A Associação dos Recursos Humanos de Macau considera que o mercado de trabalho para os quadros locais formados em língua portuguesa está a viver “desafios estruturais”, derivados da saturação das vagas de emprego existentes no território, do impacto da desaceleração económica e da popularização das ferramentas de tradução com recurso à Inteligência Artificial. Segundo estima, pelo menos 50% das centenas de graduados anualmente terão de procurar empregos noutras áreas de actividade. Ainda assim, Un Chong Wa disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que, entre os serviços governamentais e entidades de interesse público, ainda existe uma procura rígida por talentos de alto nível na língua de Camões, uma circunstância que deverá manter o “nível actual” no próximo ano e meio

 

O mercado de trabalho para os quadros de Macau formados em língua portuguesa está a enfrentar “desafios estruturais”, adverte Un Chong Wa, director da Associação dos Recursos Humanos de Macau. “O Governo tem sublinhado o posicionamento de Macau enquanto plataforma sino-lusófona. Por outro lado, na realidade, as vagas de emprego no mercado de trabalho local destinadas aos nossos alunos universitários graduados formados em Português não os conseguem absorver completamente”, descreveu, em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Segundo o mesmo responsável, as vagas de emprego relacionadas com a língua portuguesa existentes no território já estão saturadas, sendo que as disponíveis se concentram na tradução e trabalho administrativo em serviços governamentais, em cargos de nível básico em algumas empresas de turismo e lazer e em sectores específicos relacionados com o Direito, nomeadamente em escritórios de advocacia.

A associação estima que, nos últimos anos, “entre as centenas de quadros locais de língua portuguesa graduados anualmente pelas instituições de ensino superior locais, pelo menos metade terá de procurar emprego noutros sectores”.

Além disso, o líder associativo apontou que, embora os dados estatísticos indiquem que existirão actualmente no território cerca de 15 mil residentes que possuem competências de comunicação em Português, “o mercado laboral não estimulou, em grande dimensão, os sectores relacionados com esta língua” no sentido de “precisarem de mais postos de trabalho que requerem o envolvimento de quadros de língua portuguesa”. “Alguns novos mercados ou sectores emergentes ainda não despertaram a procura por essas profissões”, acentuou.

Concomitantemente, Un Chong Wa  observou que algumas empresas locais têm vindo a elevar constantemente os requisitos impostos aos quados que dominam a língua de Camões. Conforme descreveu, a mera tradução já não é suficiente para satisfazer a procura do mercado, sendo que as empresas preferem contratar quadros com uma combinação de competências profissionais e domínio da língua portuguesa, como talentos de Português com competências profissionais em finanças ou engenharia.

Apesar disso, nota que, no actual sistema de ensino superior, a integração do ensino da língua portuguesa com a formação noutras competências profissionais é ainda relativamente “rara”.

Por outro lado, Un Chong Wa afirmou que os níveis salariais nos sectores ligados à língua portuguesa “tendem a ser estáveis”. Contudo, revelou que, com o impacto da desaceleração económica, alguns sectores não governamentais têm registado uma quebra no volume de trabalho. Em consequência, as remunerações dos tradutores de língua portuguesa foram reduzidas, e algumas chegaram a ser cortadas para metade.

A par disso, frisou o director da Associação dos Recursos Humanos, nos últimos anos, a popularização das ferramentas de tradução por Inteligência Artificial (IA) tem substituído, de certo modo, a função de tradução presencial. Esse fenómeno levou mesmo alguns tradutores Chinês-Português a regressarem ao mercado de trabalho para procurarem novo emprego.

Ainda assim, o líder associativo salientou que os serviços governamentais e entidades de interesse público ainda manifestam uma procura rígida por talentos de alto nível em língua portuguesa, não tendo os respectivos postos de trabalho evidenciado fenómenos de despedimentos ou saturação.

 

Ofertas de emprego têm surgido em Hengqin

Relativamente às oportunidades de trabalho que nasceram na Zona de Cooperação Aprofundada, o director da Associação dos Recursos Humanos considera que o espoletar da procura por quadros de língua portuguesa em Hengqin vai depender das políticas dos dois governos em relação a esses talentos, bem como do grau de apoio que concedem às indústrias relacionadas. Na sua perspectiva, só com os negócios a crescerem, sobretudo aqueles relacionados com os Países de Língua Portuguesa, é que haverá mais procura por quadros.

Embora nos últimos anos tenham surgido em Hengqin mais postos de emprego relacionadas com a língua portuguesa, “a oferta das vagas não é muita” e “não vai conseguir absorver todos os quadros locais de língua portuguesa formados no território”. “Mas existe uma certa procura rígida”, ressalvou Un Chong Wa.

“A nossa associação entende que é preciso avaliar primeiro o ambiente geral, porque há muitos factores incertos a considerar… Temos de analisar a conjuntura geopolítica internacional, o desenvolvimento económico da RAEM e de Hengqin, como é que as políticas chegam a impulsionar o desenvolvimento dos respectivos sectores em Hengqin e o ritmo de crescimento destes aspectos de negócios, para podermos perceber o grau exacto de procura por quadros de língua portuguesa”, vincou.

Olhando para o futuro, Un Chong Wa referiu que a Associação dos Recursos Humanos assume uma previsão “cautelosamente optimista” sobre a situação de emprego para os quadros locais de língua portuguesa no resto deste ano e em 2027. Na sua opinião, haverá “uma certa procura” por estes postos de trabalho, mas o número de vagas “não será alto” nem irá aumentar de forma significativa, “devendo a procura manter-se no nível actual”.

Segundo previu, a curto prazo, o sector público continuará a ser a principal força da procura de quadros locais em Português, enquanto o desenvolvimento dos sectores económicos e comerciais relacionados com a língua portuguesa determinará a tendência geral da procura no futuro.