No seguimento da queda de parte do telhado da Igreja de Santo Agostinho, dois antigos presidentes do Instituto Cultural recomendam a realização de cursos destinados a operadores de locais do Património para que percebam quando existem riscos e problemas nos monumentos. Carlos Marreiros sublinhou mesmo que existe muito “amadorismo” na protecção do Património. Já Jorge Morbey defende que a repetição frequente de incidentes deveria dar direito a penalizações

 

Liane Ferreira

 

Foi no domingo, dia com elevada afluência de fiéis, que o telhado de uma sala anexa da Igreja de Santo Agostinho caiu. O incidente não causou feridos e, após a intervenção rápida do Corpo de Bombeiros, foi vedado o perímetro da igreja e proibida a entrada no edifício. Este foi um dos vários incidentes com o Património Mundial da Humanidade da UNESCO durante este ano e dos quais se destacam o incêndio no Templo de A-Má.

Confrontado com a frequência indesejada destes acidentes, o Instituto Cultural (IC) pediu às  associações e proprietários mais atenção à protecção, no entanto, há quem defenda a necessidade de formação.

“É preciso um curso curto intensivo e prático para os operadores de Macau. Muitos dos templos e igrejas não têm gestores. Têm operadores, uns curiosos, que com toda a sua boa vontade tratam destas questões”, disse Carlos Marreiros, antigo presidente do IC, acrescentando que “há muito amadorismo nestas coisas [da protecção do património] e infelizmente o tempo moderno de hoje não se compadece destes amadorismos”.

Para o arquitecto, o curso poderia ser dado com outros departamentos e universidades. “O IC tem de dar acompanhamento e formação aos operadores e gestores do património arquitectónico, porque depois de restaurado, tem de ser revitalizado e enquanto revitalizado tem de ser sujeito a manutenção específica e inspecção técnica temporária”, explicou ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU.

No caso específico da Igreja de Santo Agostinho, Carlos Marreiros ressalvou que aconteceu “o que pode acontecer com qualquer edifício classificado”, já que o “Homem também não domina a Natureza” e a intensidade e frequência da chuva pode causar incidentes do género.

“Em Macau as coberturas das igrejas têm uma estrutura de madeira sobre a qual é colocado um reguado de madeira, que por sua vez leva a telha de cartão. Ela é impermeabilizada, mas com o acumular do tempo, a madeira apodrece com a humidade e os paramentos que os suportam criam fissuras. Isto é habitual em Macau”, clarificou.

O arquitecto defendeu ainda que apesar das inspecções realizadas pelo IC, “às vezes o diagnóstico não é fácil de detectar” e em Santo Agostinho, como existe um forro de madeira que esconde a estrutura, é ainda mais difícil, pois não é visível por baixo e o acesso à caixa de ar não é fácil.

 

Responsabilização e sensibilização

Jorge Morbey, também antigo presidente do IC, coloca o enfoque nos administradores dos espaços. “As entidades proprietárias desses edifícios classificados deveriam ter muito mais cuidado e ainda que não tenham meios devem alertar o IC e recorrer ao Governo”, em aspectos estruturais como paredes ou telhados.

“Julgo que os párocos de cada paróquia são os principais responsáveis pelo património, no entanto, não sei se estão cientes da responsabilidade de preservação das igrejas que gerem”, disse Jorge Morbey, sugerindo que seria bom, “se o Bispo estivesse de acordo, que o IC ministrasse uma acção de formação em como prever e prevenir problemas desta natureza” aos sacerdotes.

Destacando que na “primeira linha da defesa do património estão as entidades proprietárias”, o historiador considera que existe um “problema de orientações claras, mas mais do que isso é serem essas orientações assumidas por quem gere”.

“Por mais claras que sejam, se eles não ligarem pouco há a fazer. Em caso desses incidentes continuarem a repetir-se com tanta frequência era necessário prever também algumas penalidades para os responsáveis desses edifícios”, admite Jorge Morbey, para quem o “mais importante é que os responsáveis tenham consciência de que devem fazer tudo para preservar o património”.

 

Oportunidade para check-up às igrejas

Na análise sobre a situação do edifício, o arquitecto Francisco Vizeu Pinheiro indicou que “pelo exterior, este anexo da igreja que dá para o Largo de Santo Agostinho parece estar sempre fechado o que pode ter levado a uma falta de ventilação, o que contribuiu para a alta humidade e microrganismos e consequente corrupção da estrutura”.

Concordando com a realização de um curso para os operadores, Vizeu Pinheiro destaca que “os edifícios antigos têm muitas patologias”, dependendo dos “materiais, da exposição geotérmica que afectam o comportamento e estabilidade do edifício”. Assim, um curso de formação e a monitorização dos edifícios seriam medidas importantes.

Para além disso, lembra que “existem diferentes gestores do património e poderá nem ser o pároco o responsável, pelo que seria bom ter uma certa unidade e o curso poderia ajudar”.

Na sua perspectiva, a Igreja de Santo Agostinho poderá ter de ser alvo de uma renovação total do telhado de madeira. “Felizmente não caiu na nave central, em princípio porque está melhor ventilada por estar aberta ao público. Poderia ser uma boa oportunidade para pôr ar condicionado como se fez em São Domingos, porque metade do ano é um forno e as ventoinhas não são suficientes. O controlo da humidade através do ar condicionado pode ajudar a estrutura e beneficia os utentes”, afirmou, salientando que medidas semelhantes já foram realizadas pelo IC noutras ocasiões com sucesso.

Por outro lado, defende que seria bom “fazer um check-up a todas as igrejas porque na maior parte delas a ultima intervenção foi há quase 50 anos”, devido a todas as vibrações que afectam a estrutura desses espaços, como o trânsito, som e a clássica humidade.

 

Marreiros quer corrigir cor da Santa Infância

Depois de Carlos Marreiros ter criticado o amarelo do edifício da Santa Infância, sublinhando que a Igreja tem de “estar à altura do seu Património”, o Bispo D. Stephen Lee disse ao semanário Clarim que a cor é algo “realmente muito, muito secundário”, já que a sua “prioridade é o trabalho pastoral”. Em declarações ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, Marreiros confessou ter ficado espantado com a resposta, pelo que vai pedir uma audiência para abordar o assunto. “Dizer que o importante é só o aspecto pastoral e esquecer o Património contém em si uma situação que não é assim tão correcta”, disse o arquitecto, notando que, como é “óbvio”, a “Igreja tem como acção nuclear a vida pastoral, contudo ele saberá tão bem ou melhor que eu que a acção da Igreja tem de ser multifacetada, portanto, qualquer visão tem de ser holística, como ensina o Papa Francisco”. O amarelo não é cor original do edifício em causa, facto que Marreiros compara com “alterar a cor da pele do rosto de uma pessoa”, pelo que considera que o “IC terá de agir” e ele próprio vai levantar a questão no Conselho do Património, para lutar “até ao fim” pelo retorno ao original.