Noivos apanhados em pequenos fragmentos de realidade, enquanto posam estoicamente para fotografias, com o bairro histórico de São Lázaro como cenário, dão o mote à exposição de Vera Paz. Estes momentos mais naturais estão patentes no Albergue SCM, juntamente com vídeo, música e palavras soltas, que permitem ao visitante construir histórias de amor para as fotografias expostas e complementar um universo de amores sem beijos
Liane Ferreira
Até 24 de Outubro, o Albergue SCM recebe uma mostra com 30 fotografias de Vera Paz da associação cultural sem fins lucrativos d’As Entranhas Macau. “As noivas de São Lázaro” surgiram no caminho da actriz e produtora como uma “revelação” num bairro muito característico, mas que parece um pouco esquecido.
“O bairro é muito interessante porque foi o primeiro programado em Macau por um arquitecto espanhol. Tem mais de 100 anos e portanto tem essas influências do século passado, que se cruzam nas fotografias”, explicou Vera Paz à TRIBUNA DE MACAU, salientando que a selecção é apenas de noivas orientais. “O cruzamento é muito interessante, não apenas do ponto de vista plástico, mas também estético. São uma memória do bairro”, frisou.
Segundo recordou, no início começou a fotografar as poses “porque achava muito antinatural”. “Estão estáticos como uns modelos e então comecei a esperar e nos intervalos dessas poses existia o que acontece na realidade e talvez uma mostra da relação daquele casal. Aquele momento e esses fragmentos eram de verdade”, referiu.
Para a actriz, os noivos “querem eternizar aquele momento”, mas às vezes os casais nem sabem se vão ser um bom par e “antes do casal são pessoas”.
Na única fotografia que não foi tirada em São Lázaro, lembra-se que a noiva “naquele fragmento, aquele olhar, estava ali sozinha, naquele momento dela”. “Isto é o que me interessa, estes momentos. E que as pessoas consigam perceber o que vai além destas histórias e construir as suas histórias”, afiançou.
A exposição, inaugurada ao final da tarde ontem, é acompanhada por vídeo e música seleccionadas por si e design gráfico e multimédia de Bernardo Amorim, fundador e colaborador da associação d’As Entranhas em Lisboa e em Macau. “Não sou fotógrafa, então pensei 30 fotografias penduradas tão sozinhas? Como eles nunca se beijam e quase não se tocam, pensei: então mas e o amor sem o beijo, sem essa imortalização?”, disse.
É deste modo, que surge uma sequência de vídeo com trechos de filmes da década de 40 repletos de olhares apaixonados, que filmes de época transparecem. A este junta-se uma banda sonora ecléctica que vai da “Mulher de 40” de Marco Paulo a Nick Cave, Chavela Vargas, Edith Piaf e Tony de Matos.
“Há sempre o baile, onde com a música as pessoas se encontram e desencontram. A dança é um acto de amor.
As palavras na parede servem para fechar as fotografias, criar um cenário”, destacou a produtora.
Assim, os visitantes podem a partir das frases e palavras soltas montar a sua história para as fotografias, e ainda podem dançar.
“As fotos não têm edição, só foi escolhido o enquadramento. Não tenho nenhuma pretensão, porque não tenho nenhuma escola de fotografia, são as minhas memórias”, afirmou Vera Paz.
“Vale de Bonecas” na Pensão San Va
A exposição não é o único evento da associação d’As Entranhas Macau, fundada também por Vera Paz, que já tem marcada para 15 e 16 de Novembro, a peça “Vale de Bonecas”, na Pensão San Va, na Rua da Felicidade.
“É quase como se fosse a segunda parte desta exposição. A paixão, o casamento, o beijo e depois há o ‘Vale de Bonecas’. A história de quatro mulheres, baseadas em quatro princesas da Disney, mas que não tem rigorosamente nada a ver com essa história, é o que aconteceu a essas mulheres depois do beijo”, esclareceu.
As quatro princesas agora com 40 anos passam assim para a época contemporânea, “fechadas nos quartos a desfiar o rosário das suas vidas”. O público irá circular pelos quatro monólogos, conhecendo as suas histórias depois da “eternidade, do príncipe”.
Apresentada em 2014, nas lojas do antigo Teatro Turim, a peça tem uma fronteira muito ténue entre público e actor. “É uma peça diferente, em que o público e actor estão no mesmo espaço, quase um para um”, declarou.
A associação pretende organizar para o ano uma produção chamada “Made in China”, com a contribuição de actores locais. Mas, depara-se com dificuldades em encontrar os artistas.



