Apesar de acreditar que Macau como cidade inteligente é um projecto que vai trazer emprego para os estudantes e oportunidades às pequenas e médias empresas, o vice-reitor da Universidade de Macau para os Assuntos Académicos e docente no Departamento de Ciências de Informação e Computação alerta para a necessidade de um plano a longo prazo. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Lionel Ming-Shuan indica que a construção de um centro de dados acarreta riscos, mas que a informação está mais segura nas mãos do Governo do que nas de entidades privadas
Salomé Fernandes
-Já trabalhou nos EUA e em Hong Kong. Há cerca de três anos veio para a Universidade de Macau (UM). Porquê?
-Ganhei muita experiência, fui dos EUA para Hong Kong e exerci muitos cargos, desde chefe de departamento a reitor, e por aí além. Nunca pensei em vir para Macau. Quando me ofereceram o cargo de vice-reitor a minha primeira resposta foi não. Ligaram-me três vezes e disse que não três vezes. Até que, por fim, disseram-me para ver o novo campus e percebi que era uma oportunidade de tornar a UM numa universidade melhor. Pensei que a minha experiência ia ajudar, caso contrário quando me reformasse toda a minha experiência seria inútil. Por isso, acabei por vir.
-Qual é o papel da ciência em Macau neste momento?
-Macau baseia-se na indústria dos casinos, o que é bom porque pagam impostos, mas os pais questionam-se sobre onde é que os filhos vão trabalhar. Isto é importante. Os filhos podem estudar aqui ou no estrangeiro, mas quando regressam onde podem trabalhar? Provavelmente, para a maioria dos pais não é bem visto [trabalhar no sector do jogo]. Os meus filhos nasceram e cresceram nos EUA. Depois de tantos anos decidi regressar à Ásia, onde cresci, mas sou diferente dos meus filhos. Eles são americanos, pensam de forma diferente de mim e não posso mudar isso. Mas sinto-me mal em relação às crianças de cá. Questiono-me para onde irão as crianças daqui depois de se formarem. É possível mandá-las para Hong Kong, China Continental e EUA, mas muitos querem regressar e ficar junto da família. Como fazem? Têm um bom emprego? Por isso, penso que Macau tem de criar oportunidades de emprego para as gerações futuras e não apenas na indústria dos casinos. Há que criar trabalhos e a alta-tecnologia é um dos exemplos. Um dos meus antigos estudantes fundou uma empresa de robótica, e estou orgulhoso dele. Espero que tenha sucesso porque nesse caso pode vir a contratar 200 a 300 pessoas, empregar os nossos talentos e dar-lhes oportunidades. A Universidade de Macau é um sítio que dá oportunidades a todos os talentos de Macau. Espero que o Governo seja responsável e crie oportunidades de empregos. É a capacidade de criar essas oportunidades que interessa.
-Os projectos para tornar Macau numa cidade inteligente vão criar trabalho?
-Sim. Agora, cidade inteligente é um campo muito vasto. O que se quer dizer com cidade inteligente? Pode cobrir muitas coisas. Mas, pelo menos o Governo percebeu que o conceito é importante, e cidades como Barcelona já estão a fazer isto. Agora que percebeu que é importante estou feliz, é uma oportunidade de Macau avançar e criar oportunidades de emprego para as novas gerações.
-A que áreas deve o Governo dar prioridade?
-Há tantas dificuldades que as pessoas estão a enfrentar. Problemas de transportes, cuidados de saúde, etc. Fundamentalmente o trabalho do Governo é garantir uma plataforma que permita a pequenas e médias empresas (PME) fazerem lucro ao disponibilizar aplicações para a cidade inteligente. Há coisas que só o Governo pode fazer, como a criação de um centro de dados para armazenar os dados de cuidados de saúde. Não conseguimos pagar isso, por isso, tem de ser garantido pelo Governo. E depois é da responsabilidade da universidade garantir a formação de talentos. É por isso que tentamos aprender sobre diferentes tecnologias. Por isso considero que é bom. Se conseguirmos disponibilizar dados públicos, faz com que as pessoas façam lucro, por criarem o seu próprio negócio com base nesses dados. Se a ideia for boa, como a Uber, que é uma forma de transporte inteligente e está em todo o mundo, s comiam sempre juntos. mas no Ano Novo Chinilho que nunca foi para os EUA ersitar ra a mioria dos pais []o produto pode ser vendido em todo o lado. Em primeiro lugar o Governo deve providenciar uma plataforma, infra-estruturas, disponibilizar os dados. E os jovens contribuem com ideias novas.
-Tem alguma sugestão para o Governo?
-Para fazer uma cidade inteligente sustentável precisamos de uma política a longo prazo, sem mudanças. Barcelona investiu em ser uma cidade inteligente, mas parou quando houve eleições e mudou o presidente. Isto acontece em muitos locais. Não basta que seja um projecto de dois anos, requer planeamento a longo prazo. O Governo tem de fazer com que as pessoas sintam que estão a beneficiar de Macau como cidade inteligente. Não se pode gastar todo o dinheiro e depois os contribuintes não sentirem os benefícios do projecto.
-E como se poderá torná-lo ambientalmente sustentável?
-Há cidades onde se criaram lâmpadas para os postes de luzes na rua que são alimentadas por painéis solares. No início era uma “rua inteligente”, mas oito meses depois metade das lâmpadas não funcionavam. Só investiram uma vez mas não ponderaram a necessidade de manutenção, ou como detectar que as lâmpadas não estavam a funcionar. Era possível criar um sistema de manutenção que automaticamente detectasse erros, até mesmo ao nível do fabrico. Assim evitava-se que os materiais sejam usados, para um ano depois se tornarem um problema de poluição.
-As PME vão beneficiar mais com a cidade inteligente do que as empresas de grande dimensão?
-Sim. Mas Macau tem empresas grandes?
-Há por exemplo, uma colaboração com a Alibaba Cloud…
-Esperamos que um estudante de Macau venha a criar uma nova Alibaba. Mas penso que a Alibaba vem apenas construir infra-estrutura, como o centro de dados, que não sabemos fazer. Mas não vai fazer tudo por Macau. Dêem às nossas PME oportunidades de negócio.
-Há alguma polémica sobre o modo como a recolha de dados pode ter impacto na protecção de dados. Onde se define o limite?
-Esse é sempre um problema. Por um lado, tornamos os dados disponíveis. Por outro lado, a privacidade é muito importante. No geral, não é uma novidade. Noutros países, como os Estados Unidos, há legislação a determinar os dados que podem ser partilhados e quais devem ser preservados para proteger a privacidade. Diferentes países e regiões devem definir a sua própria legislação. A lei está sempre atrás da tecnologia, sabemos isso. Mas desde que os dados não revelem a identidade pessoal devem estar disponíveis. Por exemplo, no que se relaciona com informação de trânsito não se dá a indicação de carros específicos, mas sim no geral. Disponibilizar a informação referente ao tempo, ao mar, ao número de turistas que vêm a Macau, em que ferry, para que aeroporto, através de que fronteiras, e a nacionalidade dessas pessoas está bem, desde que não se centre no indivíduo.
-No âmbito da discussão sobre a proposta de Lei da Cibersegurança, houve quem se mostrasse preocupado com a possibilidade de se estender para um sistema de vigilância. O que pensa disto?
-Todos nos preocupamos com isso. Não conheço a fundo a proposta de lei que está a ser discutida, não a estou a seguir. A vigilância é muito clara. Há câmaras em todo o lado. Passa por elas, tiram-lhe uma fotografia e sabem quem é. Mas a questão está em quem controla essa informação. Consigo perceber se for o Governo, mas outras pessoas já não. Por exemplo, no caso Edward Snowden, ele roubou informação ao Governo e depois descobrimos que a Google não nos protege. Todos sabemos que fornece dados ao Governo. Mas quem é que assusta mais? A Google assusta mais.
-Então considera que é um problema as empresas privadas terem acesso à informação, mas não o Governo. Independentemente da forma como puder ser utilizada?
-Não sei a resposta certa. Se se trata de segurança governamental, de impedir um ataque terrorista, [o Governo deve poder fazê-lo]. Mas a lei deve definir isto, em que condições os dados estão disponíveis. Todos sabemos que por vezes não confiamos no Governo. Enquanto investigador não toco nessa linha. Nós [investigadores] pesquisamos como preservar o acesso a dados. Temos todos os dados referentes a um telemóvel, por exemplo, que pode ser útil em muitas situações. Conseguimos saber quantas chamadas teve, de quem e a que horas e tentamos descobrir como tornar os dados disponíveis e simultaneamente preservar a privacidade da pessoa.
-É uma área de estudo em crescimento?
-Sim. Estou demasiado ocupado agora, mas em ciências da computação as duas áreas do momento são Inteligência Artificial e Segurança e Privacidade. Todos precisamos de uma solução melhor. Por isso dêem-nos algum tempo que alguma pessoa inteligente vai descobrir uma solução.
-Até lá, como é que as pessoas se podem proteger de abusos, seja do Governo ou de terceiros?
-Enquanto indivíduo não sei como proteger os seus dados. Quantas passwords está a usar agora? Tenho a certeza de que não usa 50 diferentes. Se eu quiser consigo entrar na sua conta. Quando vai ao aeroporto e acede à internet gratuita é facilmente possível obter a sua password. Até eu, sabendo que podem ganhar acesso à minha password, só por conveniência pessoal às vezes uso “wi-fi”. O mundo da internet sem fios é muito inseguro. E o Governo deve criar uma lei mas não consegue abranger tudo. [O problema] está relacionado com critérios morais individuais. Por exemplo, vê uma porta aberta, vai entrar e tirar alguma coisa? Não o devemos fazer, e com um computador é a mesma situação. Lembro-me de no passado um dos meus estudantes ter ficado muito feliz por conseguir hackear o computador. Anos depois isso passou a ser crime. Mas nos tempos iniciais pensávamos apenas que o aluno era inteligente e seria contratado. Agora é definitivamente ilegal, por isso a lei está cada vez melhor.
-O Presidente Xi Jinping mencionou no ano passado que a China continuará a trabalhar para se manter “ciber-soberana”. Macau não é um Estado soberano, mas considera que a região vai envidar esforços no mesmo sentido?
-Parece-me improvável, mas não sei. Coloco as coisas desta maneira: Acha que o governo americano pode ser fiável? Em que Governo se pode confiar neste momento? Já vivi no Ocidente e no Oriente. No Ocidente pensamos que somos livres, que temos liberdade para tudo. Mas na verdade não, sabem tudo o que fazemos. É uma liberdade fingida. No Oriente, pensa-se que todos são ladrões, observam e bloqueiam as pessoas. Você confia? Eu não confio em ninguém. A menos que se encripte tudo.
-Então não se prevê que possa vir uma muralha informática a caminho?
-Teoreticamente, tudo o que ponha num computador pode ser monitorizado, a menos que se use encriptação. Mas se usar o gmail as mensagens estão encriptadas e, apesar de ser gratuito, devia ser a Google a pagar-lhe para ter uma conta de email, não o contrário, porque lhes está a disponibilizar os seus dados. Inteligência artificial computacional pode aceder ao seu email, encontrar palavras chave, etc. Com esses dados conseguem fazer lucro, por isso deviam pagar-lhe.
-O governo indicou que a Lei da Cibersegurança funciona para protecção de ataques informáticos, ou contra terrorismo. Macau pode enfrentar esse tipo de ameaças?
-É possível. Confia no seu próprio computador neste momento? Os ataques cibernéticos podem ser feitos colocando um programa viral em diferentes computadores sem activar esse programa, para que não se saiba que estão a ser “hackeados”. E só se activa quando for o momento crucial. Alguém pode ter atacado Macau por esta via e nem sequer se saber disso. A menos que o computador nunca tenha estado ligado à internet, não se pode confiar nele. O vírus fica adormecido até ao momento certo. Por isso é possível. Mas é uma troca, já não se vive sem computadores e internet.
-Criando o centro de dados, não será mais arriscado se alguém conseguir aceder a essa informação?
-Sim, é um acordo com cedências. Mas um centro de dados tem sempre um sistema de segurança para detectar automaticamente comportamentos anormais.
-Quão avançada está a inteligência artificial (ou AI)?
-Quando tirei o meu doutoramento nos anos 80, havia muita gente a estudar AI e depois quando se graduaram não conseguiram trabalho. Nos últimos anos houve grandes desenvolvimentos. Há cerca de 20 anos o maior foi o reconhecimento de escrita. Depois disso não foi a lado nenhum, até há seis ou sete anos, com o “neural network”, que é usado para reconhecimento facial, de imagem e de som. Mas quão esperta é a AI? Ainda está muito longe da nossa, não é inteligente o suficiente. Para algumas tarefas específicas é boa, mas para muitas outras ainda falta muito. As máquinas têm de ser vistas como assistentes, não vão substituir-nos. Essa é uma ideia do início dos anos 80 que ainda está muito longe da realidade.
-Então recomenda que os alunos estudem sistemas de segurança em vez de AI?
-No geral, para muitos estudantes, a menos que tenham uma preferência daquilo que querem estudar, e se não odeiam lógica, ciência de computação é a melhor escolha. Há trabalho garantido. Com uma licenciatura nessa área consegue-se trabalhar como jornalista, contabilista, etc. As competências que se ganham são mais úteis do que quaisquer outras. Em Macau há trabalho quase garantido, a taxa de empregabilidade é perto dos 100%, mas noutros sítios, se estudarem ciência de computação, recebem salários altos da Google, ou da Microsoft. Já sou professor há cerca de 40 anos e nunca me preocupei com os meus estudantes não conseguirem emprego. Se pusermos todos os dados num computador é possível analisar a informação usando simples estatística. Em poucos dias conseguem-se resolver problemas dos mais diferentes domínios.



