Arrancou ontem mais uma Semana da Moda integrada na Feira Internacional de Macau. Estilistas e designers dos países de língua portuguesa com que a TRIBUNA DE MACAU conversou olham para a presença no território como uma mais-valia para potenciar o negócio, divulgar a cultura e criar novos laços a partir do mercado da RAEM, que embora tenha evoluído muito ainda tem também muito para crescer
Catarina Almeida
Nove estilistas oriundos de vários países e regiões integrados na iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” tiveram ontem a oportunidade de divulgar na RAEM trabalhos e visões criativas ao nível do design de moda. O desfile de moda, que se tornou já numa vertente integrante da Feira Internacional de Macau (MIF), realizou-se durante a tarde de ontem por via da organização conjunta do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento e do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau (CPTTM).
Nivaldo Thierry
O estilista moçambicano Nivaldo Thierry foi o único a representar o país num evento que marcou também a sua estreia pelos corredores e bastidores de Macau. Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, Nivaldo Thierry – eleito pela “World Fashion Organization” como o melhor estilista jovem de África – encara esta oportunidade como uma mais-valia e uma porta de entrada para o mercado asiático, bem como para levar um pouco da realidade da indústria local para o país. “Olho para qualquer evento como uma oportunidade de crescimento, é uma forma de criar contactos porque nunca sabemos quem está no evento. Sempre que participo no evento recebo mais convites, celebro contratos e a partir de tudo isso acabo a fazer negócio e a marca cresce cada vez mais”.
Logo, “estar em Macau é mais uma oportunidade porque sei que estou num mercado muito competitivo e a partir deste evento acredito que alguma coisa vai acontecer”, afirmou.
Nivaldo Thierry começou muito cedo no mundo da moda e do design, mas desde que estabeleceu a marca de autor, em 2009, o seu percurso tem sido marcado por conquistas e sucesso. Uma paixão pela arte do saber vestir que encontra alguma razão de ser na mãe, contou. A partir daí, os momentos foram surgindo até aos dias hoje, em que a marca já tem um nome. “Sempre vi a minha mãe a costurar. E sempre tive essa curiosidade de querer saber o que ela estava a fazer. Só em 2008, quando conheci um amigo estilista, participámos na ‘Moçambique Fashion Week’. Não era nada fácil porque ainda hoje é um dos maiores eventos de moda no país e do continente. Era um evento muito fechado. A produção viu o nosso trabalho e gostou, tudo começou aí”, recordou.
Um ano mais tarde, apostou na colecção masculina para apresentar no mesmo evento e as coisas foram acontecendo. É nas roupas masculinas que o jovem estilista encontra conforto, mas, sendo este projecto já um negócio, teve de optar por algumas mudanças, sobretudo ao nível do traço. “No início exagerava um bocadinho nos traços mas depois percebi que o meu país e os meus clientes queriam consumir a Moda e então comecei a filtrar e a definir uma linha mais simples, com algo diferente no traço. Geralmente faço peças vestíveis, normais e por isso é que a minha linha virou comercial”, relatou.
Conceição Carvalho
Pela passarela da MIF também desfilaram modelos vestidas com a “influência mestiça, conforto, frescura e a alegria” que caracterizam Conceição Carvalho, natural de Bissau. Criadora de moda guineense, é também a fundadora do projecto “Bibas” – uma marca pensada há 30 anos mas que há 25 começou a ganhar mais corpo e dimensão apesar da sua formação académica ser design de interiores.
“Fiz decoração de interiores e quando estava a estudar em Portugal, nos anos 80, trabalhei algum tempo como manequim mas a parte que me encantou mais foram os bastidores. […] Depois voltei para Bissau e via os nossos panos africanos que ninguém usava como roupa. Fizemos disso uma brincadeira num aniversário de uma empresa e propuseram-me fazer um desfile. Foi aí que começou”, recordou a este jornal.
Com o negócio estabelecido há mais de duas décadas, Conceição Carvalho admite não ser possível viver exclusivamente da moda, por isso é que a “Bibas” lhe permite enveredar pelos negócios de organização de eventos, agenciamento de modelos, etc. “O meu público-alvo é o guineense que não tem possibilidade de comprar lá fora, mas por enquanto são os estrangeiros e alguma “pseudo-elite” que já vão comprar porque as pessoas com possibilidades acham sempre que o nacional vem depois. É uma luta constante na Guiné-Bissau como em qualquer outro país”, onde, recorda, a “moda começou a aparecer agora”.
“A moda na Guiné é muito difícil porque tem muito a ver com a política. Somos um país instável, com sucessivos golpes de Estado é uma luta. É quase como um filho que tenho de tratar eternamente como um bebé […] mas tenho de ir com calma, carinho, paciência. Faço mais uma moda pelo prazer, estado de espírito. E, quando faço os desfiles que normalmente são um acontecimento em Bissau, arranjo novos espaços, transformo-os e durante duas horas o prazer que me dá é que as pessoas que estão a assistir esquecem-se dos problemas”, destacou.
Clara Brito
Neste sentido, e também porque foi impossível financeiramente levar a marca para o estrangeiro, Conceição Carvalho está confiante de que irá conseguir tirar partido da evolução do mercado da moda guineense e da presença em eventos como a MIF para que a “Bibas” se internacionalize. “Bissau de facto já está pequenina para mim, tenho de me expandir. Este ano vou alargar a marca e pô-la lá fora”, salientou, notando que a presença em Macau é “muito importante”. “Impor a moda africana no estrangeiro é muito importante porque as pessoas acham todas muita piada aos panos mas ainda não vestem. A roupa africana está, neste momento, com muita qualidade. A China é extraordinária porque é moda em todo o lado. É um prazer enorme estar cá”, rematou Conceição Carvalho.
O desfile também contou com a participação de Joe Chan (Taipé), Jin Hui (Cantão), Otto Tang (Hong Kong), Chantelle Cheang (Macau), Pimsiri Nakswasdi (Banguecoque), Hanz Herlz Pableo (Cebu) e Rainie Choi e Alo Lo (Macau).
Design de moda transfronteiriço
Além do desfile, o CPTTM organiza amanhã (entre as 12:00 e as 13:30) uma sessão de partilha de experiências sobre a visão e a moda transfronteiriça. Do painel farão parte Conceição Carvalho (na qualidade de fundadora, gerente e designer da Bibas) e Clara Brito, fundadora e designer da MunHub (projecto pós -“Lines Lab”), uma espécie de “plataforma de ligação e que tem tido várias iniciativas desde a organização de desfiles e de apresentação de marcas, alguma vertente comercial”.
O projecto foi estabelecido em 2014 e desde então tem ajudado a trazer marcas para divulgar produtos em determinados certames ligados à indústria de Macau e da região e, assim, “aproveitar esse património e experiência, ainda que numa pequena escala porque somos uma marca pequena, para catapultar isso para outras marcas que pudessem estar interessadas em explorar este mercado que não deixa de ser difícil, mas aliciante”, explicou Clara Brito.
Pedro Noronha Feio
Desde que Clara Brito e Manuel Correia da Silva criaram a “Lines Lab” mudou muito a forma como a moda é pensada, criada e consumida. “Olho com a consciência de que evoluiu muito, mas ainda há muito mais para crescer porque apesar de tudo Macau é um mercado muito específico, pequeno, procurado por marcas de luxo”, frisou a designer.
Por outras palavras, disse Clara Brito, este sector ainda é “muito recente” no território. “Quando cheguei a Macau a maior parte das pessoas que trabalhava no mundo da moda era essencialmente costureira. Em 10 anos fez-se a transferência e começa-se a falar em desenho mas ainda há um longo caminho a percorrer”, entendeu.
De um modo geral, e é também essa mensagem que será passada no sessão de amanhã, o conceito da MunHub é “um trabalho que está a ser feito quer ao nível das relações que temos quer com o mercado local, Governo e outras entidades que apostam e promovem este tipo de eventos e acima de tudo com as marcas”. “Acredito que tudo se vai fazendo percebendo as necessidades das marcas e que marcas são essas que têm interesse de entrar nestes mercados. Uma coisa é fazer um certame, outra é estar a trabalhar mercados específicos e isso leva anos e exige investimento”.
Portanto, “o grande desafio não passa só por sensibilizar ou responder bem aos desafios do Governo, passa depois pelos desafios que as marcas têm para que seja um jogo ganho dos dois lados. Esse é que é o desafio e o trabalho maior… encontrar um mercado”, frisou Clara Brito.
Na 23ª edição da MIF, a “MunHub” tem representadas 16 marcas de design e moda, sendo a maioria portuguesa, havendo ainda uma do Brasil e de Moçambique. Dessas 16 faz parte a “Pecegueiro & Fos” – uma marca portuguesa, pensada e criada por Sara Lamúrias e Pedro Noronha Feio, designer e criativo que estará também no painel de oradores de amanhã.
A “Pecegueiro & Foz” nasceu há sensivelmente um ano, inteiramente dedicada a roupa para crianças e augura já um futuro promissor: com duas lojas em Lisboa, a marca vive praticamente das vendas directas a partir desses espaços. “É extraordinário. Temos tido essa sorte, trabalho e tem tido muita aceitação e uma evolução muito positiva. […] Perceber como funcionam as vendas é um caminho muito construtivo para qualquer marca de autor. É talvez a forma mais fácil de um pequeno criador conseguir ter alguma sustentabilidade que seja fruto do seu trabalho que permita alimentar o projecto e fazê-lo crescer”, disse Pedro Noronha Feio em declarações a este jornal.

Nesse contexto, e estando a marca ainda numa fase de maturação, a presença de Pedro Noronha justifica-se muito por esta vontade – e também necessidade – de conhecer os mercados estrangeiros e de pensar de “forma global”. “Todos os designers pensam dessa forma e não há outra forma de o fazer mas temos [para já] uma política de sustentabilidade local porque é mais fácil controlar a máquina, a estrutura. Mas estamos a apostar na divulgação da marca através das plataformas online e das parcerias, aproveitar a vinda a Macau, as Feiras Internacionais que andamos a estudar, ao mundo”, salientou.
“Temos a língua que nos une e uma herança cultural que nos aproxima a todos e isso cria sinergias. Temos vindo a estreitar esta relação com a MunHub e com a LinesLab que têm estado muito próximos do nosso projecto ‘Capelista Design Studio’ e foi a convite da MunHub que viemos porque faz sentido, é uma relação que temos vindo a desenvolver e queremos estreitar”, afirmou.
O Capelista Design Studio – um gabinete de prestação de serviços de design para a indústria do vestuário e da moda – será também tema de conversa de Pedro Noronha durante a sessão de partilha de amanhã como exemplo de operação comercial no mundo da moda. “Surgiu como um congregar e um juntar de forças. Trabalho com a Sara Lamúrias – minha sócia e com quem sou casado – mas antes de nos conhecermos e surgir o Capelista trabalhámos durante muitos anos na indústria da moda. Cada um tinha a sua rede de contactos e clientes mas sentimos a necessidade de criar um chapéu de chuva que protegesse todos os nossos clientes e ao qual pudéssemos dar um nome, criar uma empresa, uma estrutura para melhor responder às necessidades dos nossos clientes e às nossas enquanto produtores e parceiros”, explicou.



