A banda desenhada criada por Jean Graton, e continuada pelo seu filho Philippe Graton, volta a ter um volume onde o cenário principal da história é Macau. 35 anos depois de “Encontro em Macau”, a personagem Michel Vaillant regressa ao Grande Prémio e encontra-se com o filho
Salomé Fernandes
Foi ontem divulgada, em Macau e na Europa, a capa do segundo volume da colecção Michel Vaillant cuja história decorre no território. Depois de “Encontro em Macau”, em 1983, chega uma versão diferente da cidade e da vida da personagem. Mas há elementos de continuidade. Se no primeiro livro aparece a personagem de Teddy Yip, que convidou Jean Graton a ver o Grande Prémio de Macau (GPM), desta vez é o seu filho que integra o enredo, nas mãos de Philippe Graton.
“Não foi propositado mas conhecemo-lo na última edição do GPM. Ele veio cumprimentar-nos, e acabou por integrar o livro embora não com um papel central, apenas com uma aparição. A maioria das personagens reais são pilotos das corridas”, explicou Philippe Graton, numa conferência de imprensa organizada pelo Festival Literário.
Foi, de resto, o festival uma das causas para o novo livro. Philippe Graton esteve presente na “Rota das Letras” no ano passado com uma exposição de fotografia e começou a discutir a possibilidade de um número em Macau com o director do festival, Ricardo Pinto. “Um dos objectivos do festival literário é estar na origem de novos projectos, e este começou aqui”, sublinhou o director. “Foi amor à primeira vista, como muitas pessoas que vêm cá, porque era tão diferente de tudo o que tinha visto, mesmo na Ásia”, disse o autor.
Decidiu seguir com a ideia e em Novembro de 2017 voltou para recolher material e fazer investigação durante o GPM. Para além de Ricardo Pinto, os Serviços de Turismo e o Hotel Grand Lapa também apoiaram a vinda do autor. Na ocasião, Philippe Graton, que concebe o enredo em conjunto com Denis Lapière, sendo Benjamin Bénéteau o ilustrador, organizaram uma forma de um dos pilotos, francês, conduzir um carro Vaillante.
Nesta edição, apresenta uma competição entre jovens pilotos. “Isto é histórico na colecção Michel Vaillant, um regresso a Macau e o facto de que a realidade e a ficção se cruzam aqui. Isto é muito interessante e criativo para nós, escritores e ilustradores”, comentou Philippe Graton.
Houve, no entanto, desafios a serem ultrapassados. “O primeiro problema que encontrei quando comecei a fazer investigação sobre o GPM foi existir uma idade máxima para os pilotos participarem, só podem até aos 26. E é claro que o Michel Vaillant nunca diz a sua idade real mas é mais velho, por isso, precisámos de encontrar uma actividade que permitisse que estivesse cá sem competir, e outras coisas para fazer que o mantivessem como personagem principal da história. Obrigou-nos a encontrar uma história que acontecesse nas pistas do GP e na cidade de Macau”, descreveu.
Esta mudança é acompanhada de desenvolvimentos na história. No número 20 da colecção, mostra-se uma corrida em que no painel que marca as voltas e o tempo do piloto vinha uma mensagem a indicar que o filho dele tinha nascido. No entanto, esta menção ao filho é exclusiva dessa história e o rapaz não voltou a aparecer, até agora. “Imaginei que o filho devia ter estado escondido num colégio na Suíça para filhos de pilotos famosos, tinha 17 anos e estava zangado com os pais”, brincou Graton.
Para fazer a ligação entre os dois na RAEM, o filho, que é “geek”, fã de novas tecnologias e gosta de construir coisas, vem estudar para a Universidade de Macau, “porque está na vanguarda da investigação de chips”.
Com o enredo completo, estão agora a ser terminados os desenhos. Espera-se que o lançamento do livro, que deverá dar-se em Novembro, durante o próximo GP, seja acompanhado da publicação de um documentário “making off” da produção da banda desenhada, produzido pela organização do festival.
Mudanças de estilo
Philippe Graton começou a ajudar o pai com a colecção em 1982, com uma colecção de autor. Foi ele que procurou gráficas para as impressões e distribuidoras, para que passassem a ser editores de Michel Vaillant. Mais tarde, passaria a escrever o argumento para a série. Foi assim que surgiu o 57º livro.
No entanto, encontrava-se já no ramo há 25 anos, e preparava-se para começar a definir o cenário da 70ª história, quando a mulher o fez notar de que a primeira coisa que fazia ao acordar era suspirar. A falta de entusiasmo levou-o a parar a série, que só regressou em 2012. “Queria escrever histórias sobre tudo o que está a acontecer nos dias de hoje com carros, nova tecnologia, novas energias, com a indústria, isso era muito interessante. Mas estava preso com uma personagem inventada nos anos 50”, disse.
“À época eram histórias ilustradas para crianças, por isso tive de começar a tirar o pó do conceito e começar o que deveria ser uma boa banda desenhada”, explicou. Foi por isso que parou para reescrever as linhas principais daquelas que seriam as próximas aventuras de Michel Vaillant. “O público hoje é muito mais educado sobre histórias, porque já viram filmes e séries muito bem feitas e escritas. Por isso não se pode usar com este público a mesma maneira de contar histórias de há 50 anos”, comentou.
No regresso a Macau, Philippe Graton mostra uma cidade diferente, que não se foca apenas no GP e nos casinos, visto que essa é “a imagem que já se tem de Macau sem ter de vir cá, uma espécie de postal”. A sua experiência enquanto fotógrafo mostrou-lhe que uma das principais dificuldades ao chegar a uma cidade conhecida é lutar contra as ideias pré-concebidas que se tem desse local, para evitar fotografar aquilo que já se imaginava antes. “É preciso lavar a mente, começar com um novo olhar. Fui muito sensível a esta mistura única das culturas portuguesa e chinesa, algo muito típico de Macau. Queria usar isso como cenário de fundo da história”, frisou.
Uma janela de oportunidade
Há três culturas principais de banda desenhada no mundo. A dos EUA, a japonesa e a europeia. “Mas o engraçado é que tanto os estilos americano e japonês souberam como invadir o mundo com banda desenhada, através dos desenhos animados televisivos a influenciarem as novas gerações, algo que o mercado europeu nunca percebeu. Daí que muito do que se faz em França seja apenas lido lá”, notou Philippe Graton.
O objectivo do autor é que para além da tradução para português, inglês e neerlandês, o livro seja também publicado em cantonês e mandarim. “É sempre difícil porque as editoras estrangeiras costumam traduzir e publicar os livros meses ou anos depois da saída da publicação original”, expôs.
A tradução para português é garantida, explicou, porque “depois do mercado francófono, Portugal é o mercado que se segue com mais entusiastas [de Michel Vaillant]. Não sei se é por haver histórias da colecção passadas em Portugal, mas são muito interessados em desportos motorizados”.
Por enquanto, espera que “o facto de Michel Vaillant regressar a Macau e à Ásia, lhe traga oportunidades de publicar aqui”. Deposita a esperança no facto de cerca de metade dos leitores da colecção não serem adeptos de banda desenhada mas sim de desporto e carros. “Com esta especificidade podemos trabalhar com editoras menos tradicionais, que outras bandas desenhadas não iriam procurar”.



