De acordo com a professora Agnes Lam, os meios de comunicação em português e inglês ainda “não atingiram o seu potencial máximo”. A docente junta-se hoje ao jornalista João Guedes para conversar sobre os altos e baixos pelos quais a imprensa de Macau passou no século XIX
Salomé Fernandes
A imprensa de Macau no século XIX vai estar hoje em discussão no edifício do antigo tribunal no âmbito do Festival Literário “Rota das Letras”. A professora de jornalismo Agnes Lam e o jornalista e escritor João Guedes vão encontrar-se, às 19h, para uma sessão sobre este período histórico do jornalismo em Macau. A sessão será em inglês mas tem tradução para chinês.
“Os meios de comunicação em português podem tornar-se mais importantes do que são neste momento. Olhando para a transição, todos estes jornais a dada altura se tornaram comunitários para os expatriados portugueses e ingleses. Mas, ao mesmo tempo muito internacionais. Podem trazer muitas opiniões de fora para a comunidade local e dirigentes públicos. Acredito que neste momento são um pouco das duas coisas mas não atingiram o seu potencial máximo”, sugeriu Agnes Lam. Já João Guedes, acredita que o jornalismo actual é bom, e idêntico ao que se faz no estrangeiro.
Quanto aos jornais chineses, a docente alerta para a necessidade de se tornarem mais competitivos, dado o crescente interesse pela indústria jornalística exterior sobre Macau, como é o caso de Hong Kong. Para além disso, acredita que, no geral, os meios de comunicação devem ser mais activos nas redes sociais e melhorar as suas páginas de internet.
No que toca ao financiamento de jornais por parte do Governo, Agnes Lam afirmou que “os jornais mais pequenos dependem dos subsídios do Governo” e “se não receberem esse apoio não sobrevivem”. “Então manter esses jornais é bom porque permite que haja mais vozes, mas simultaneamente precisamos de garantir que o Governo não controla os media através desse subsídio”. Para isso, o território deve “aprender com a experiência europeia”.
Mas como se chegou a este patamar? Foi por acidente que Agnes Lam descobriu que “Abelha da China” foi o primeiro jornal português em Macau, em 1822, quando estudava para o exame de admissão na faculdade de pós-graduação. Sentiu necessidade de aprender mais sobre isso e acabou por abordar o tópico na sua tese de mestrado.
“O jornal trouxe um novo estilo. A maquinaria de impressão tornou-se mais moderna. Depois o jornal tinha um layout muito diferente”, comentou, acrescentando que à época “a maioria das notícias publicadas eram sobre o Imperador. Mas este jornal continha as opiniões de pessoas normais, o que foi revolucionário”.
João Guedes explica que o “Abelha da China” coincidiu o regime liberal implantado em Portugal pela revolução constitucional de 1820. “Até aí não se podia publicar nada nas colónias, e em Macau também não. Só havia, salvo erro, uma imprensa em Goa e só podia publicar coisas do Governo ou da Igreja”, disse. A revolução veio permitir a imprensa em Macau, e com a vinda de uma máquina de imprimir jornais de Lisboa surge o “Abelha da China”.
Era um jornal do Governo, de regime constitucional mas “quem está no poder são os absolutistas, D. Miguel, de maneira que Macau é ocupado pelas tropas vindas de Goa e o jornal acaba por ser encerrado, e o último número da Abelha da China é queimado oficialmente às portas do Leal Senado”, comentou.
Seguiu-se a Gazeta de Macau, esse sim do governo absolutista. Mas acabou por esmorecer e deixou de ser impresso. Só voltou a ser publicado quando uma lei de Lisboa tornou obrigatória a publicação de boletins oficiais nas colónias. Em Macau, os meios de comunicação tiveram sempre curta duração, à excepção do Independente que durou 22 anos e bateu um recorde que viria apenas a ser quebrado pelo Jornal Tribuna de Macau.
O peso da política
Agnes Lam explica que a transição do século foi marcada por textos “muito políticos”. “Tinham muito comentário político, e os jornais portugueses eram muito mais directos, e abordavam o Governador de forma muito crítica”, referiu, acrescentando que o Independente teve o seu director preso, José da Silva, por esse mesmo motivo. Mas nem sempre eram esses os motivos que levavam ao fracasso da continuidade dos projectos.
“Normalmente quando o jornal era feito pelo Governador, este ia-se embora ao fim de dois anos e fechava o jornal. Quando era feito por um advogado da oposição, o governador ia embora, a oposição deixava de fazer sentido”, descreveu João Guedes. Em inglês, porém, existiam vários. “Estavam à margem das leis portuguesas. Apesar de serem impressos em Macau diziam que eram impressos em Cantão e o Governo fechava os olhos”.
Durante o século, foram vários os altos e baixos registados na imprensa, tendo o pior período sido registado à passagem do Governador Ferreira Amaral. “Proibiu os jornais pura e simplesmente por não gostar deles, pelo que a imprensa portuguesa só não desapareceu completamente em Macau porque os jornais em português continuaram a publicar-se em Hong Kong. A tratar dos problemas de Macau, mas feitos lá. E depois eram trazidos mais ou menos clandestinamente para cá”, referiu.
A tradição de ter jornais em Hong Kong a tratar de assuntos de Macau manteve-se, mesmo no século XX, fruto da sua proibição na região e de a imprensa tipográfica no território vizinho ser então dominada por macaenses. A situação só veio a sofrer uma grande alteração quando se profissionalizou, nos anos 80.



