Desde os taxistas, a associações de jogo, de reunião familiar e outras de operários, o Dia do Trabalhador colocou cerca de 580 pessoas nas ruas em protesto. A protecção ambiental de Coloane foi a grande novidade deste ano, tendo a organização sentido uma forte adesão dos jovens. Apesar de tudo, os números revelam um decréscimo face ao ano anterior
LIANE FERREIRA*
O território foi no domingo palco de manifestações de diversos tipos, apesar de se tratar do Dia do Trabalhador. As reivindicações dos oito grupos pertencentes a 10 associações locais foram variadas, mas no final foi a Juventude Dinâmica de Macau em conjunto com a iniciativa “Root Planning” e Associação Novo Macau que mais marcou o dia com a figura de um dinossauro a liderar os protestantes em defesa de Coloane.
Lei Kuok Keong, presidente da Associação Juventude Dinâmica, disse ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, que o balanço do protesto deste ano, o sexto na história da associação, correu de forma positiva, muito graças ao tempo.
“Tivemos 250 manifestantes, mas houve alguns conflitos em frente à sede da Governo porque a polícia não deixava caminhar na rua justificando que era perigoso. Não faz sentido, mas acabamos por respeitar”, disse Lei Kuok Keong, frisando que a “maioria dos participantes eram jovens”. Para além disso, encontraram “ao longo do percurso muitas pessoas envergando t-shirts brancas como forma de apoio” à associação.
Segundo indicou, este ano não foi entregue uma petição ao Governo, porque este “não vai ler”, optando por apresentar uma “gaiola artística com um dinossauro com as palavras ‘contra os interesses imobiliários’” escritas. O animal insuflável foi o símbolo encontrado para o poder destrutivo dos promotores imobiliários, seguindo uma réplica de Coloane numa maca.
“A hegemonia dos promotores monopoliza todos os aspectos da nossa vida, as pessoas não podem viver sem terrenos, sem espaço. [A representação] é um símbolo da colina de Coloane, que está a morrer, precisa de uma transfusão de sangue, precisa de cuidados, precisa que a protejamos”, explicou Scott Chiang, presidente da Associação Novo Macau.
As três associações pediram maior protecção de Coloane, o ‘pulmão’ do território, e um travão à construção, acusando o Governo e os empreiteiros de terem comportamentos “vergonhosos”. Uma parte porque não aceita a supervisão da população e a outra, o Governo, porque não divulga o relatório de impacto ambiental do projecto de luxo com 100 metros de altura projectado para a zona.
“Queremos justiça no uso dos terrenos. Tem de haver um equilíbrio entre o valor económico, o valor humano e o valor natural. Frequentemente o Governo enfatiza apenas o primeiro, em detrimento dos outros dois. A colina de Coloane representa bem essa inclinação. Não queremos deixar que o projecto residencial de altura elevada avance”, disse Scott Chiang.
A acompanhar esta manifestação esteve Lin, de 32 anos, juntamente com a filha de três: “Adoro fazer caminhadas em Coloane. Estou a protestar para proteger as montanhas. Há cada vez mais edifícios em Coloane e um edifício de mais de 100 metros estava a ser planeado, estou preocupada com isto”, disse.
Sam, 22 anos, sublinha que nasceu na cidade e lamenta que Coloane seja a “última área verde de Macau”. “Em Macau e na Taipa está tudo construído, são só prédios altos. Queremos proteger Coloane”, reclamou.
Associações do jogo com menos de 100 pessoas
Durante a tarde e com menos de 100 participantes, outras três associações de trabalhadores do sector do jogo, nomeadamente a Forefront of Macau Gaming, a Love Macau Association e a Nova Associação dos Direitos de Trabalhadores da Indústria de Jogos também se juntaram aos protestos.
“Queremos que toda a área de jogo seja para não fumadores, queremos aumentos salariais para os trabalhadores e alargar o seguro [de trabalho] para incluir o percurso entre a casa e o trabalho”, disse Cloe Chao, presidente da Love Macau.
Cloe Chao explica que, ao contrário do que é habitual, apenas uma operadora de jogo, a Sands, aumentou este ano os salários. Além disso, os trabalhadores queixam-se de vários cortes em pequenas regalias, como a redução das refeições gratuitas no local de trabalho a uma por dia (antes era ilimitado) e a redução do orçamento para eventos como festas de Natal e actividades.
De acordo com estes protestantes, depois de um período de quase dois anos de ajustamento, os trabalhadores sentem-se cada vez mais injustiçados com ordenados oferecidos quando procuram emprego ou porque os salários estão congelados. Da lista de reivindicações faziam parte pontos como: aumento das contratações pelas operadoras e corte de grande dimensão nas contracções de trabalhadores estrangeiros.
Cerca de 114 táxis participaram na marcha lenta
Táxis com filas vermelhas
Antes das manifestações da tarde, a Federação de Motoristas de Táxi Profissional realizou durante a manhã uma marcha lenta com 141 táxis e dois motociclos para a qual foram destacados 30 agentes.
O protesto arrancou do Centro de Ciência em direcção à Assembleia Legislativa, com os taxistas a afirmarem estar preocupados com o impacto da revisão do Regulamento do Transporte de Passageiros em Automóveis Ligeiros de Aluguer ou Táxis na reputação do sector.
Com fitas vermelhas nos carros, os protestantes apelaram ao Governo para considerar a criação de um mecanismo de suspensão das licenças de operação dos motoristas consoante o número de violações. Para além disso, afirmaram que é injusto o dono do carro ser culpado pelas violações do condutor.
Por outro lado, pediram ao Executivo para aumentar o número de zonas para largar passageiros. Os taxistas frisaram que a lei actual não permite a paragem nas linhas amarelas, mas a maioria dos locais de entretenimento só tem essas linhas, pelo que quando cumprem a lei acusam-nos de rejeitar passageiros.
Associação de Reunião Familiar também marcou presença
Para além destas associações, contou-se ainda a Associação de Força dos Operários de Macau, que reivindicou a continuação do programa que distribui cheques anuais à população e a construção de mais habitação social. A Associação Reunião Familiar de Macau fez-se representar com cerca de 100 pais a pedirem o direito a terem consigo os filhos que deixaram na China Continental.
Já a Aliança dos Operários apelou à Comissão Central de Inspecção Disciplinar do Comité Central do Partido Comunista da China para “castigar severamente os tigres ambiciosos” de Macau ao mesmo tempo que coloca um ponto final na importação de trabalhadores estrangeiros e garante a segurança nos empregos de locais.
Apesar da participação de tantas associações, o Corpo de Polícia de Segurança Pública contou apenas 580 manifestantes, número este muito inferior ao de 2015, quando se contabilizaram cerca de 1.800 protestantes.
* Com Viviana Chan e Lusa



