Em Macau, os conhecimentos sobre moedas virtuais e “blockchain” ainda estão numa fase inicial, conforme admite o presidente da associação Conselho de Liderança Juvenil. No entanto, há investidores e um deles confessou à TRIBUNA DE MACAU ter aplicado pelo menos 100 mil patacas inicialmente, atraído pela perspectiva de “multiplicar a riqueza”. Um especialista de Hong Kong explica o que está a ser feito por governos internacionais em termos de regulamentação por considerarem ser necessário avançar para a protecção dos investidores
Viviana Chan
Se antigamente comprar uma casa ou um terreno era considerado um investimento, hoje em dia, o cenário mudou e aplicações são cada vez mais canalizadas para as Bolsas e, seguindo uma via mais moderna, até para a compra de moedas virtuais. No entanto, este não é um mundo conhecido no território, onde as notícias sobre o assunto continuam baseadas no que acontece no exterior. Por isso, a TRIBUNA DE MACAU falou com representantes da associação Conselho de Liderança Juvenil, responsáveis pela organização de actividades relacionadas com o tópico, e encontrou um investidor local.
A rápida subida de preço da Bitcoin em 2017, hoje em dia a moeda virtual maisconhecida, está a atrair cada vez mais pessoas, que pretendem conheceresta nova tecnologia e também, claro, apostar na sua compra e venda. Com a proibição da aquisição de Bitcoin, apostura das autoridades chinesas chocou o mercado e deu a conhecer o outro lado da moeda, quando se regista um grande dinamismo no fluxo de compra e venda das criptomoedas.
O Governo chinês ilegalizou as moedas virtuais e qualquer tipo de Ofertas Iniciais de Moeda (ICO, na sigla em inglês) em Setembro do ano passado, adoptando uma posição rigorosa e prudente para vigiar as actividades de investimento das criptomoedas. Ainda assim, as acções de combate levadas a cabo não apagaram o entusiasmo de pessoas que viram oportunidades de investimento nas moedas virtuais existentes ou mesmo de criação de novas moedas.
Além disso, para qualquer governo, eliminar moedas virtuais é uma missão quase impossível, uma vez que são criadas com base na tecnologia de “blockchain”, cujo funcionamento não está dependente de qualquer instituição governamental.
Também conhecida como “o protocolo da confiança”, a tecnologia de “blockchain” visa a descentralização como medida de segurança. Basicamente, são bases de registos e dados distribuídos e compartilhados que têm a função de criar um índice global para todas as transacções, que ocorrem num determinado mercado.
Para Lucas Lei,presidente daassociaçãoConselho de Liderança Juvenil de Macau, responsável por promover a difusão de conhecimentos desta tecnologia no território através de palestras e seminários, a RAEM ainda está na fase inicial de conhecimentos sobre “blockchain” ou criptomoedas.
“A moeda virtual é uma tendência mundial e, como somos empreendedores, penso que temos de acompanhar o que se passa no momento”, disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU o vice-presidente da associação, Armando Amante.
A tecnologia de ‘blockchain’ e as moedas virtuais “estão a tornar-se muito comuns em Hong Kong e existe um entusiasmo ‘sobreaquecido’”, acrescenta Lucas Lei, recordando na última actividade da associação foram convidados especialistas da região vizinha para explicar o tema.
Consciente de que, actualmente, “é raro obter muita informação em Macau” sobre essa tecnologia, Armando Amante salienta que “o seminário pretendia motivar uma discussão do ponto de vista académico”. “Não era um acto para convencer as pessoas a investirem nem para apelar à especulação”, assegura.
Descrevendo a “loucura” no mercado das moedas virtuais, Lucas Lei aponta para a existência de mais de oito mil plataformas para compra e venda.
Segundo explica, a tecnologia de“blockchain” tem uma natureza de descentralização, ou seja, não é como o pagamento de uma renda, em que o inquilino precisa de colocar dinheiro no banco ou pagar ao agente imobiliário para chegar ao proprietário. O sistema criado com base nessa solução tecnológica funciona como um livro-razão, só que de forma pública, compartilhada e universal, criando consenso e confiança na comunicação directa entre duas partes, sem a intermediação de terceiros.
Os responsáveis da associação mostram-se muito confiantes no futuro desta tecnologia, convictos de poderá ter sucessoe causar uma revolução no mundo.
Bolha ou oportunidade?
Por outro lado, embora a tecnologia de “blockchain” tenha potencial para revolucionar algumas áreas, o número de casos envolvendo burlas com moedas virtuais está a crescer significativamente em todo o mundo, incluindo Macau. Em Abril, a Polícia Judiciária (PJ) detectou um caso de fraude de investimento em criptomoedas. Uma empresa assegurou que estava a colaborar com grandes casinos e salas VIP e promoveu a compra de moeda virtual em Macau.
Adrian Lai, co-fundador da “Orichal Partners”, primeira consultora de criptomoedas e “blockchain” na Ásia esteve numa sessão de promoção deste sistema no território. O especialista, proveniente de Hong Kong, considera que o desenvolvimento de “blockchain” está na mesma fase em que a Internet se encontrava há anos, enquanto se generalizava gradualmente. Na sua perspectiva, existem riscos e oportunidades ao mesmo tempo.
No entanto, Adrian Lai ressalva que o mercado das moedas virtuais ainda está longe da fase da maturidade. “Não conheço bem a política do Governo da RAEM. Alguns governos têm actuado agressivamente, como por exemplo o chinês, que é mais prudente nesta questão. Penso que o Governo chinês precisa de tempo para avaliar. Mas, por exemplo, Europa, Alemanha e França são países mais tolerantes e que estão a adoptar alguma regulamentação para este campo. A razão é simples: há uma ligação íntima entre a moeda virtual e a tecnologia de ‘blockchain’ e estes governos sabem que é uma tendência mundial e que ao mesmo tempo, devem proteger os investidores”.
À TRIBUNA DE MACAU, o especialista destaca que a aposta em criptomoedas tem sido muito sensível à fiscalização dos governos, porque este tipo de investimento também “é usado para fugir aos impostos”. “Muitos investidores não pagam impostos em relação às receitas obtidas, por isso, os países europeus estão a estudar soluções”, referiu.
De uma forma geral, Adrian Lai considera positiva a implementação de regras. “Os investidores individuais ficam preocupados com a situação de cada vez que algum governo diz qualquer coisa. Mas, a meu ver, os governos de diferentes países mostram uma atitude aberta quanto ao assunto, e estão a aplicar medidas passo a passo para promover o desenvolvimento gradual das moedas virtuais ou de “blockchain”, do ponto de vista do investimento. Se não houver fiscalização do governo, os investidores institucionais não entram no mercado”, defende.
“Se os investidores institucionais entram no mercado, isso significa que o governo tem uma atitude e guias mais claros”, analisa. “Quando os bancos de investimento entrarem no mercado da moeda virtual, o volume do respectivo fluxo aumentará significativamente. Até ao momento, ainda não há investidores institucionais, por isso digo que o mercado de moeda virtual ainda não é maduro, nem sequer houve explosão de uma bolha”, acrescenta.
Sobreaquecimento da moeda virtual
Em Setembro do ano passado, logo seguir à acção do Governo chinês, a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) emitiu alertas para os perigos da “Bitcoin”, enviando um ofício às instituições bancárias e de pagamento locais, exortando-as a não intervir, directa ou indirectamente, em actividades ou prestação de serviços desse tipo.
Em Junho de 2014, a AMCM já tinha advertido que a “Bitcoin” é uma mercadoria virtual, “não constituindo moeda com curso legal ou instrumento financeiro”. “Considerando que as transacções com estas mercadorias virtuais envolvem riscos muito variados, incluindo mas não se limitando aos riscos sobre branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, os participantes nessas transacções foram alertados para tais aspectos”, sublinhou a AMCM.
Adrian Lai acredita que os governos estão“conscientes sobre a situação do sobreaquecimento da moeda virtual, sobretudo da Bitcoin”. Daí que o Executivo da Coreia do Sul tenha tomado algumas medidas em Janeiro deste ano, pois de acordo com os dados estatísticos não oficiais, cerca de um terço da população activa está envolvida na compra de moedas virtuais.
“Alguns estudantes ou empregados desistem do que fazem e só compram e vendem estas moedas virtuais na Coreia do Sul, por isso acredito que o
governo sul-coreano está muito disponível para resolver o assunto e além disso é necessário”, comenta o especialista.
Actualmente, as autoridades estão sobretudo atentas à fiscalização dos mediadores, como é o caso das plataformas de venda. “No Japão, a Bitcoin é legal, mas houve vários casos de burlas, pelo que o governo avançou com o reforço da fiscalização. Foi um processo normal e um desenvolvimento razoável”, nota.
Atraídos pela possibilidade de “multiplicar a riqueza”
Ter a oportunidade de “multiplicar a riqueza” foi o motivo que levou Joe (nome fictício) a investir na moeda virtual. O jovem de 28 anos, residente de Macau, investiu nessa área no início deste ano. “Vale a pena”, assegura, sustentando que não existe uma oportunidade idêntica susceptível de fazer os dígitos da sua conta crescerem mais de cem vezes.
“Estou sempre atento às notícias sobre moeda virtual, mas não fui nada progressivo com essas ideias”, conta à TRIBUNA DE MACAU, explicando que o investimento foi “interessante”.
“No princípio, pensava que a moeda virtual era uma mega burla, mas depois de pesquisar mais informações, comecei a questionar-me como é que era possível que esta mega burla durasse tanto tempo”, afirma.
Além disso, o preço da “Bitcoin” multiplicou em 2017, despertando a atenção de Joe. “Tinha curiosidade. Interrogava-me porque é que o preço da ‘Bitcoin’ podia ter potencial para chegar a esse valor e comecei a estudar”, recorda.
Joe não comprou “Bitcoin”. Escolheu “Ether”, a segunda maior moeda virtual, decidindo ser um investidor a curto prazo juntamente com os amigos. Segundo confidencia, não tem planos concretos, nem uma estratégia muito clara de investimento. Sendo um investidor passivo que não consegue prever as tendências de evolução dos preços, Joe justifica a sua confiança no investimento através dos conhecimentos sobre a moeda, apesar de, em certos momentos da entrevista, ter parecido menos confiante.
Sem revelar o valor exacto da aposta na moeda virtual, garantiu que pelo menos 100 mil patacas foram colocadas nesse investimento.
“Continuo a estar preocupado. Mas para mim, é muito especial, é uma coisa nova”, confessa. Perante as oscilações radicais do mercado, Joe assume que não compreende e sente dificuldades em encontrar uma explicação para as subidas e descidas.
“Julgo que o preço das moedas virtuais é muito influenciado pelas notícias. Acredito que os outros investidores não iriam pôr o seu dinheiro para perder”, remata.



