboração e apoio mútuo que é incrível de ver.
-O investimento nas artes vai continuar?
–Absolutamente. Recentemente expandimos o nosso programa de teatro, tivemos muito sucesso com ele, bem como o de música, e tornou-se uma parte da instituição no sentido em que mesmo no meio do dia de aulas há pessoas a tocar instrumentos. Há pianos espalhados pela escola para que as crianças no intervalo possam tocar para os outros ouvir. Isso faz parte do ambiente da escola. Vamos desenvolver, melhorar e expandir os nossos programas.



