Macau está representado na Feira Internacional de Moçambique (FACIM) através de um stand do IPIM, entidade que durante o primeiro dia do certame se encontrou com Armando Emílio Guebuza. O Presidente moçambicano interagiu com a comitiva da RAEM, durante a visita ao certame, salientando o interesse de atrair mais bancos para um país que está a crescer muito rápido e necessita de maior desenvolvimento nesse sector
Fátima Almeida*
Em Maputo
Da chamada zona “nobre” de Maputo até ao recinto da Feira Internacional de Moçambique (FACIM) o caminho é tortuoso. Algumas das estradas ainda são de terra batida, embora nela se movimentem vários braços com o objectivo de conseguir infra-estruturas melhores que liguem várias zonas do país. De autocarro são necessárias cerca de duas horas. Do lado de fora da janela há quase sempre pessoas, mesmo onde muitas vezes não há nada: crianças descalças que caminham sozinhas em línguas de terra alaranjada, mães com bebés às costas, mãos que procuram terra fértil ou simplesmente carrinhas de caixa aberta apinhadas de pessoas, como se os corpos fossem troncos alinhados sem fôlego.
Depois dos solavancos, que o trânsito mesmo de manhã cedo já se vai apertando, à entrada do certame esperam-nos crianças com muitos sorrisos, que nos tocam no cabelo, ou nos colocam o braço em torno do pescoço para tirar uma fotografia. Elas são as estrelas que aguardam pelo Presidente da República, Armando Emílio Guebuza, para cantar antes do líder iniciar a visita ao pavilhão de Moçambique, mas ninguém lhes ensinou que deviam abraçar os convidados. Essa é uma vontade e curiosidade que faz parte da sua natureza. Ainda que nem sempre consigamos o retorno a um sorriso repentino elas surpreendem muitas vezes com saudações que enternecem.
Quando o Presidente de Moçambique chegou ao pavilhão do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), que representa o território no certame, já era tarde e as expectativas começavam a murchar, mas Armando Guebuza não desiludiu a delegação de RAEM e não só recebeu das mãos de Echo Chan um presente que simboliza a presença no evento, como pediu que mais bancos se instalem em Moçambique. Numa curta conversa, no meio do aparato que cercava o líder de Moçambique – que deixará o cargo depois das novas eleições marcadas para Outubro – foi feito o apelo.
“Deviam fazer alguma coisa para trazer alguns bancos para Moçambique. O país está a crescer muito rápido. Temos bons bancos mas não temos os suficientes”, reconheceu Armando Emílio Guebuza, quando a directora executiva do IPIM lhe apresentava alguns membros da delegação.
Além de ficar a saber que a comitiva de Macau em Moçambique conta com cerca de 30 pessoas, 26 dos quais são empresários, Guebuza foi ainda informado pelo presidente da Associação de Jovens Empresários Portugal-China que estão a ser encetados contactos com a Associação de Jovens de Moçambique e com a Câmara do Comércio para que os empresários do país africano estejam presentes na Feira Internacional de Macau que se vai realizar entre 23 e 26 de Outubro. “Eles irão de certeza, porque a amizade é tal que somos próximos, mas eu quero um banco aqui”, insistiu o líder moçambicano.
Este ano a FACIM, que é a das feiras mais importantes de Moçambique em termos de negócios, aumentou o número de participantes em 700 empresas ao juntar no recinto de Marracuene cerca de 2700. Portugal albergou num pavilhão 50 empresas e segundo o vice-primeiro ministro, que esteve presente no evento, a competição é uma realidade que não trava Portugal mesmo perante as ameaças do investimento chinês que tem dados sinais de grande vitalidade.
A força chinesa
Não é só na construção de infra-estruturas que o gigante asiático está presente em Moçambique. Também na agricultura se mostra activo, nomeadamente na produção de cereais. Nurmahomed A. Saccor, director comercial de uma empresa de manuseio de cereais, é um dos exemplos de empresas moçambicanas que já tiveram contactos com firmas chinesas neste sector. “Na agricultura em geral já tem havido investimento de tal modo que o arroz está a ser produzido pelos chineses e também contamos com eles no mercado na eventualidade do arroz ser exportado e precisarem das nossas facilidades para tal”, explicou ao JTM, notando que os silos da sua empresa têm capacidade estática para 45 mil milhões.
Também o Brasil procura oportunidades na área da pecuária já que tinha presente no certame uma empresa que representa dezenas de firmas que se dedicam desde da exportação de gado de porte até ao tratamento de fertilidade dos animais, explicou ao JTM o coordenador de projectos da Câmara do Comércio, Indústria e Agro-pecuária Brasil-Moçambique. Lucas Barbosa não consegue precisar quantas empresas brasileiras estão no mercado moçambicano mas as perspectivas são de crescimento. “A tendência é cada vez mais aumentar a prestação de empresas brasileiras aqui na FACIM, porque as relações Brasil-Moçambique têm crescido nos últimos anos. Em seis anos o comércio cresceu 100 por cento”, afirmou.
A necessidade de parcerias por parte de Moçambique levaram a que, por exemplo, a brasileira Integral Sistemas fosse contratada há cerca de três anos para fazer uma nova versão do sistema informático do serviço de segurança social, cuja primeira fase já foi concluída. “Na realidade foi o Governo de Moçambique que nos contactou. Há muitos anos tínhamos feito o sistema de segurança social do Brasil e aqui estavam à procura de uma solução e foi isso que nos motivou”, referiu ao JTM Ronald Sekkel, notando alguns dos desafios de trabalhar neste país africano.
“A similaridade com o Brasil é o idioma, mas a cultura é completamente diferente então tivemos que nos habituar e aprender o modo de vida daqui”, começou por referiu. “Com este projecto vemos que há uma carência de trabalhadores especializados nessa área em que são necessários profissionais muito específicos e que aqui ainda não há. Temos que trazer profissionais do Brasil, mas aos poucos vamos acertando tudo”.
Para já, a Integral considera que o trabalho que tem para desenvolver em Moçambique vai ocupar muito do tempo da empresa, mas não deixa de ter perspectivas para outros países, como Angola. Ronald Sekkel afirma que ouve falar muito do estímulo das relações entre a China e os Países de Língua Portuguesa, mas que tal mensagem prolifera mais fora do Brasil do que no interior. “Ouço falar mais fora do Brasil do que propriamente no Brasil, porque o Brasil está muito preocupado com os seus próprios problemas, apesar de haver incentivos por parte do Governo para que façam negócios com os países de língua Portuguesa”.
A FACIM foi inaugurada na segunda-feira e decorre até ao final do mês. Ontem, teve lugar também o Encontro de Empresários para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Portuguesa que contou com a participação do Primeiro-Ministro de Moçambique, Alberto Vaquina e terá intervenções de Angola, Brasil, Cabo Verde, China, Guiné-Bissau, Macau, Portugal e Timor-Leste. Da parte da RAEM estavam previstos discursos de Jackson Chang, presidente do IPIM, e Chang Hexi, secretário-geral do secretariado do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países da Língua Portuguesa.
*A jornalista do JTM viajou para Moçambique no âmbito de uma delegação empresarial.




