No próximo ano, Portugal e a China celebram 40 anos de relações diplomáticas e Luís Filipe Castro Mendes assegura que a RAEM fará parte das comemorações até porque representa um papel de “grande importância” na divulgação de ambas as culturas, sendo uma “ponte natural” entre os dois países. O Ministro da Cultura não esquece que em 2019 também se assinalam os 20 anos da RAEM e sublinha a passagem para a administração chinesa “negociada, tranquila e pacífica”. O governante visitou a EPM, o Consulado-Geral de Portugal e marcou presença na inauguração da exposição das “Chapas Sínicas”
Inês Almeida
O sol e o calor não davam tréguas logo pela manhã quando o Ministro da Cultura português chegou à Escola Portuguesa de Macau (EPM), primeiro ponto de paragem da sua visita ao território. Depois de uma visita guiada conduzida pelo presidente e pela vice-presidente da direcção do estabelecimento de ensino, Manuel Machado e Zélia Mieiro, e uma curta reunião à porta fechada, Luís Filipe Castro Mendes mostrou-se impressionado e realçou a importância do aumento contínuo do número de alunos da EPM para a preservação da Língua Portuguesa. “Fico particularmente feliz por ver não só a qualidade e dedicação da escola e das pessoas que a dirigem e que nela trabalham mas sobretudo por estarmos a assistir ao aumento do número de inscrições, o que corresponde à visão que alguns de nós tínhamos em 1998, mas que não era partilhada por todos”, apontou o Ministro da Cultura.
Reconhecendo que, no princípio, registou-se uma quebra no volume de alunos, Luís Filipe Castro Mendes sublinhou que actualmente há uma progressão, o que significa que a Língua Portuguesa “é cada vez mais importante e atractiva para os outros e, sobretudo, para a comunidade chinesa e outras comunidades internacionais aqui”.
“A Língua Portuguesa é a língua de várias culturas, dos angolanos, brasileiros, moçambicanos, timorenses, é a língua também daqui de uma comunidade. A Língua Portuguesa tem essa qualidade de ser a expressão de variadas culturas”, destacou, acrescentando que “claro, para a cultura portuguesa e para o diálogo entre Portugal e a China, a presença aqui em Macau deste interesse pela Língua Portuguesa” é relevante.
O interesse pela língua, “que também é das autoridades chinesas que definiram Macau como uma plataforma cultural de relacionamento entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, traduz-se em iniciativas como as que trouxeram Luís Filipe Castro ao território, nomeadamente a Exposição “Chapas Sínicas – Histórias de Macau na Torre do Tombo”, inserida no “Encontro em Macau Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.
Depois de ter dialogado com o homólogo da China, Luo Shugang , em Pequim, Luís Filipe Castro Mendes reiterou algo que já tinha sido afirmado pelo Primeiro-Ministro português, António Costa em Maputo e que se prende com a importância do Fórum Macau para importância do Fórum Macau na relação entre a China e os Países Lusófonos. “O Fórum Macau é um importante instrumento entre os Países de Língua Portuguesa e de abertura em relação à China, à cultura chinesa, e ao papel que a China desempenha no mundo de hoje”.
Quatro décadas de relações diplomáticas
Luís Filipe Castro Mendes ficou a conhecer a biblioteca
O diálogo entre Luís Filipe Castro Mendes e o Ministro da Cultura chinês teve em vista também a organização de duas celebrações que devem acontecer em simultâneo: o ano da cultura portuguesa na China e o ano da cultura chinesa em Portugal. “Há vários tipos de intercâmbios previstos, ainda é cedo para anunciar, mas alguns passam por Macau, como não poderia deixar de ser”. Tudo acontecerá em 2019, quando se celebram os 40 anos das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China e, por coincidência, os 20 anos da RAEM. “Estamos a trabalhar com coordenação entre nós e com muito empenho e dedicação, foi o que a reunião em Pequim também evidenciou”.
A visita do Presidente chinês a Portugal, em Dezembro, vai incluir também uma “manifestação cultural digna” para receber Xi Jinping. “Entretanto, estamos a trabalhar no sentido de, no ano de 2019, ter várias manifestações culturais portuguesas na China e várias manifestações culturais chinesas em Portugal”.
A título de exemplo, Luís Filipe Castro Mendes salientou que no dia 8 de Fevereiro será celebrado o Ano Novo Chinês”, como sempre, com grande adesão popular”. “É uma festa muito popular em Portugal e, particularmente, na cidade de Lisboa e teremos, nessa altura, algum evento especial para celebrar o Ano Novo Chinês”, referiu. “A partir daí, teremos apresentação de companhias de bailado, chinesas em Portugal e portuguesas na China. Teremos apresentação de músicos, exposições”.
O Ministro assegura que já estão delineadas as exposições portuguesas a apresentar na República Popular da China do mesmo modo que já estão a ser preparadas salas em Portugal “para acolher exposições chinesas”. No fundo, resumiu, “está tudo a andar bem e a reunião que tive em Pequim com o Ministro da Cultura da República Popular da China serviu exactamente para acertar calendários, perspectivas e para continuar o trabalho que estamos a fazer e no qual, naturalmente, Macau terá uma participação”.
“Estamos a falar dos 40 anos de relações diplomáticas entre Portugal e a China. Em relação aos 20 anos da RAEM, estamos aqui neste grande festival de cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa, temos o maior interesse nele, a minha vinda insere-se no âmbito desse festival”, disse Luís Filipe Castro Mendes, acrescentando que Portugal “evidentemente” acompanhará a celebração dos 20 anos da criação da RAEM “com o maior entusiasmo”.
Uma “ponte natural”
O Ministro da Cultura acredita que as relações diplomáticas entre os dois países “se desenvolveram de uma maneira extraordinária” ao longo dos seus 40 anos. “Temos hoje uma relação estreita a nível económico, dos investimentos, do comércio, ciência e ao nível da cultura. Queremos que a cultura portuguesa seja mais conhecida na China e que a cultura chinesa seja mais conhecida em Portugal e Macau joga aí um papel de grande importância pois é uma ponte natural entre os dois países”.
Embora a RAEM não seja o único elo de ligação entre os dois países uma vez que Portugal pretende ter uma “relação global com toda a China”, Luís Filipe Castro Mendes destaca que “é evidente que Macau é um ponto essencial na relação com a China até porque é um bom exemplo de bom relacionamento, de uma concessão que é feita pelo imperador chinês a Portugal, a uma passagem para a administração chinesa negociada, tranquila e pacífica”.
Além de uma visita por todo o espaço da EPM, quase despido de alunos pelo facto de já terem terminado as aulas, Luís Filipe Castro Mendes visitou o Consulado-Geral de Portugal em Macau onde assinou o Livro de Honra e ficou a conhecer as instalações do Instituto Português do Oriente (IPOR). Depois da visita, houve uma breve reunião entre o Ministro da Cultura, o Cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, Vítor Sereno, e o director do IPOR, João Laurentino Neves.
Ao final da tarde, o Ministro marcou presença na cerimónia de inauguração da Exposição “Chapas Sínicas – Histórias de Macau na Torre do Tombo”, a par de personalidades como o seu homólogo chinês, Luo Shugang, o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, do director da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, e a presidente do Instituto Cultural, Mok Ian Ian.
Embora considerasse ser “cedo para fazer um balanço” da passagem pelo território e pela China, Luís Filipe Castro Mendes salientou a “reunião muito importante” que teve com o Ministro da Cultura e Turismo da China e o almoço que contou também com o Chefe do Executivo e o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura.
“Este almoço foi importante porque sentimos como os Governos de Macau e da República Popular da China estão a agir de uma maneira concertada e convergente no sentido de reforçar relações com os Países de Língua Portuguesa e de contar com Portugal e com o reforço das relações entre Portugal e a China”, sublinhou o Ministro da Cultura português.
Transladação de Pessanha “deve ser decidida pela família”
A questão da transladação dos restos mortais de Camilo Pessanha para o Panteão Nacional, em Portugal, chegou a ser levantada em 2016, no entanto, o actual Ministro da Cultura salienta que esta deve ser uma decisão da família. “Não fazemos questão de que o corpo de Pessanha esteja em Portugal. Camilo Pessanha é um grande poeta português. Nasce e faz a sua formação em Portugal vem para a China como funcionário e aqui apaixona-se pela cultura chinesa, integra-se na comunidade, e acaba a traduzir poemas de chinês para Português. É um poeta muito marcado pela poesia chinesa”, frisou Luís Filipe Castro Mendes. No entanto, acredita o Ministro, “a questão dos restos mortais dele deve ser decidida pela família, não por nós”.



