O segundo empreendimento da MGM China na RAEM vai intensificar a competição entre as operadoras com presença no COTAI e diversificar a oferta, entendem analistas ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU. O director do Centro Pedagógico e Científico na Área do Jogo do IPM mostra-se optimista em relação ao impacto do hotel-casino no desenvolvimento do COTAI. Penny Wan, do Instituto de Formação Turística fala de um novo “marco” e Glenn McCarthy defende que o empreendimento vai tentar distinguir-se da concorrência através dos elementos não-jogo

 

Inês Almeida e Viviana Chan

 

O MGM COTAI abre hoje com 100 novas mesas de jogo e 77 transferidas do casino da empresa na Península, bem como cerca de mil “slots”. O novo casino vai focar-se no mercado de massas e “premium” pelo que a zona VIP tem pequenas dimensões. Vários analistas mostram-se optimistas quanto ao impacto que o novo complexo hoteleiro terá numa área em crescente desenvolvimento há mais de 10 anos.

Para o director do Centro Pedagógico e Científico na Área do Jogo do Instituto Politécnico de Macau, a abertura do complexo é reflexo da intenção do Executivo de dar maior importância ao mercado de massas. Além disso, “o projecto integrou muitos elementos não jogo”, frisou Wang Changbin à TRIBUNA DE MACAU.

“Tive a oportunidade de visitar o interior, gosto do design, é muito moderno. O hotel tem cerca de 1.300 quartos e o casino está virado para o mercado de massas, por isso, só tenho comentários positivos a fazer”, sublinhou.

Questionado sobre a tardia entrada da MGM China no COTAI, o académico defende que é uma questão de estratégia. “Cada operadora tem as suas condições e limites. O COTAI foi fruto de várias fases de desenvolvimento. No início, o ponto central do jogo era a Península e as pessoas não tinham confiança na expansão do mercado no COTAI. Mas, agora está a ser transformado, portanto, as operadoras estão a abraçar cada vez mais esta zona. É uma tendência geral”, frisou.

No que se refere aos elementos não jogo, o MGM COTAI aposta na área da gastronomia. “A empresa convidou muitos chefs conhecidos mundialmente”, indicou. Além disso, num campo mais artístico, “há muitas instalações de LED na entrada, mantendo o mesmo estilo do MGM Macau mas de maiores dimensões”.

A futura abertura do Grand Lisboa Palace e do “Morpheus” vem intensificar a competição entre as operadoras de jogo, entende Wang Changbin que, no entanto, rejeita a ideia de um mercado saturado. “O conceito de mercado saturado é fixo, no entanto, o mercado real tem flutuações todos os dias. Podemos ser surpreendidos no sentido de mais oferta trazer também mais procura”.

Ao mesmo tempo, acredita que a concorrência entre os casinos é “inevitável”, pelo que a competitividade de cada empreendimento e respectivos projectos vão ser “a chave” para assegurar o fluxo de clientes. Além disso, aponta o académico, a concorrência é benéfica para os turistas, uma vez que o preço dos hotéis pode diminuir.

 

Mais concorrência

Penny Wan, do Instituto de Formação Turística (IFT), demonstra um optimismo semelhante. “A concorrência entre as operadoras de jogo vai ficar mais rígida e intensa depois da abertura do MGM COTAI”, porém, “é saudável e pode beneficiar os clientes, pois têm mais escolha e serviços de melhor qualidade”. “Acredito que o MGM Cotai vai ser uma nova marca para Macau. Vai proporcionar experiências mais diversificadas aos clientes que, hoje em dia, procuram novas experiências que vão além do jogo tradicional, hotelaria, restauração e compras”, defendeu a académica do IFT.

A também investigadora elogia ainda o foco nas “artes e arquitectura” que apelidou de “muito inteligente” tendo em conta que a maioria dos clientes, oriundos da China Continental, “ficam muito impressionados pela arquitectura imponente dos casinos, com um design exterior e interior sofisticado, luxuoso e artístico e, mais importante, um tema extraordinário”.

“A estética representa um papel crucial na formação da experiência dos clientes, especialmente no contexto de um hotel-casino. Um bom design arquitectónico e um tema extraordinário de um casino ou ‘resort’ integrado são elementos cruciais, atractivos e interessantes que levam os clientes a visitá-lo”, defende Penny Wan.

De qualquer forma, a isto tem de se aliar a “boa qualidade dos serviços, dos produtos e do entretenimento”. “Características únicas e um planeamento cuidadoso ao nível dos temas e do design são os principais elementos que o MGM COTAI traz”, aponta.

Mas será a sua chegada tardia? Penny Wan diz que não. “Há muitas razões para o atraso. Às vezes, não se deve apenas à operadora mas também outros factores como concessão do terreno, transportes, recursos humanos e condições do mercado”, indicou.

Por outro lado, a questão mais importante não se prende com a velocidade de construção de um empreendimento mas antes com o que é mais apropriado construir “pela sustentabilidade do turismo de Macau”. “A MGM está em Macau há muitos anos e já acumulou muitas experiências, positivas e negativas, ultrapassou dificuldades e desafios, por isso, pode ter uma melhor compreensão do mercado”, destacou Penny Wan. “Não diria que a operadora está atrasada mas sim que agora tem um entendimento muito mais claro do que está a fazer e a oferecer, o que pode ser benéfico tanto para a MGM como para Macau”.

Com um foco no desenvolvimento nas artes e na área da culinária, a académica espera que surjam “mais oportunidades de trabalho para os artistas locais, expositores, e aqueles que estão envolvidos no campo da restauração”. “Idealmente, a população terá uma nova plataforma para exercitar e exibir a sua criatividade e talento”. Assim, os casinos e hotelaria serão mais diversificados.

Além disso, Macau integra agora a Rede de Cidades Criativas da UNESCO no ramo da Gastronomia e espera explorar e desenvolver esse campo. “O Governo por si só é incapaz de atingir os objectivos de desenvolvimento, apenas consegue fazê-lo com ajuda do sector privado”.

Relativamente à abertura do hotel-casino muito próxima ao Ano Novo Lunar, Penny Wan tem uma perspectiva optimista. “O Ano Novo Chinês é um período de pico para Macau e muitos visitantes vêm nesta altura, sobretudo os da China e de Hong Kong. Com certeza a abertura vai conseguir atrair turistas que visitarão o complexo e procurem novas experiências”.

No caso das pessoas que não tenham, para já, planos para viajar até à RAEM, “também podem considerar vir e visitar o MGM COTAI”. “Os visitantes de Hong Kong procuram sempre novas experiências porque estão tão próximos de Macau que podem vir com facilidade”.

Porém, atenta a académica, a data de abertura mudou algumas vezes e as operadoras “têm de fazer uma promoção extensiva para chegar aos mercados desejados”. De qualquer modo, antevê Penny Wan, “a abertura do MGM COTAI pode levar a um salto no número de visitantes que chegam a Macau e todas as áreas devem sair beneficiadas”.

 

Bons resultados a longo prazo

Já Glenn McCartney acredita que a operadora beneficiaria de alguma antecedência face às celebrações. “Seria melhor se tivessem aberto há duas semanas porque teria a oportunidade de ir crescendo até ao período do Ano Novo Chinês. Ainda assim, abre antes das festividades, o que já é bom”, disse à TRIBUNA DE MACAU.

O professor da Universidade de Macau especializado em gestão de “resorts” integrados antevê que o número de visitantes que irá ao novo hotel-casino durante o Ano Novo Lunar será “bom”. “O MGM COTAI abre mesmo em cima do Ano Novo Chinês, tenho a certeza que os executivos têm uma estratégia planeada”. Ainda assim, ressalva, “a concorrência também se tem vindo a preparar para o Ano Novo Lunar e criou planos de acção para este período”.

Além disso, “os próprios visitantes já fizeram os seus planos e decidiram a que casinos querem ir”. Isso não significa que quando chegarem a Macau não visitem o MGM COTAI. “A agressividade do marketing nestes últimos dias e no próprio Ano Novo Chinês vai ser determinante para o volume de pessoas que irá ao casino e para as receitas, obviamente”.

De um modo geral, o MGM Cotai trará “novas ofertas” e vai tentar distinguir-se da concorrência “através dos elementos não-jogo”, entende Glenn McCartney. “É uma muito boa adição ao COTAI”, defende. Sobre potenciais consequências de uma entrada mais tardia no epicentro do jogo do território, o académico considera que a questão pode ser vista de diferentes prismas.

“Podemos olhar para a questão de duas formas. As primeiras pessoas que se aventuram num negócio são aquelas com quem se pode aprender. Os que chegam mais tarde aprendem com essas lições. Já passou algum tempo de presença do Venetian, do City of Dreams ou do Galaxy. Estão no COTAI há algum tempo, são muito agressivos, têm conhecimento sobre ‘marketing’ dos casinos, por isso, a concorrência é competitiva”, explicou.

Por outro lado, “a MGM terá os próprios objectivos a cumprir, tendo em conta o número de quartos e de mesas de jogo. A empresa vai ter objectivos específicos mas, em geral, o ambiente no COTAI é muito competitivo, por isso, retirar mercado à concorrência vai ser difícil, particularmente fazê-lo por um longo período de tempo”.

“Os primeiros meses de abertura nunca são critérios de medição ou bons indicadores de sucesso. Estou aqui há muitos anos, assisti à abertura do Sands, Waldo, Starworld, e uma das coisas que podemos aprender é que cada novo empreendimento vai tirar [mercado] a outros porque muitos dos jogadores chineses querem ver os novos, mesmo que tenham algum nível de lealdade a outro casino”, defendeu Glenn McCartney.

Porém, “é após os primeiros meses de abertura que temos de garantir a sustentabilidade dos visitantes. Todos vão querer ver o MGM Cotai de certeza, mas depois de dois ou três meses é que é possível ver se o crescimento do negócio está a ser sustentável. Há sempre um grande crescimento nos primeiros meses porque é novo, as pessoas querem ver, é natural”.

Outra questão a ter em atenção é a altura em que o casino abre. “A sazonalidade em Macau é importante. O segundo trimestre é normalmente mais lento e a concorrência intensifica-se. As empresas apostam mais no ‘marketing’ com ofertas focadas nos quartos e outros sectores que não o jogo, como a restauração”.

“As massas premium e os jogadores VIP são muito repetitivos. Vêm a Macau várias vezes por ano e são leais a algumas propriedades, portanto, o MGM entrando neste ambiente competitivo já deve ter investigado e está atento a todos os factores. Por isso, sabe como melhorar as ofertas para entrar no mercado com vantagens competitivas”, acredita Glenn McCartney.

Assim, o académico antevê uma forte aposta no “sector não-jogo pra adquirir novos segmentos de mercado não ‘canibalizando’ muito a sua base de clientes na Península”. “É preciso garantir que a presença no mercado vai aumentar com a combinação dos dois empreendimentos. A longo prazo é preciso atrair novos mercados”.

 

Espaços para a comunidade portuguesa se sentir “em casa”

Em linha com o que acontece no MGM Macau, o empreendimento no COTAI tem alguns elementos que destacam a ligação do território a Portugal. “Vamos ter o bar ‘patuá’, que é uma influência macaense e também tem um bocadinho de portuguesa. As bebidas e a arquitectura são muito portuguesas”, frisou Vanessa Estorninho. A supervisora das relações públicas sublinha ainda que o “Spa Tria” se assemelha a um “jardim português”. “Queremos que o MGM COTAI também esteja relacionado com Macau que tem uma história ligada à comunidade portuguesa. Por isso, queremos que a comunidade portuguesa se sinta em casa também”.

 

Um anfiteatro para o público “estar sempre a adivinhar”

Um dos grandes destaques do entretenimento do MGM COTAI é o Teatro do MGM, o primeiro no mundo a oferecer a opção de visualização a 28 milhões de pixels, utilizando um ecrã gigante LED a 4k, com 12 metros de altura e 66 de comprimento. “Temos uma sala com 1.400 lugares, mas como o sistema pode modificar a disposição, podemos ter até 2.000 lugares. Quando abrir queremos oferecer às pessoas uma experiência de realidade virtual mas para as massas. Agora se queremos realidade virtual temos de pôr uns óculos e é uma experiência muito individual”, frisou o vice-presidente de Entretenimento do MGM. Sylvain Guimond quer que o público “esteja sempre a adivinhar”. “Queremos que olhem para algo no palco e se questionem: É verdadeiro? É uma projecção? Procuramos estar sempre a mexer com a percepção das pessoas”.

 

Factos e números

-Resort disponibiliza 1.248 quartos regulares, 99 suites, 16 “Skylofts” e 27 “Mansion Villas”. Os hóspedes têm ao seu dispor sete restaurantes, uma pastelaria e um bar, bem como um “spa”, piscina com cabanas privadas e áreas de convívio, ginásio e estúdio de yoga.

-No domínio do MICE e entretenimento, a oferta inclui um “ballroom”, com capacidade para mil pessoas, e o “primeiro teatro dinâmico” de toda a Ásia, que pode receber até 2.000 espectadores.

-Com um investimento de mais de 100 milhões de patacas, a colecção de arte do complexo exibe 300 peças modernas e contemporâneas, desde pinturas a esculturas.

-O mais icónico emblema do MGM, o leão dourado, vai “guardar” a propriedade no COTAI a 11 metros de altura e com um peso de 38 toneladas. Esta é a primeira estátua dourada com ouro de 24 quilates e recorrendo a 32.000 placas de ouro.

-Um dos “destaques” do MGM COTAI é o “Spectacle” que usa 25 painéis de LED num átrio apresentando imagens à altura de quatro andares. O telhado tem uma área de 8.100 metros quadrados, o que é maior que um campo de futebol.

-A construção envolveu 16,7 toneladas de aço, equivalente ao usado para construir mais de 18.000 automóveis. Por outro lado, os 300.000 metros quadrados de cimento reforçado poderiam encher 90 piscinas olímpicas.

-Mais de 240 tipos de pedras são usadas no MGM COTAI. Durante dois anos a equipa do empreendimento viajou para locais como a Turquia, Europa, América do Sul, China e Hong Kong para seleccionar o melhor mármore e pedras.