O realizador Thomas Lim esteve em Macau para orientar a fase final de pós-produção do seu filme “Sea of Mirrors”. Inicialmente conduzido apenas no território, tem agora uma parte das cenas passadas também em Los Angeles. As negociações de distribuição estão a ser feitas através da “1220 Produção de Filmes”
Salomé Fernandes
Depois da edição de imagem de “Sea of Mirrors” (“Mar de Espelhos”) ter sido feita em Tóquio e nos EUA, o realizador Thomas Lim veio a Macau para conduzir a fase final de pós-produção do filme na empresa “1220 Produção de Filmes Lda”. O seu lançamento está planeado para 2018.
“No ano passado tive de voltar a filmar cenas em Los Angeles”, disse o realizador. Cerca de 15% das cenas passam-se agora nos EUA, quando antes Macau era o único cenário da longa-metragem. “Como estávamos a filmar com um iPhone houve erros que não detectámos na filmagem mas que se tornaram claros na pós-produção. Por isso tivemos de apagar essas partes e filmar mais, algo que decidi fazer em Los Angeles”, explicou Thomas Lim à TRIBUNA DE MACAU.
A segunda ronda de filmagens foi feita também apenas com o iPhone 6. Apesar de ser um meio invulgar, o resultado final superou as expectativas, tendo o realizador destacado o trabalho de Gonçalo, o responsável pela correcção de cor do filme. Apesar de a imagem ter algum grão, este coaduna com o conceito do filme, que é um thriller psicológico.
Em “Sea of Mirrors”, Riri Kondo (Kieko Suzuki) viaja até Macau com a filha Nana para se encontrar com um suposto investidor que afirma ser um fã e pretender apostar num filme com ela. Mas tudo isto era mentira, estando a reunião mais ligada a questões sexuais do que cinematográficas, e Nana acaba por ser raptada, o que quase leva a personagem principal à loucura.
O filme deverá ficar totalmente completo em finais de Maio, posto o qual será submetido a festivais de cinema. “Nesse caso o festival deveria ser em inícios do próximo ano, mas talvez façamos a première num cinema ou no Festival Internacional de Cinema de Macau, porque isso ainda nos garantia direitos internacionais de première, pelo que a maioria dos festivais talvez ainda o aceitasse.
“Sinto que depois da pós-produção só temos 50% do trabalho feito, porque depois temos de chegar às audiências que é parte mais difícil. Muitos realizadores em Macau não se preocupam com essa fase mas é a mais importante”, comentou Thomas Lim.
O realizador frisou que, por norma, os filmes precisam de ter destaque nos festivais antes de abordagens no sentido de compra e distribuição, mas que neste caso já tem oportunidades a serem estudadas devido ao trabalho da “1220”. A empresa, que é relativamente recente, realiza produção cinematográfica e audiovisual, distribuição de filmes, aluguer de aparelhos e produção cinematográfica com efeitos especiais, garantindo ser o único centro de pós-produção cinematográfico de Macau incluindo correcção de cor, produção sonora 7.1 e produção de formato do filme.
Thomas Lim quer fazer pelo menos mais um filme no território, mas ainda não tem um conceito definido. “Sinto-me muito confortável em Macau, para mim é extremamente cinematográfico, o que é muito importante. Sempre tive essa impressão”. Na primeira vez que veio a Macau, em 2002, ainda não era realizador nem havia casinos. Um contexto que hoje agradece porque acredita que a existência dos grandes complexos facilita a captação de público para os filmes.
“Não conheço mesmo o que acontece no ambiente familiar, o ‘boom’ dos casinos ajudou-me a ter um ponto de entrada. Nunca falo do jogo, mas parece ser sobre casinos, que é o que o mundo conhece e atrai as pessoas a prestarem mais atenção e aprender sobre a história que quero contar”, explicou. Para além disso, o facto de existirem poucos filmes filmados em Macau já atrai curiosidade quando o nome do território surge, e a filmagem através do iPhone é outra peculiaridade atractiva.
Apoio à distribuição de filmes locais
Kio Chong, fundador da “1220”, encontra-se na indústria em Macau há cerca de 15 anos. Quando estava no início de carreira não se podia sequer afirmar que existisse uma indústria, indicou. Depois de recorrer a serviços profissionais de pós-produção em Hong Kong e Taiwan pensou que Macau poderia vir a precisar de algo semelhante.
Há dois anos recebeu apoio do Fundo das Indústrias Culturais da RAEM para lançar o projecto. No total, montar a empresa rondou os 20 milhões de patacas, sendo que de acordo com a informação disponível no Fundo das Indústrias Criativas, o apoio financeiro dado ao projecto pelo Governo em 2016 envolveu um montante de 5.006.900 patacas para pagamento de projectos.
“Este projecto é mais um sonho do que um negócio. Para os locais que estão a criar filmes temos um desconto muito grande, é por isso que o Governo nos financia. Porque filmes associados a Macau pagam apenas 30% em comparação aos restantes”, explicou. O fundador da empresa reconhece que os realizadores locais não têm orçamentos que lhes permitam pagar o preço completo e por isso na pós-produção o objectivo é que as receitas paguem os custos da empresa, mas sem margem de lucro.
“Em Macau o Governo quer mesmo que os locais sejam mais criativos e façam mais filmes. Mas se investem num projecto, este precisa de ser promovido e vendido a outros países porque um projecto só para Macau dificilmente sobrevive, não há mercado suficiente. Por isso acho que o mais importante é perceber como o produto de Macau pode atingir os ‘standards’ internacionais e como o vender ao público”, apontou Kio Chong.
Da mesma forma que inserir os filmes realizados em Macau no exterior é um dos objectivos, captar o mercado de Hong Kong e Taiwan para recorrerem aos serviços da empresa também está na lista de desejos da “1220”. “Já está a acontecer porque temos um filme japonês a fazer cá a pós-produção de momento. Mas a política é servir os locais primeiro”, frisou.
O processo completo de pós-produção de um filme dura cerca de um mês, apesar de variar consoante as exigências de cada projecto. Kio Chong, também realizador, está agora focado em gerir a empresa. Emprega 10 trabalhadores a tempo inteiro, mas dependendo dos projectos pode colaborar com freelancers para dar resposta ao volume de trabalho.



