O Instituto Cultural seleccionou oito personalidades como transmissores oficiais do património cultural intangível, numa lista que inclui Miguel de Senna Fernandes pelo seu trabalho de promoção do teatro em patuá. A este jornal, o encenador dos Dóci Papiaçám di Macau descreveu a distinção como “um motivo de orgulho” e deferiu o mérito para o resto do grupo de teatro com quem tem trabalhado ao longo dos anos. Para Senna Fernandes, trata-se de “um sinal inequívoco de que a RAEM apoia o teatro em patuá”
PEDRO MILHEIRÃO
Miguel de Senna Fernandes foi uma das primeiras oito personalidades seleccionadas pelo Instituto Cultural (IC) como transmissores oficiais de património cultural intangível, pelo seus contributos na promoção do teatro em patuá. Ao TRIBUNA DE MACAU, o advogado afirmou tratar-se de “um motivo de orgulho”. “Naturalmente, isto é ver o nosso trabalho reconhecido ao mais alto nível cultural. É importante. Já tinha sido reconhecido a nível nacional, mas também é importante que haja um reconhecimento local. Portanto, as coisas passaram-se ao contrário”, brincou.
“Foi muito bom para o trabalho que andei a fazer durante estes anos todos”, continuou o encenador dos Dóci Papiaçám di Macau. “E é muito bom para o grupo de teatro, que durante estes anos todos foi fazendo as coisas e exteriorizando as minhas criações. Também é uma palavra de apreço ao próprio grupo”, sublinhou. “O grupo merece todo o meu respeito. E são eles também que fazem parte deste prémio”, fez questão de vincar.
Além disso, para Miguel de Senna Fernandes, “é um sinal inequívoco de que a RAEM apoia o teatro em patuá”. “Apoia-o com as características do teatro maquista. Não é só o grupo de teatro que está em palco, mas é o teatro em patuá”, ressalvou.
Indagado sobre como é que a distinção poderá beneficiar o teatro e o grupo nos anos vindouros, Miguel de Senna Fernandes acautelou que a equipa ainda tem de reflectir sobre o assunto. “Naturalmente, logo à partida, dá-nos acesso a muitas oportunidades de representação fora da RAEM. Não só noutras partes do Continente, a Grande Baía e outras cidades da China, mas outros sítios também”, destacou.
“Nunca descartei a hipótese de voltar a Lisboa, por exemplo. Mas quem diz Lisboa, diz outras partes, onde houver comunidade macaense ou portuguesa”, continuou. “Naturalmente, teríamos de fazer as nossas adaptações, porque nem todos falam ou compreendem o patuá”, observou. “Portanto, teríamos de ter a nossa estratégia para o efeito, sem desvirtuar o teatro”, anotou, reconhecendo que o grupo ainda precisa de “digerir esta boa notícia”.
Em antecipação à peça do próximo ano, Miguel de Senna Fernandes aludiu ao tema da Grande Baía como “pano de fundo”. “Já fizemos uma espécie de prelúdio com a Grande Baía, na peça deste ano”, recordou, tendo admitido que “as ideias mudam”, evitando comprometer-se em definitivo com o tema.
A lista dos transmissores do património inclui ainda Tsang Tak Hang, pela escultura de imagens sagradas em madeira, Ng Peng Chi, pela música ritual taoista, Au Kuan Cheong, pelas canções narrativas, Chan Kin Chun, com a promoção da crença e dos costumes de A-Má; Cheang Kun Kuong e Ip Tat, pela crença e costumes de Na Tcha e Lo Seng Chung, pela crença e costumes de Tou Tei.
“Ao longo dos anos, este grupo de transmissores tem continuado a promover a protecção do património cultural imaterial de Macau”, justificou Leong Wai Man aos jornalistas na quinta-feira, de acordo com a Lusa. Na conferência de imprensa, a presidente do IC referiu ainda que o valor dos prémios a atribuir aos transmissores “ainda está a ser definido”.



