Horas depois de ter escapado a um atentado, António Marques Baptista liderou a operação que levou à detenção de Wan Kuok-koi, em Maio de 1998
Horas depois de ter escapado a um atentado, António Marques Baptista liderou a operação que levou à detenção de Wan Kuok-koi, em Maio de 1998

O último director da PJ durante a administração portuguesa, António Marques Baptista, faleceu em Portugal aos 65 anos de idade. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, João Augusto da Rosa e Mário António Lameiras, que conviveram de perto com ele na PJ, recordam a coragem de quem assumiu um papel de responsabilidade numa altura que o território tanto necessitava na luta contra as seitas. Além da grande personalidade de Marques Baptista, salientam o facto de ter colocado sempre em primeiro lugar o apoio ao pessoal que liderava

 

Liane Ferreira

 

Nascido em Portalegre em 1952, chegou a Macau em Março de 1992 e, entre Janeiro de 1996 e Dezembro de 1999, foi director da Polícia Judiciária (PJ), assumindo-se como figura marcante no período pré-transição, manchado pelo conflito entre seitas criminosas que agitava as ruas do território. António Marques Baptista faleceu na sexta-feira em Portugal, vítima de acidente vascular cerebral, avançou a agência Lusa, citando fonte da família.

“Era uma grande personalidade, com muita coragem que levou avante todo o processo que culminou na detenção do líder e dos comparsas da seita de Wan Kuok-koi”, começou por dizer Mário António Lameiras, antigo adjunto do Comandante-Geral dos Serviços de Polícia Unitários, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Mário António Lameiras, que também foi inspector da PJ na área de combate ao tráfico de estupefacientes, sublinha ainda que António Marques Baptista “contribuiu bastante para a segurança de Macau e fez muito trabalho no território”.

João Augusto da Rosa, recentemente reformado após mais de 30 anos de carreira na Polícia Judiciária e nos Serviços de Polícia Unitários, também conheceu o antigo director da PJ. Enviando as condolências à família de António Marques Baptista, destaca a faceta de “bom funcionário e director”.

“Apoiou sempre os inspectores e na altura mais importante, nos tempos antes da transição, trabalhou o caso de Wan Kuok-koi,  tendo sido alvo de um ataque com um explosivo no seu carro quando levava o cão para passear”, afirmou a este jornal, acrescentando que nesse período controverso e “difícil era preciso alguém que assumisse a responsabilidade e ele assumiu”.

O ex-colega relembra ainda que, para o ex-director da PJ, “em primeiro lugar, esteve sempre o apoio ao pessoal”, e era muito honesto. “Mesmo em termos pessoais, ele apoiou-me muito para ser inspector”, concluiu João Augusto da Rosa.

Numa mensagem de condolências, a PJ manifestou “profunda tristeza”, pesar e admiração pelo ex-oficial. “Grande respeitador da sua profissão, expressou sempre habilidade e capacidade. Durante o seu mandato, a segurança de Macau passou por um período de instabilidade, com coragem e imparcialidade, António Marques Baptista liderou a Polícia Judiciária de Macau no combate a todo o tipo de criminalidade que influenciava negativamente a segurança desta cidade”, lê-se no comunicado.

António Marques Baptista licenciou-se em Direito e em 1992 chegou ao território onde trabalhou como professor na Escola da PJ e depois como director. Além disso, foi membro do Conselho Superior de Advocacia, delegado do Procurador da República junto da terceira secção do Tribunal de Competência Genérica.

A 1 de Maio de 1998, poucas horas depois de ter escapado a um atentado, quando uma bomba destruiu a viatura da Polícia Judiciária que estava a seu cargo, liderou a detenção de Wan Kuok-koi, líder da seita 14K também conhecido como Pan Nga Koi ou “Dente Partido”. A operação realizada no Hotel Lisboa marcou o início do fim da conflito entre as seitas e levou à condenação de Wan Kuok-koi a 15 anos de prisão, por associação criminosa.

António Marques Baptista regressou depois a Portugal, onde continuou a trabalhar na Polícia Judiciária.