Concretizou-se ontem o lançamento de três livros do Instituto Internacional de Macau (IIM) sobre missionários que passaram pelo território no século XX, por terem sido agora traduzidos para língua chinesa. O IIM espera dar a conhecer valores culturais de Macau à comunidade chinesa

 

Salomé Fernandes

 

Arquimínio da Costa, Lancelote Rodrigues e Mário Acquistapace foram figuras religiosas que passaram por Macau e cujo legado educativo e social motivou que o Instituto Internacional de Macau (IIM) publicasse livros sobre a sua vida. Ontem, realizou-se no Paço Episcopal da Diocese a apresentação dos três livros, que já existiam em Português e foram agora traduzidos para Chinês, numa sessão que contou com a presença do Bispo D. Stephen Lee.

O IIM tem uma colecção de livros sobre os missionários que trabalharam em Macau. “Temos 10 livros já em Português e achamos que é importante a comunidade chinesa inteirar-se do que nós estamos a fazer e do que certos missionários fizeram em Macau durante o século passado. E acho que o Instituto existe não só para os falantes de língua portuguesa, queremos também que a comunidade chinesa perceba os valores culturais de Macau”, disse o secretário-geral do IIM, Rufino Ramos.

Para além de dar a conhecer outras personalidades à comunidade chinesa, reaviva-se também a memória dos portugueses. Os livros traduzidos “são porventura os mais conhecidos”, mas há outros nomes. E também por isso o IIM está a preparar duas obras novas, desta vez a serem escritas directamente em Chinês, devendo posteriormente ser traduzidas para Português. Um deles sobre o padre Luis Ruiz, que deverá ficar pronto até ao final do ano.

A dificuldade tem sido em encontrar um escritor, do mesmo modo que foi complicado encontrar um tradutor para um outro livro em Português que já está a ser trabalhado. “Temos tentado fazer isto com tradutores da China e o resultado não é tão bom. Tem de ser alguém que perceba do ofício, perceba certas terminologias. E neste momento já temos uma pessoa identificada”, comentou Rufino Ramos.

Distribuir os livros é outra luta. “Estamos a tentar distribuir esses livros fora de Macau. Na China é um bocadinho mais difícil. Vamos tentar distribuir esses livros pelo menos em Hong Kong. Temos um website onde as pessoas podem comprar o livro, estejam onde estiverem, mas não garanto que na China consigam recebê-los. Mas fazemos todo o possível para difundir e distribuir os livros”, reconheceu.

O padre Lancelote era um homem popular, que detinha confiança junto dos indivíduos com cargos diplomáticos de Hong Kong, com quem se dava bem e bebia whisky. “Mas no final fazia a sua obra de caridade, colocava os refugiados do Vietname no seu sitio próprio, arranjava local onde emigrarem. Creio que muita gente fora de Macau conhece bem o padre Lancelote porque passaram pelas mãos dele. Ele ajudou-os a todos”, frisou o secretário-geral.

Também conhecido pelo seu papel na área social, o padre Mário Acquistapace, italiano, “trabalhou pelos pobres, viveu uma vida quase de santo na missão de Coloane, fez muitas obras sociais também”. Arquimínio da Costa, por sua vez, foi o último Bispo de Macau português, que “era muito popular, expressava-se correctamente em cantonense, dava-se muito bem com toda a gente, esteve muitos anos em Macau e trabalhou no sector da educação”.

Questionado sobre o papel que os padres podem ter na promoção de maior igualdade de direitos entre a comunidade residente e de trabalhadores não residentes, Rufino Ramos respondeu que a “os padres poderiam dar o seu contributo para que haja uma sociedade mais harmoniosa com menos desigualdade”, acrescentando que “pelo menos é o princípio que a Igreja ensina”.

 

Adesão deixa a desejar

Eduardo Tavares foi aluno de Arquimínio da Costa, um homem que descreve como sendo “de muitas qualidades e também muito dedicado a tudo quanto fazia”, que “falava várias línguas, todas razoavelmente bem e transmitia os seus conhecimentos aos alunos com amor e dedicação”. O ex-seminarista marcou presença no evento através do Coro de S. Tomás, que cantou na cerimónia.

Recordou os tempos em que Arquimínio da Costa dava esmola aos pobres que pediam à porta do seminário, reconhecendo que independentemente do propósito para que iriam usar o dinheiro, o seu papel estava cumprido.

A tradução destas obras, indicou Eduardo Tavares, é “uma coisa extraordinaríssima”. Mas lamenta que a iniciativa não tenha começado há mais tempo, no momento de publicação das primeiras obras em português, acreditando que a adesão da comunidade chinesa cultural, religiosa ou não, seria diferente.  “Lamento que houvesse tão pouca gente aqui, sobretudo da parte das escolas chinesas. São estrangeiros que deram tudo quanto tinham e todo o seu saber para a comunidade chinesa e não só, mas dedicaram-se, deixaram, semearam”, notou.

Eduardo Tavares acredita que “temos muitas coisas em Português que não estão em Chinês e deveriam estar”, para que a comunidade chinesa saiba “o bem e o mal, defendendo que a tradução de mais obras sobre missionários vai acrescentar valor não só a Macau mas também a Portugal.