A diversão do faz de conta e a gula uniram-se no sábado para dar vida a mais uma edição do Micareme. Com cada vez mais chineses interessados pela cultura macaense e a ambição de cativar mais pessoas a aderirem ao baile de mascarados, Miguel de Senna Fernandes quer que o evento venha a ser um marco identificativo da Associação dos Macaenses

 

Salomé Fernandes

 

É uma festa feita para as pessoas e animada pelas pessoas. O baile dos mascarados do Micareme que decorreu sábado no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, organizado pela Associação dos Macaenses (ADM) e pela Confraria da Gastronomia Macaense, deu vida a um mundo encantado de unicórnios e dragões, paralelamente a bigodes falsos, revoltas de bárbaros e desfiles de princesas da Disney ao estilo das zonas mais conhecidas de Macau.

“Aparenta ser uma festa muito concorrida. [É para manter] sempre. Para manter ou reviver determinadas coisas que correspondam a velhas tradições é preciso ter muita perseverança, há que insistir. E enfim, as tradições nascem e renascem desta maneira. É com a repetição e fazendo com que as pessoas se habituem a determinadas datas para impor um certo ritmo de existência do evento”, disse Miguel de Senna Fernandes.

Por norma celebrado para manter o antigo costume de suavizar o jejum da Quaresma, este ano o evento realizou-se apenas depois da Páscoa ter terminado. Mas a data não alterou a boa disposição do evento que pretende ser um pretexto para convívio.

“Cada vez há mais pessoas, cada vez mais temos participantes que são chineses. Acham muita piada. Isto corresponde a uma faceta lúdica da comunidade macaense”, disse o presidente da ADM. Apesar de acreditar na capacidade de renovação do evento, indicou que mantém a vontade de ver mais pessoas, como jovens e portugueses, a aderirem ao evento. “Hoje em dia todas as associações têm este problema de não ter membros mais jovens, porque [os jovens] têm outra maneira de ver as coisas, a própria noção da diversão obedece a outro tipo de regras e de chamariz. (…). Há um abismo geracional, mas apesar disso a festa faz-se na mesma”, frisou.

Para ajudar a ultrapassar as dificuldades em criar um evento que concilie a vontade de gerações mais velhas e mais novas, Miguel de Senna Fernandes mostrou-se aberto a sugestões da juventude sobre como actualizar a actividade, mas sublinhou que para isso se torna importante que “os jovens também apareçam”. Mas manter o evento e não desistir dele é, aos olhos do dirigente associativo, essencial. “Um dia deixo a ADM mas espero que isto fique como um marco identificativo em termos de actividade da associação”.

Já os portugueses, “talvez tenham também outro tipo de noção do que é lúdico”. Pelo que o presidente da ADM comentou que quer também atrair “à falta de outro termo, o público lusófono”. E sempre com um objectivo em mente: manter o Micareme como espaço de convívio. Uma meta que se voltou a atingir neste fim de semana, com música ao vivo e boa disposição a acompanhar o concurso de mascarados e os momentos de dança.

“O nosso papel é tentar manter a tradição dos macaenses que com a nova realidade, com as Casas pequenas, a falta de clubes, a falta de associações onde os macaenses se juntavam, veio fazer com que as pessoas tenham muito menos convívios”, apontou Luís Machado. O momento do chá gordo providenciado pela Confraria permitiu testemunhar o nascimento de conversas e risos entre os participantes em redor dos mais diversos pratos macaenses.

Luís Machado recordou que esse tipo de refeição juntava em grandes casas familiares 30, 40 a 50 pessoas em momento de festas religiosas como nascimentos e casamentos. “Começava com os jovens, depois os mais pequeninos iam-se deitar e os mais velhos ficavam e a mesa continuava cheia de toda a riqueza que é a gastronomia macaense. Às vezes também incluíam comida chinesa. Estas tradições estão muito em vias de extinção”, notou.

A festa que procura juntar duas tradições numa – o chá gordo e o baile de mascarados – juntou mais de 200 pessoas, uma adesão que agradou a Luís Machado. “E já estou aqui a ver muitos chineses o que mostra que estão interessados em participar nestes nossos convívios. Estas tradições fazem parte da identidade dos macaenses e não se podem perder. Assim como as fazemos aqui creio que as casas de Macau espalhadas pelo mundo também as fazem, pelo menos festejam muitos chás gordos ao longo do ano e isso tem sido também motivo de muito empenho dos macaenses que vivem na diáspora em querer manter estas tradições vivas”, disse.

O único contra foram as circunstâncias legais obrigarem agora a que a festa termine às 22h por causa do barulho. “Enfim, toda a cidade mudou”, limitou-se a comentar Machado.

 

Confraria continua a lutar por reconhecimento da gastronomia

Envolvida no projecto do Governo da RAEM que pretende criar uma base de dados sobre receitas macaenses e fomentar o conhecimento dos sabores locais, a Confraria mostra-se feliz com o reconhecimento dado à gastronomia macaense como património de Macau, mas não esqueceu voos maiores. “Continuamos a lutar para que seja reconhecido internacionalmente, mundialmente, na UNESCO e o Governo também ainda não fechou as portas e tivemos por parte do Instituto Cultural essa informação. A candidatura continua em aberto e vai passar pelo Governo Central da China, que tem várias candidaturas em lista de espera”, disse o presidente da Confraria.

Há cerca de quatro anos recebeu a informação de que demoraria 10 anos a receber uma resposta quanto à possibilidade da candidatura, pelo que espera vir a ter nova informação daqui a seis.

“Tenho fé de que o Governo Central leve em consideração que a gastronomia macaense é uma gastronomia de fusão das mais antigas do mundo. Tem quase 500 anos, tem acompanhado sempre a evolução desde que os primeiros portugueses aqui chegaram e que evoluiu, a cozinha é uma fusão por todos os sítios onde os portugueses passaram. (…) Não deve haver no mundo uma gastronomia tão rica e cheia de especiarias como a nossa”, sublinhou Luís Machado.