Um estudo de Ieong Meng U, da Universidade de Macau, indica que os universitários locais aprovam a reivindicação de sufrágio universal feita pelo “Movimento dos Guarda-Chuvas” em Hong Kong e concordam com declarações sobre o desenvolvimento de um sistema democrático. De acordo com o académico, quanto mais os estudantes defenderem essas ideias, mais provável será confiarem menos nos Governo Central e de Macau

 

Liane Ferreira

 

No estudo intitulado “Atitudes em relação ao Movimento dos Guarda-Chuvas em Macau: descobertas e implicações de um inquérito a estudantes universitários”, Ieong Meng U, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade de Macau, usou o movimento revolucionário de Hong Kong para analisar a atitude dos alunos universitários de Macau em relação à democracia. Segundo frisou, ainda não tinha sido publicado nenhum estudo sobre o impacto do movimento no território.

“O Movimento dos Guarda-Chuvas teve uma influência significativa nas atitudes políticas dos estudantes e nas actividades políticas práticas”, refere o académico na conclusão.

De acordo com os dados, em geral, os universitários aprovam a reivindicação por sufrágio universal do Movimento, sendo que mais de 90% dos participantes avaliaram este item com cinco ou mais pontos, o que se reflectiu em 6,67 pontos em 10.

A análise específica aos alunos residentes de Macau mostra que a tendência é ainda mais visível, situando-se em 6,84 pontos. Para além disso, 66,1% concordaram que a “luta pela democracia” foi a razão pela qual os estudantes participaram no movimento, em contraste com os 59,15% da amostra geral. Aliás, os estudantes locais apresentaram menos probabilidades de concordar com afirmações de que os líderes estudantis de Hong Kong terão sido “oportunistas” (-1,36%), “conspiradores” (-6,25%) ou procuravam “as luzes da ribalta” (-3,35%).

Tendo em conta que uma eleição representativa e competitiva foi considerada uma componente indispensável da democracia, o elevado apoio dos estudantes ao sufrágio universal pode ser interpretado como uma preferência relacionada com a democracia, embora numa definição mínima, destacou o autor.

Em segundo lugar, o académico considera existir uma correlação positiva entre o apoio ao sufrágio universal e a concordância com a declaração dos líderes estudantis do movimento de que lutam pela democracia e a importância de “viver num sistema democrático”.

Por outro lado, se um estudante se considerasse “macaense” era mais provável que confessasse apoiar o Movimento. A insignificância do estatuto de residência mostrou que é a identidade local a influenciar as preferências dos estudantes em relação à democracia.

O segundo factor influenciador foi o tempo gasto a ler notícias, ou seja quanto mais tempo usaram, mais os estudantes se familiarizaram com as lutas subjacentes à democratização de Hong Kong e simpatizaram com os activistas.

 

Menos confiança no governo

Em terceiro lugar, concluiu-se que o apoio ao sufrágio universal é um indicador estatístico significativo da participação e confiança política dos estudantes. Quanto mais os estudantes concordam com o sufrágio universal, mais provável será confiarem menos no Governo de Macau.

Esta correlação negativa é mais marcada no caso do Governo Central. “Por outras palavras, quanto maior o apoio ao sufrágio universal, maior a probabilidade dos estudantes desrespeitarem as autoridades”, diz o documento.

Apesar de ressalvar que, devido à amostra limitada (total de 825, dos quais 638 são locais), não podem ser feitas inferências em relação a todos os estudantes ou à geração mais jovem, o académico nota que o inquérito ilustra claramente que os estudantes não confiam no Governo de Macau.

Por outro lado, esse aumento do apoio ao sufrágio universal significa que prefeririam a participação política não convencional, como manifestações, em vez da participação por canais institucionais, como as consultas públicas.

“Para manter a confiança da população, é necessário um governo mais responsivo e responsável. Macau não pode atingir isto sem negociar com o Governo Central para reiniciar a reforma política estagnada”, destacou.

 

Apatia política

No documento são referidos estudos políticos levados a cabo em 1991 e 1999 por Herbert S. Yee, onde é descerrada a apatia política de Macau. Este académico concluiu que “as pessoas de Macau têm pouca estima por políticos e são inclinados a acreditar que estar envolvido em actividades políticas é algo perigoso. Tal como os seus avós e bisavós na cultura tradicional chinesa, não acreditam que podem eles próprios influenciar as políticas do governo e por isso poucos iriam agir em oposição a algum erro do governo”.

Num inquérito a estudantes universitários dessa década, Herbert S. Yee perguntou o que é um governo democrático, tendo 57,1% dos inquiridos respondido: “um governo que ouve a opinião do público e toma conta dos interesses dos cidadãos”. Apenas 45,8% consideraram que um governo eleitos pelos cidadãos é uma componente da democracia.

Ieong Meng U destaca que a manifestação contra a lei que previa regalias para titulares dos principais cargos, em 2014, foi a maior desde a transferência de soberania e mostra que essa postura apática pode estar a mudar.

Segundo explicou, as queixas sociais relativamente ao campo pró-Pequim e ao Governo de Macau têm vindo a aumentar, porque ignoram os pedidos da população em relação à habitação, anticorrupção e responsabilização do Executivo. Em suma, movimentos sociais como o de Hong Kong pressionam no sentido da reforma política. No entanto, não seria uma realidade tendo em conta a sociedade civil fraca e o forte controlo social em Macau. Por isso, seria inevitável que os jovens estivessem atentos ao que se passava em Hong Kong.

Se o protesto tivesse resultado em concessões por parte de Pequim, a RAEM poderia ter a oportunidade de recomeçar a sua jornada em direcção à democratização.

Os dados recolhidos mostram que 62,1% dos inquiridos discutiram o movimento com outras pessoas no Facebook, 11,4% expressaram o seu apoio online e 3,7% participaram “in loco” nos protestos.

“Para a geração de 90, este evento foi o mais relacionado com democracia desde que nasceram, por isso tiveram de ruminar no debate e controvérsia”, salientou, indicando que, portanto, as atitudes desses jovens devem reflectir de certo modo a sua posição sobre a democracia.

Segundo referiu, em Macau as pessoas estão mais interessadas em assuntos relacionados com “low politics (baixa política – preços das casas e trânsito) do que com “high politics” (alta política- reforma política, independência judicial).

“Os protestos em Macau são mais orientados para problemas (do dia-a-dia) do que para questões políticas, o que por sua vez torna movimentos sociais de larga escala difíceis de acontecerem”, frisou Ieong Meng U, acrescentando ser este o motivo porque não se realizou mais nenhum protesto com a mesma dimensão do de 2014.

Esta situação pode ser benéfica para o Governo, no sentido de que os protestos são esporádicos e não sistemáticos. Mas por outro lado, quer dizer que se o Governo não melhorar o seu desempenho, “poderão ser exacerbados os défices de legitimidade herdados, que podem gerar sérias crises governamentais a longo prazo”.