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Na Marinha Portuguesa desde os 17 anos, “quando me ofereci, pois desejava conhecer o mundo”. Tinha 20 e poucos, destacaram-no para Macau, mas veio de avião até Hong Kong. Estrela do futebol, onde capitaneou a selecção e várias equipas, perito no convívio entre comunidades, entrega total a esta terra, este canense (de Canas de Senhorim) é dos mais famosos portugueses radicados. Aqui constituiu família e é por cá, 41 anos depois de chegar, quando uma viagem de autocarro custava 10 avos, cadáveres apareciam frequentemente a boiar nas águas de Macau, mas “a cidade oferecia ambiente familiar e muito humano”, que Alberto Carvalhal reafirma a este “Perfil da Nossa Gente”: “de Macau só saio em férias, esta é a minha família mais chegada, aqui estão os meus melhores amigos entre chineses, macaenses e portugueses, esta é, para sempre, a minha terra”

 

Helder Fernando

 

A sorte contemplou Alberto Carvalhal, natural de Canas de Senhorim, Viseu, quando a Marinha Portuguesa, destacando-o para Macau em Agosto de 1973, decidiu marcar-lhe confortável viagem de avião até Hong Kong: “Na época, ainda não tinha visto uma cidade com aquela dimensão, edifícios altíssimos, muito movimento”.

Antes, após o curso na Marinha, andou embarcado, nomeadamente na fragata Almirante Gago Coutinho. Das viagens que fez por vários países, integrando a tripulação da fragata, Carvalhal lembra, em Abril de 1972, na celebração dos 150 anos da Independência do Brasil, a trasladação dos restos mortais de D. Pedro IV de Portugal (D. Pedro I do Brasil, o Libertador) para o porto do Rio de Janeiro, baía de Guanabara, com destino à cripta do Monumento à Independência, no Museu do Ipiranga, em São Paulo. Recorda: “Três navios de guerra portugueses, entre eles a Gago Coutinho, e outros tantos navios brasileiros, fizeram escolta, desde Lisboa, ao paquete Funchal que levava os restos mortais de D. Pedro IV e onde viajava o então Presidente Américo Tomás e comitiva”.

No ano seguinte, preenchendo uma vaga da sua especialidade, condutor de máquinas, Alberto já estava em Macau. “Vim por 2 anos, sem ter ideia nítida a não ser através de alguns filmes e do que dantes estudávamos, muito rudimentarmente, na escola”. Viveu em instalações que existiam onde hoje é o Museu de Marinha, era Macau, então, “uma terrena pequena, ambiente familiar, arquitecturas diferentes mas que se harmonizavam, as casas coloniais portuguesas, os pagodes chineses, integrei-me com muita facilidade e com sinceridade””.

Exercendo funções numa oficina da Capitania dos Portos destinada a fazer a manutenção de alguns navios como dragas, batelões, lanchas, etc., Carvalhal ali se manteve até 1999. Os primeiros tempos foram de descoberta: “ainda se notava alguma frieza para com portugueses, vinda dos motins do chamado “1, 2, 3”, em Dezembro de 1966, mas não hostilidade. Pouco depois isso estava ultrapassado. O meu relacionamento com as comunidades locais foi fácil e posso dizer muito por via do futebol”.

Praticamente à chegada, um oficial perguntou – jogas à bola? Como Carvalhal fora jogador júnior e campeão distrital pelo Clube Desportivo Canas de Senhorim, e até houve quem o quisesse levar para o Sporting Clube de Portugal, começou a jogar na equipa da Obra Social dos Serviços de Marinha, dando início a um trajecto desportivo que rapidamente o levou ao estrelato. “Nessa equipa só 1 ou 2 elementos eram portugueses da metrópole, o resto eram macaenses e chineses”, lembra o craque, “ganhámos o campeonato da 2ª Divisão, a Taça, ganhámos tudo!”. O médio atacante cedo começou a ser assediado por outros clubes, passando a representar as cores do Lam Ieng, a seguir estreou-se numa equipa que se tornou famosa, o Negro Rubro, numa digressão pelas Filipinas.

O valor como atleta e a personalidade forte, mas aberta e isenta, como comentam muitos colegas e amigos, obviamente o levaram a ser capitão das equipas onde jogou incluindo a selecção de Macau. Campeão em mais do que uma equipa, também praticou a modalidade bolinha, o futebol de 7 em Macau, de que também foi campeão, tenho ainda brilhado no futebol de salão: “O Veiga, o Matos e talvez mais alguém, em nome de ‘Os Magriços’, organizavam Torneios disputados na Escola Luso-Chinesa. Cada equipa levava a sua bola e a organização devia ter mais do que uma, só que levava também apenas 1 bola. Por vezes eram chutadas com mais força e iam parar à piscina do Estoril. Uma ocasião, na sequência de uma discussão sobre a falta de bolas por culpa dos organizadores, houve jogadores que, propositadamente, iam atirando as bolas para a piscina, até não haver mais bolas para prosseguir o jogo que tinha de acabar ali. Hoje recordo esta cena e farto-me de rir. Certamente o amigo Veiga também”.

Episódio na lembrança: “Sempre que uma equipa, não apenas a selecção, ia jogar ao exterior, vestia o equipamento para apresentar despedidas ao Governador, ele próprio, que nos recebia e de quem ouvíamos sempre palavras de conforto e incentivo”.

Carvalhal construiu o grande entusiasmo das claques e do meio desportivo local – “Foi principalmente através do futebol que facilmente me integrei nas comunidades e fiz amigos, alguns meus grandes amigos até aos dias de hoje”, sublinha lembrando ter sido o futebol, a par do seu romance que deu em casamento, um grande argumento para permanecer em Macau: “à partida, regressaria a Portugal terminado o tempo máximo, mas entretanto aconteceu o 25 de Abril”, recebe mensagem de Lisboa indagando “se queria ficar abrangido por um Decreto de 1977, mas que nós não tínhamos conhecimento, dando possibilidade aos militares que durante a comissão, aqui casassem com natural de Macau, podiam permanecer mediante requerimento e informações favoráveis. Claro que tomei a decisão de ficar, mesmo com prejuízo hierárquico, mas não estou arrependido, sou um homem feliz em Macau, onde casei em 1977, tenho três filhos de que me orgulho, e ganhei também bons amigos com quem convivo em várias tertúlias, principalmente após a aposentação em 1999. E continuo a fazer o gosto ao pé, nos jogos de futebol entre veteranos”.

A casa de Carvalhal tem sinais visíveis das duas culturas historicamente mais marcantes na região: “não sendo uma típica casa portuguesa, também não é uma típica casa chinesa, é as duas coisas. A refeições são normalmente em casa e com ambas as gastronomias, pois minha esposa sabe confeccioná-las. É uma feliz casa de Macau”.

Passa a lembrar alguns nomes de amizades. Antes de mais nada, faz questão de destacar duas figuras que, já não estando entre nós, deixaram grandes marcas positivas e boas recordações. Na circunstância, foram ambos treinadores da selecção de Macau, por conseguinte de Carvalhal: “Pacheco, um grande jogador do Sporting de Portugal e Eduardo Atraca. Honra seja feita à memória destas duas pessoas”.

Algumas amizades que Alberto aprecia evocar: “O Ventura – que também foi marinheiro e estava cá quando cheguei, recebeu-me, ajudou-me muito na descoberta de Macau e a resolver as naturais primeiras dificuldades – os irmãos Madeira, o Jaime e o Jerry, o Eduardo Jesus – este um enorme desportista capaz de praticar com brilhantismo várias modalidades – o Tang Borges, o Mendonça, o Aleixo, o Luis Rodrigues – da Tasca do Luís – o Lei Peng Kong, o Dani, os irmãos Évora, Humberto e Mário, o Veiga – do restaurante O Porto – o Luis Afonso, o Ventura, o António Cambeta, tantos outros que nunca esquecerei”.

Tantas recordações de 41 anos em Macau, e muitos mais virão. Algumas mencionadas por ele: “os cadáveres que frequentemente apareciam a boiar nas águas locais, por exemplo junto à Ponte Nr.1, na Barra, de pessoas que pretendiam fugir da China e ficavam vítimas das correntes, das hélices das embarcações e por outros motivos. Os autocarros vermelhos, muito velhos, fazendo enorme barulho e toda a noite com o motor ligado num ruído enorme. Quando alguns de nós, da Marinha, recolhíamos à noite, já tarde, caminhando pela avenida Almirante Sérgio ou Almeida Ribeiro, os machimbombos para a Barra eram o 5 e o 1, pagávamos 10 avos, os condutores já nos conheciam e nem precisávamos de estar nas paragens, eles apanhavam-nos em qualquer parte do percurso. Era um ambiente muito mais humano”. Também recorda, entre outras viagens marítimas, a que fez  como tripulante até à parte sul do Japão, com a Lorcha Macau, em 1992/93, passando por várias cidades, incluindo a ilha Tanegashima, que terá sido o primeiro ponto de contacto entre europeus e japoneses, tornando-se entreposto comercial e ficado célebre por provavelmente ter sido ali, por meados do século XVI, que armas de fogo foram vistas pela primeira vez pelo povo local, e imediatamente construídas cópias. Diz Carvalhal, e eu posso confirmar: “os japoneses receberem sempre a Lorcha com enorme cerimonial, é certo, com banda, passadeiras vermelhas, danças, etc., mas ao mesmo tempo com carinho, demonstrando o respeito e amizade que eles conservam pelos portugueses. Tivemos alguns percalços na viagem em virtude de um tufão, mas foi tudo competentemente ultrapassado, juntando-nos em Osaka com o navio-escola Sagres. Viagem enriquecedora pela experiência vivida a bordo, pelos museus e outros locais onde os japoneses sabem bem guardar a História, pela forma franca e amiga como recebem e relacionam connosco”.

A memória viva de Alberto Carvalhal, reproduzida por ele de forma tranquila, leva-me a nova síntese para o leitor: “tenho várias recordações relacionadas com a prática do futebol. Quando o Sporting Clube de Portugal veio jogar a Macau, no campo do Canídromo, em finais dos anos 70 e alinhei pela selecção de Macau. Do outro lado estavam grandes atletas como Jordão, Manuel Fernandes, ou o Dinis”. E com o Benfica também tenho semelhantes e emocionantes recordações”.

Considerada por este simpatizante do S.L.B., uma das maiores memórias foi “a primeira vez que entrei na China, numa ida a Cantão em 1976/77, retribuindo visita que a selecção daquela província tinha realizado a Macau. A China era um país ainda bastante fechado ao exterior. Viagem de várias horas, atravessando vários rios em batelões, estradas poucas e más, poucos automóveis e muitas bicicletas, olhares curiosos de muita gente. O estádio cheio, muitos chapéus, toda gente vestida com roupas iguais. A minha grande satisfação foi a oportunidade de entrar na China, naquele tempo, encontrando situações que nunca experimentara, edifícios velhos, luzes poucas, bicicletas sem luz à noite, carros velhos, imensos campos de arroz. Experiência inesquecível. Como tanto mudou, sendo hoje uma cidade muito moderna”.

Ciente da popularidade como desportista e como cidadão, um empresário, na circunstância seu amigo, há uns seis ou sete anos propôs-lhe que participasse na gravação de um anúncio publicitário televisivo sobre uma bebida tipo suplemento vitamínico para desportistas. O anúncio mantém-se no ar e Carvalhal, o único europeu entre outros que aparecem na imagem, fala em cantonês com competente interpretação muito elogiada pelos espectadores, “mas simpaticamente muito gozada pelos meus amigos que se fartam de rir com a minha pronúncia… Também foi uma experiência engraçada”.

Sugiro a Alberto Carvalhal uma síntese do que diz quando fala de Macau: “Prefiro falar do antigo, era Macau bonito, mais próximo de todos, com mais romance e mais humano. Apesar de todas as transformações, algumas despropositadas, elas não são suficientes para me afastar desta terra. Aqui casei, tenho os filhos, como já disse é a minha casa”.