A Feira Internacional de Macau tem este ano Moçambique como país parceiro e Fujian como região em destaque, ocupando cada um deles os pavilhões diante da entrada principal do evento. Fujian está representada por 50 empresas de diversos sectores que procuram parceiros. Já Moçambique pretende desenvolver quatro áreas específicas: agricultura, turismo, energia e infra-estruturas

 

Inês Almeida

 

Na 23ª Feira Internacional de Macau (MIF, na sigla inglesa), que começou ontem a par da Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa 2018 (PLPEX), há dois pavilhões temáticos especiais: de Moçambique, que é o país parceiro de 2018 e conta com uma delegação de 90 pessoas e 14 empresas, e Fujian, a Província parceira que trouxe 150 pessoas e 50 companhias.

O Ministro da Indústria e do Comércio de Moçambique explicou ontem a conjuntura do país no momento em que está em destaque na MIF. “A importância é estratégica nesta altura em que o país está a dar início a grandes projectos na área do gás. São projectos de capital intensivo mas que precisam de muitos serviços acessórios. Nós temos uma política de conteúdo local onde pretendemos privilegiar o empresariado local, mas isso nunca prejudicando o andamento do projecto”, apontou à margem da inauguração do pavilhão moçambicano.

No entanto, ressalvou Ragendra de Sousa, “não tendo capacidade interna, o país está aberto a convidar empresários e esta é a plataforma ideal”. “Daqui falamos para Portugal, Angola, Cabo Verde e também para Macau e para a China”.

Embora tenha destacado logo o sector do gás, Ragendra de Sousa aponta que há muito trabalho a fazer noutras áreas em Moçambique. “Moçambique é um país grande e com pouca densidade populacional, o que exige da governação um esforço duplicado de infra-estruturas, escolas, estradas, hospitais. Não iremos pela política de espalhar infra-estruturas. Iremos concentrá-las para, ao mesmo tempo, criar economia de escala. Não faz sentido montar um hospital para 500 pessoas, faz sentido sim montar um hospital numa zona onde possa atrair 5.000 ou 10.000 habitantes”, defendeu.

Na agricultura, como nas infra-estruturas, impõe-se a questão da densidade populacional. “Temos quatro habitantes por campo de futebol. Não se joga futebol com quatro pessoas, no mínimo são 22. O que quero dizer é que há muito espaço para a agricultura”.

No que ao investimento diz respeito, o Governo de Maputo optou por quatro áreas estratégias: agricultura, turismo, energia e infra-estruturas. “Dentro das gerais, se tivermos de fazer uma análise custo-benefício, aquela que é mais atractiva é o turismo. Se estivermos a falar de uma ponte ou de uma barragem, além do elevado custo e tempo de execução, o retorno é muito demorado”, frisou Ragendra de Sousa.

 

Mudanças no turismo

Moçambique trouxe comitiva de 90 pessoas

Após a inauguração da MIF, Ragendra de Sousa reuniu com o Secretário para a Economia e Finanças da RAEM para discutir a questão do investimento em Moçambique. “Vamos empurrar o futuro investimento para projectos ‘BOT’, ‘build, operate and transfer’. Um investidor é responsável por investir, operar, ganhar dinheiro, depois, de facto, ou continua ou transfere para o Estado. Desta maneira, temos a certeza de que qualquer investidor se preocupa com a receita”, apontou o ministro.

A indústria ligeira será uma consequência do investimento na agricultura. “O nosso Produto Interno Bruto (PIB) per capita, daqui a 10 anos, vai para os 900 dólares. Com essa renda, o habitante deixa de se preocupar com a comida, mas preocupa-se com as indústrias ligeiras como a geleira, o fogão, a mota ou a bicicleta. Este tipo de indústria vai ser procurada, mas não vamos esperar que a renda chegue lá. Começamos agora e quando ela chegar o produto já é oferecido”.

Com Lionel Leong, o governante moçambicano pretendia também abordar a questão das oportunidades e do modelo de financiamento que o país procura. “Se nos doar, não podemos negar, mas vou evitar pedir doação. Chega de pedir doação”.

No entanto, Macau pode apoiar ao desenvolvimento na área do turismo. “Temos 2.500 quilómetros de costa, partes do território que ainda é virgem, onde o ser humano não chegou. Macau é um dos melhores parceiros para isso, para aquela nossa zona”.

No fundo, destaca Ragendra de Sousa, para que o sector se desenvolva é preciso “abandonar o turismo de baixa renda”. “Temos de ir para o turismo de renda média e alta porque nós estamos a oferecer um produto de qualidade: água a 30 graus, sol a 35 ou 40 graus, uma floresta ainda não tocada. Mas temos de capitalizar nesses produtos”.

Ragendra de Sousa acrescentou ainda que, numa primeira fase, o país foi “obrigado” a manter-se num turismo de baixo valor, “condicionado pela África do Sul”. “Estamos a desperdiçar Património por esta política de turismo de baixa renda. Tem de mudar”.

A par de Moçambique, a MIF também destaca este ano a Província de Fujian. Xiao Yi Yi, representante de um grupo de 34 empresas oriundas daquela zona da China explicou que na Feira estão companhias que se dedicam à comercialização de seis tipos de chá, ao fabrico de cerâmicas, acessórios e sapatos além de empresas de “tecnologias inteligentes”.

A responsável destacou que todas as companhias têm como objectivo para a MIF mostrar os seus produtos e atrair investimento, além de fomentar a cooperação entre empresas de Macau e Fujian para, assim, “chegar ao resto do mundo”.

“Cooperação-Chave para Oportunidades de Negócio” contonua a ser o tema da MIF, que este ano acolhe mais de 1.500 stands de exposição numa área de 24.000 metros quadrados. Esta edição conta com cerca de 1.000 empresas e instituições expositoras, estando agendados para os três dias mais de 30 fóruns e outras actividades temáticas.