A Avenida do General Castelo Branco é a fronteira entre a azáfama da vida diária da população e o espaço quase assombrado do Canídromo. Na véspera do encerramento, viam-se funcionários na zona do canil, outros a carregar lixo para carrinhas de caixa aberta, luzes apagadas na zona de apostas e, volta e meia, montes de caixotes de papelão. Dos galgos apenas se ouvia algum ruído quando se passava nas traseiras do canil. Se os trabalhadores da Yat Yuen estão no “escuro”, os moradores da zona anseiam por uma nova era, mais calma e com mais negócio. Para a maioria, o Canídromo era “inútil” e as corridas não traziam qualquer benefício à comunidade
Liane Ferreira e Viviana Chan
A história de Macau fecha mais um capítulo. A exploração de corridas de cães termina oficialmente hoje com o fim do prazo do contrato de concessão da Companhia de Corridas de Galgos Macau (Yat Yuen). As luzes dos arcos luminosos nas entradas apagaram-se e no interior reina também um ambiente sombrio e de escuridão, que se vê e se sente.
Com as luzes maioritariamente desligadas na zona das apostas, só uma funcionária dentro de um dos guichés se mostrava ocupada a colocar materiais em caixas de papelão. Não se tratava, porém, de uma acção de limpeza, já que os caixotes de lixo no interior dos balcões estavam todos a abarrotar.
Saindo desse corredor desolado para a zona das bancadas, destacava-se uma mulher entretida numa corrida matinal pelo campo de futebol, enquanto trabalhadores da Yat Yuen atiravam sacos de lixo pretos para dentro de um contentor azul.
Na área mais reservada, onde se encontra o canil e a sala dos seguranças, alguns funcionários já saíam do trabalho, embora apenas passassem cerca de 20 minutos das onze da manhã. Questionado pela TRIBUNA DE MACAU, um deles disse trabalhar na clínica do Canídromo, tendo como função tratar dos cães todos os dias. Apesar disso, não soube dizer quantos galgos ainda estavam do outro lado da cancela.
Com pouco à vontade, assegurou ainda não saber o que o futuro lhe reserva, frisando que “o Governo poderá, talvez, vir a tomar conta” do Canídromo. Sobre a possibilidade de ser transferido para outras propriedades do grupo empresarial, confessou não saber.
Estas incertezas quanto ao futuro são partilhadas por outros trabalhadores, que apenas têm a certeza de que hoje será o último dia do Canídromo, porque viram na imprensa local. Segundo apurámos “in loco”, alguns funcionários garantem que, pelo menos até ontem, não foram contactados pelos responsáveis da empresa.
Enquanto as limpezas decorriam, um carro dos Serviços de Finanças (DSF) manteve-se estacionado no parque. À TRIBUNA DE MACAU, a DSF indicou que, provavelmente, tratava-se de uma acção relacionada com a listagem do inventário. De acordo com declarações do director Iong Kong Leong na conferência de imprensa promovida pelo Governo na quarta-feira, compete a esse organismo receber os equipamentos de apostas, todo o património e fazer um inventário.
Sem benefícios para a comunidade
Do outro lado da Avenida do General Castelo Branco, funcionam bancas de fruta, de flores, de “char siu” (barbecue de porco) e muitas lojas. Na muito movimentada zona residencial, os cidadãos ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU estão totalmente a favor do encerramento do Canídromo, local que não era visto como benéfico.
O porteiro Tong foi o mais directo. “Sou 100% a favor do fecho do Canídromo. Só há benefícios com isto, não há perda nenhuma. É bom para as crianças, podemos formar os jovens num sítio melhor”, começa por dizer, referindo-se ao projecto escolar anunciado pelo Executivo.
Contrariando moradores que dizem não ouvir o ruído causado pelos galgos, Tong garante que os animais ladram todo o dia e muito. “Gostava que o ambiente fosse mais calmo, mais pacífico e Macau precisa de mais recursos educativos. As crianças já têm tanto stress para entrar na escola, por isso deviam ter mais condições”, afirmou.
“Por outro lado, nesta zona vivem famílias com menos dinheiro, por isso, será melhor existirem aqui mais escolas”, defendeu.
Uns metros à frente, Wong, dono de uma banca de ovos, fala com a autoridade de quem está ali estabelecido desde 1981. “O Canídromo é inútil. Não tem qualquer contributo económico para a comunidade local e para o cofre público. Nem é uma galinha que dá ovos, não dá nada”, declarou, salientando que o negócio das corridas de cães “não é bom para o povo, nem para o Governo”.
Quando chegou a Macau vindo de Fujian, só havia um prédio e mar naquela zona. Com o tempo, verificaram-se muitas mudanças e agora estão no horizonte instituições de ensino e de apoio.
“Em vez de escolas, preferia que o lote fosse usado para construir habitação pública e económica para ajudar o território a resolver os problemas de alojamento”, disse Wong, sublinhando que na verdade a sua preocupação não é o negócio, mas o Metro Ligeiro. “Gastam milhões e milhões e a Grande Ponte do Delta até fica pronta primeiro que o Metro. O Governo parece que não tem vergonha”, concluiu.
Siu, proprietária de uma banca de fruta, tem outras apreensões. “Preocupa-me que o espaço possa ficar desocupado por muito tempo e acabe por matar esta zona da cidade”, apontou. Ainda assim, reconheceu que “ter um plano para construir escolas é bom e vai dar um impulso à economia local, ao consumo das pessoas”.
“O negócio das corridas dos galgos raramente beneficiou a economia da comunidade. [O Canídromo] não tem condições, até as casas de banho públicas são melhores do que as de lá. Mesmo os apostadores, não gostam do espaço, de estar lá dentro. Para além disso, os prémios não são muito apelativos, há jogos em que se ganha sete vezes mais do que ali. As pessoas perderam o interesse”, disse.
Para além disso, Siu também critica o desinteresse da própria Yat Yuen. “A empresa desistiu de promover. Antigamente, traziam os turistas das excursões para aqui, mas agora já não”, revelou.
Siu alerta ainda para o problema do ruído dos galgos, que afecta muitos moradores da zona, principalmente à noite. “Dependendo da direcção do vento, ouvimos mais os cães a latir”.
Com uma vista privilegiada para as duas entradas do Canídromo, a comerciante diz que não tem visto os cães a serem retirados do local. Porém, muitos móveis e material de escritório foram removidos nos últimos dias.
Escolas são uma decisão positiva
Florista naquele local há mais de 10 anos, a senhora He não conhece muito o movimento do Canídromo à noite, já que, após fechar a banca no final da jornada de trabalho, atravessa a fronteira para Wanchai, onde vive.
“A construção das escolas vai ser algo muito positivo, porque vamos ter mais movimento, mais pessoas a passar. Na realidade, as corridas não beneficiavam o negócio em nada”, disse.
Segundo conta, até ontem, não tinha visto movimentos estranhos, apenas algumas pessoas a ir buscar os cães, mas pareciam-lhe cidadãos comuns.
Na banca seguinte, um vendedor de fruta recusou-se a falar, por não se sentir muito à vontade para debater o assunto, enquanto que, mesmo ao lado, uma comerciante de uma banca de “char siu”, optou apenas por dizer que a futura construção das escolas será positiva para a zona. Mais pessoas são sinónimo de mais negócio, apontou.
Já a senhora Cheng esperava pela azáfama de clientes da hora de almoço na banca de cozidos e caril, que explora há um ano. “Não se sabe como vai ser o futuro, mas acredito que será melhor e haverá mais crianças. Sou a favor da construção das escolas, mas ao mesmo tempo também acho que podem levar a um aumento do preço das rendas aqui. Em geral, é bom, as escolas vão ter mais espaço”, disse Cheng, que, surpreendentemente desconhecia que a concessão do Canídromo expira esta sexta-feira.
Tendo em conta os relatos de outros cidadãos sobre o ruído, a TRIBUNA DE MACAU também se deslocou a Edifício Jardim Iat Lai, nas traseiras do canil da Yat Yuen. Este seria um dos locais onde o ladrar poderia ser mais audível, no entanto, a zona em si já é bastante barulhenta com muitos carros e autocarros em circulação, abafando totalmente os latidos. Aliás, só no passeio junto às paredes, é que é possível ouvir os cães.
Uma das moradoras do prédio disse que actualmente já não ouve nada. “De há uns anos para cá não há muito barulho e recentemente nem ouço nada. Nem sabia que os galgos ainda estavam aí”, disse a residente, que habita ali há mais de 20 anos.
No mesmo sentido, outra moradora também diz não ouvir os galgos, nem notar qualquer diferença recentemente. “Eles não ladram muito, se calhar só quando os ratos lhes mordem”, concluiu.



