Estudantes da Escola Portuguesa tiveram ontem a oportunidade de conhecer, pela voz de quem esteve no terreno, episódios da Revolução de 25 de Abril de 1974 que não são relatados nos livros de história. João Soares falou do que viveu aos 23 anos e da experiência de estar na redacção do “República”, primeiro jornal a publicar sem censura prévia. Já Manuel Geraldes recordou a preparação de um golpe de Estado que resultou de uma votação no final do ano anterior
Inês Almeida
Dezenas de estudantes da Escola Portuguesa de Macau (EPM) ficaram ontem a conhecer histórias do 25 de Abril de 1974 que não constam das páginas dos manuais escolares, pela voz de quem fez a Revolução ou a viu de perto.
João Soares tinha 23 anos quando aconteceu a Revolução que “transformou o país por completo e parte do mundo também”. “O 25 de Abril foi um dos dias mais marcantes da minha vida. Foi um dia absolutamente excepcional, irrepetível”, contou. “A minha família esteve profundamente envolvida na luta contra a ditadura. Os meus dois avôs estiveram presos. Quando nasci, o meu pai estava na cadeia. Os meus pais casaram-se por procuração”.
Habitualmente, explicou o filho mais velho do antigo Presidente da República Mário Soares, “as pessoas eram condenadas em tribunais especiais que julgavam os crimes políticos e eram constituídos por juízes escolhidos pela polícia política e era aplicada uma pena”. “No final, a polícia tinha a possibilidade de prolongar a pena dentro do chamado regime de segurança, sem ter de passar pelo tribunal”.
Além do regime autoritário, o 25 de Abril parte de um quadro de miséria, ditadura, exílio dos melhores quadros e de uma “fadiga profunda” dos militares, associada à Guerra Colonial. “Os militares profissionais fartaram-se da ditadura. Ela não tinha solução. Eu tinha a noção que a ditadura tinha de acabar por um acto de violência revolucionária”.
Acabou por ter lugar “um golpe absolutamente fantástico, feito com imenso profissionalismo, meios razoáveis e que veio provar que a ditadura é um castelo de cartas sem ninguém a defendê-la a não ser a polícia política”.
O antigo Ministro da Cultura recordou o que viveu nesse dia. “Tinha uma tia que era analista química e tinha de se levantar muito cedo para ir trabalhar. Saía às seis da manhã de casa e, nesse dia, ligou para nossa casa a dizer para ligarmos o rádio porque estava uma revolução na rua. Começámos [João Soares e a irmã] a ouvir o Rádio Clube Português que tinha sido tomado pelo Movimento das Forças Armadas”.
A redacção do jornal “República”, naquele dia, “foi uma espécie de quartel-general dos apoiantes da revolução” e foi para lá que João Soares foi. “Até às 15:00 aquilo esteve tremido. Nós estivemos ali o dia todo. Passámos o dia 25 de Abril muito divertidos”. O diário vespertino foi ainda protagonista de uma importante mudança.
“Os jornais eram todos censurados e os Serviços de Censura estavam também na Rua da Misericórdia, como o jornal ‘República’. Houve uma discussão lá sobre se o jornal devia ser enviado à censura ou não, nomeadamente os títulos da primeira página. Acabou por ser o único a não ir à censura. Se a revolução tivesse falhado, a direcção teria sido toda presa nesse dia, mas correu tudo bem”, explicou João Soares. Depois, todos os que estavam na redacção foram para o Largo do Carmo com os jornais, distribui-los aos militares.
Numa espécie de balanço, João Soares frisou: “Todo o processo revolucionário que se prolongou até Novembro de 1975 foi relativamente pacífico. Sobram dedos das mãos para contar o número de mortos. É uma grande lição de Portugal para o mundo”.
A votação entre militares
Manuel Geraldes viveu a Revolução do seu interior. Desde a sua preparação até à concretização. “Fui contactado para participar no movimento de oficiais de forças armadas para derrubar a ditadura. A minha resposta foi imediatamente ‘sim’”.
A decisão de fazer uma revolução para derrubar o regime vigente partiu de uma votação entre militares. “Foi colocado a votação se os 170 militares iriam fazer um diálogo pacífico com o regime, se a par das reivindicações profissionais se faziam reivindicações políticas ou um golpe de Estado. Venceu a hipótese do golpe de Estado. Estávamos a 1 de Dezembro de 1973. O 25 de Abril acontecia daí a quatro meses”, contou o coronel, considerando que o sucesso da revolução resultou do facto de os militares serem “muito disciplinados”.
“Antes da revolução, eu e Otelo [Saraiva de Carvalho] andávamos por todo o lado para fazer a convocatória, pessoalmente, para o fracassado golpe das Caldas, que nos serviu para avaliar a reacção das forças do Governo”.
O coronel Manuel Geraldes acredita que foi determinante começar a Revolução com as duas músicas de código. “O ‘E depois do adeus’ significava ‘vamos avançar’, a outra significava ‘já não podemos voltar atrás’. Daí partimos para acordar os rapazes que já estavam a dormir e perguntaram o que íamos fazer. A resposta era: vamos fazer um golpe de Estado e acabar com este regime. Não tivemos uma única recusa”.
Por já saberem qual era a reacção do Governo, os militares chegaram ao primeiro ponto de paragem 15 minutos antes da polícia de choque. “Às 3:30 chegou a polícia de choque e começaram os primeiros tiros de aviso”. Depois de cinco minutos há um outro aviso. Manuel Geraldes tinha a responsabilidade de comunicar com o Posto de Comando e, nesse momento, os rádios não funcionavam. Foi necessário recorrer a telefones.
Os relatos sobre a Revolução de 25 de Abril de 1974 foram seguidos de uma actuação dos alunos do primeiro ciclo da EPM que cantaram “Somos Livres”, uma das melodias mais marcantes do final da ditadura. Todos os presentes na sala tinham um cravo vermelho na mão. A sessão terminou com “A Portuguesa”. Na EPM esteve também patente uma exposição de trabalhos dos alunos alusivos à data.
150 pessoas em jantar da Casa de Portugal
Para assinalar o aniversário do 25 de Abril, cerca de 150 pessoas vão participar num jantar organizado pela Casa de Portugal em Macau no 3º andar da Torre de Macau, hoje pelas 19:30. “Temos também o concerto dos ‘Vocalistas’”, recordou Amélia António à TRIBUNA DE MACAU. “Para o concerto é sempre preciso arranjar um espaço. Ao fazermos o jantar no dia 25, nunca se arranja uma sala para o concerto que seja tão próxima que ligue claramente uma coisa à outra, por isso, este ano, resolvemos optar por este modelo a ver se funciona bem”, frisou a presidente da Casa de Portugal.



