Ao longo destas duas décadas, a Escola Portuguesa de Macau tem crescido, tal como os alunos que ali fizeram o seu percurso escolar. Hoje em dia, vários antigos estudantes guardam recordações de episódios da vida quotidiana na escola, de amizades, interesses e até amores que surgiram das suas vivências no estabelecimento de ensino
Inês Almeida
Cresceram na e com a Escola Portuguesa de Macau (EPM). Lá formaram amizades, descobriram interesses, e tiveram experiências que os marcaram para a vida. Quem começou a estudar na EPM em 1998 quando ela entrou em funcionamento tem ainda memórias muito vivas do ambiente do estabelecimento de ensino e da sua evolução.
Cláudia Brandão saiu em 2002 da EPM, onde estudou desde o 9º até ao 12º ano. “Na altura, o que mais mudou para nós foi a questão do nome porque no primeiro ano a EPM ainda funcionou no antigo Liceu. No segundo ano foi quando sentimos a maior diferença porque mudaram-se as instalações. Também havia alguns professores que não tínhamos na época mas que já sabíamos da existência deles. Mantive os mesmos amigos, tive novos professores”, contou à TRIBUNA DE MACAU.
As maiores recordações que guarda dos tempos da escola são, “sem dúvida” os professores e os amigos que tem até hoje. “Quando comecei a sair à noite lembro-me de ficarmos naquela situação de encontrar os professores na noite, mas a verdade é que agora penso no assunto e, se na altura tínhamos essa desvantagem por ser uma cidade pequena, hoje é bom porque são nossos amigos”. “Tenho duas amigas agora que foram minhas professoras, fazem muito sentido na minha vida e, se calhar, não seria assim se não tivessem sido minhas professoras em Macau”, frisou Cláudia Brandão.
No que respeita a amigos e colegas, sobretudo no ensino secundário, a turma era muito pequena. “Do 10º ao 12º ano, começámos com 18 alunos na nossa turma e acabámos com sete. Ter o 12º ano com uma turma tão pequena foi muito bom porque éramos muito unidos, portanto, era para o bem e para o mal. Quando corria mal, corria mal para todos, quando corria bem, corria bem para todos. Isso trouxe uma união à nossa turma que é raro ver noutras escolas”.
Essa união levava a episódios algo caricatos. “Quando tínhamos um trabalho, éramos divididos em dois grupos, acabávamos por fazer tudo juntos e depois só mudávamos os nomes”, contou Cláudia Brandão. Outra memória que guarda é a de ter amizades já muito longas. “Tinha amigos que o eram desde o infantário. Isso também é difícil de encontrar. Mesmo que não estivessem na minha turma, conhecia-os desde sempre”.
“Foi na EPM que decidi o que queria ser, fazer, com ajuda dos professores. Sei que isso acontece em todo o lado mas em Macau, sendo mais pequeno, [os professores] tinham mais contacto connosco, falavam connosco fora das aulas. Tive apoio muitas vezes fora da escola quando precisava e sem dúvida que foi a EPM que me levou até onde fui: primeiro a Portugal, depois ao Brasil”.
De volta a Macau, Cláudia Brandão diz sentir “um grande orgulho” por estar a ajudar na organização e fazer parte das comemorações dos 20 anos do estabelecimento de ensino.
Um espaço muito activo
João Caetano recorda sobretudo os momentos ligados à música. Entrou para a EPM no seu “quarto ou quinto ano” e lá ficou até ao 12º, em 2007. “Tenho uma relação especial com a EPM. Fizeram-me uma homenagem quando saí da escola porque recebi um prémio a que chamaram o prémio de mérito cultural, entregue pelo Cônsul-Geral de Portugal em Macau na altura e pela presidente da direcção da escola, Maria Edith da Silva”.
Hoje, o músico recorda um estabelecimento de ensino com muita actividade. “Tenho memória de ser uma escola muito dinâmica, onde aprendi a respeitar a multiculturalidade, o espírito de equipa e, principalmente, tudo o que tem a ver com a amizade dos colegas e com lidar com diferentes tipos de pessoas, feitios e personalidades”. “As minhas memórias passam muito por essa parte pessoal e de grupo, de lidar com os colegas, normalmente não muito explorada nas escolas”, sublinhou.
Uma vez que “sempre quis seguir música”, João Caetano passava muito tempo na escola a ensaiar com uma banda. “Era um trabalho feito em paralelo. Estava muito envolvido nessa parte. Lembro-me desses momentos intensos de trabalho, de horas extraordinárias em que ficava na escola depois das aulas e ela era sempre um sítio que podia a qualquer altura utilizar para poder ensaiar e estar com outros colegas a pensar nos planos”.
A passagem pela EPM inclui ainda vários “momentos especiais” que acontecem todos os anos “como o campeonato de futebol, o dia da poesia, do inglês”. “É uma escola muito multicultural, aberta a Macau, e que tem alunos de várias nacionalidades e esse intercâmbio entre as diversas culturas é particular da EPM”, destacou João Caetano, que tem feito um brilhante carreira no mundo da música: faz parte do grupo Incognito e já colaborou com artistas como Chaka Khan, Leona Lewis, Jessie J, Anastasia ou Mario Biondi.
Por sua vez, Nuno Bandeira estudou na EPM até 2003. O ano de 1998 foi “engraçado”, porque juntaram-se na Escola “muitos miúdos que não se conheciam ou que mal se conheciam”, contou à TRIBUNA DE MACAU.
No entanto, houve também pontos menos positivos. “Foi o primeiro ano que tivemos uniforme, ao que eu não achei grande piada. No secundário não havia uniforme, mas no ensino básico usava-se. Depois no ano em que passei para o 10º ano passou também a haver uniformes no secundário”, contou.
Ainda assim, o agora piloto de aviação diz ter sobretudo boas memórias de “um ambiente muito familiar”. “A minha mãe era professora na EPM, então, os meus professores eram colegas dela, muitos deles amigos pessoais da família e da comunidade. Era um ambiente muito próximo”.
Um amor para o futuro
A experiência de Cíntia Leite foi semelhante. “Fui para a EPM no meu quinto ano e lembro-me de pensar que era a escola dos mais velhos. Tenho muito boas memórias dos professores e colegas. Tive os mesmos colegas desde o quinto até ao 12º ano, crescemos juntos”, frisou.
No ensino secundário seguiu a área de artes, por isso, recorda aulas “muito animadas” e alguns professores que a “marcaram imenso” pelo facto de a ajudarem como pessoa e a pensar na sua carreira futura.
Além disso, recorda Cíntia Leite, teve a oportunidade de testemunhar o progresso da escola. “Fiz parte da evolução. Lembro-me de passarmos a ter uma cantina melhor, o departamento de educação física também melhorou imenso”. “Tenho também boas memórias de ter a comissão de finalistas e, a partir do 10º ano, termos aquela responsabilidade e o sonho de fazer a nossa viagem, portanto, isso traz sempre boas amizades, podemos estar mais próximos dos nossos colegas, porque podemos estar com outras turmas e ter uma amizade mais forte”.
No entanto, há uma memória particularmente querida para Cíntia Leite. “Conheci o meu actual marido quando estava no quinto ano, ele estava no sexto. Chama-se Guilherme Martins e, embora não tenhamos namorado, muita gente sabia dos nossos sentimentos. Os professores até diziam que um dia íamos casar e isso foi o que aconteceu, não na EPM, mas uns anos depois, depois da faculdade, quando nos reencontrámos”, contou.
Por sua vez, Sara Fonseca recorda sobretudo o desporto que praticou. “A minha vida foi praticamente lá. Lembro-me da ginástica, de ter começado o vólei lá, de ter jogado futebol, basquete, porque o desporto foi sempre onde passei mais tempo. Lembro-me de estar tardes inteiras na escola para ter actividades extracurriculares, era das oito da manhã, que começavam as aulas, até às 20:00, sempre lá. As pessoas conheciam-se todas, crescemos todos juntos na EPM”.



