Énio de Souza integrou a equipa que esteve na base da criação do Instituto Cultural, tendo contribuído para o lançamento de projectos como o Festival Internacional de Música e Festival de Artes. De visita a Macau, o investigador olha orgulhosamente para o caminho traçado a partir das sementes deixadas até à transferência de soberania e que enriqueceram um local que era um “deserto cultural”. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Énio de Souza recorda anos fundamentais que deram ímpeto à preservação cultural do território e durante os quais teve o primeiro contacto com a música e instrumentos musicais chineses, área em que foca a sua investigação e que, de resto, motivou o seu regresso para um seminário que decorrerá hoje no Albergue SCM
Catarina Almeida
Esteve na génese da criação de eventos culturais perpetuados desde a administração portuguesa e que hoje são parte imprescindível do calendário artístico anual de Macau. Énio de Souza passou pelo Instituto Cultural (IC) entre 1983 e 1999 – período em que dirigiu o Departamento de Animação Cultural – tendo contribuído para a criação do Festival Internacional de Música (FIMM) e do Festival de Artes (FAM). Este último, em particular, é inclusive estudo de caso para a sua tese de doutoramento, cujo tema versa sobre as Políticas e Infraestruturas Culturais em Macau, revelou Énio de Souza, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU.
“O Festival de Artes de Macau (FAM) foi um projecto bastante ambicioso e cujo objectivo era dar voz às forças vivas da terra e ao associativismo cultural que não tinha um espaço que precisava de ser criado”, recordou. Essa foi, aliás, a “grande vantagem” do FAM: fazer com que as quase 90 associações culturais de música, dança, fotografia, etc, aderissem ao projecto e fossem subsidiadas pelo IC.
“Tivemos o cuidado de percorrer todas as associações do território aos fins-de-semana. Era difícil congregarmos todas essas pessoas e optou-se por ter um representante dos grupos. Conseguimos perto de oito/10 áreas o que tornava mais fácil para reunir. Discutiram-se duas questões fundamentais, nomeadamente, os subsídios a conceder às associações. Se as pessoas não estivessem sensibilizadas as políticas culturais não valeriam a pena”, nota.
Trinta e cinco anos depois da criação do IC, Énio de Souza entende que o panorama cultural do território sofreu uma “viragem a 180 graus”. E, sublinha, “em termos de implementação de políticas e infraestruturas culturais [35 anos] é muito pouco”. “Olhe-se o que foi feito quando partimos do zero! Em Novembro de 1983, a Companhia Nacional de Bailado fez uma tournée com 10 espectáculos na China e dois em Macau. Dançou no Pavilhão de Mong-Há onde foi construído um palco em bambu, e onde passei dois dias e duas noites a ver se as tábuas estavam bem unidas porque não tínhamos linóleo e não podia haver nenhuma falha para que nenhum bailarino tivesse problemas. Era o que tínhamos em Macau!”, recorda.
“Foi um trabalho extremamente importante”, vincou, recordando um tempo em que para comprar um vinil era preciso ir a Hong Kong, não havia Livraria Portuguesa e a que havia era a de São Paulo, ligada à Igreja. “Macau tem infraestruturas culturais que não tinha, uma belíssima orquestra sinfónica – já não é de Câmara – uma belíssima orquestra chinesa que se dá ao luxo de ter a característica singular de tocar com músicos portugueses, galerias de exposição, belíssimos museus…”, exemplifica, considerando o que foi “também preocupação das três últimas administrações, porque Macau era um deserto cultural”.
Por tudo isto, Énio de Souza acredita também que a “pedra fundamental foi lançada”. “As políticas culturais permitiram a criação de infraestruturas culturais e Macau, depois da transição, continuou com esse projecto a todos os níveis, nomeadamente, na defesa do Património”.
“Ficou uma estrutura que foi aceite pela população porque se a política-cultural cria uma infraestrutura mas não dialoga com a população é, para dizer em bom Português, chover no molhado. Tinha-se de fazer o trabalho de sapa e chamar os chineses. Aliás, uma das minhas preocupações era essa”, salientou.
Depois de vários anos a integrar uma equipa fundamental para o que é hoje o IC, mais três décadas depois, Énio de Souza diz-se contente com a Macau que encontra hoje e “mais orgulhoso ainda quando vejo que o próprio Governo Central considera Macau um pólo extremamente importante”. “E os chineses de Macau sabem que são diferentes dos do lado”, afirma, notando o “cuidado que se tem com o Património, com as inscrições em língua portuguesa e com o próprio Português”. Aliás, “fala-se mais Português agora do que no tempo das administrações. E isso é um prestígio para Portugal”, vinca.
Os primórdios do saber sobre música chinesa
Além do trabalho de investigação no âmbito da tese de doutoramento, a visita a Macau justifica-se também com a presença de Énio de Souza no seminário de hoje, no Albergue SCM, às 18:30, sobre Música e Instrumentos Musicais Chineses em Portugal – uma área na qual tem, desde a sua saída do território, envidado grandes contributos na sua investigação. Será ainda lançado o livro que versa sobre a mesma área e cuja tese foi, de resto, escolhida para ser editada em livro, num gesto sob a alçada do Instituto Internacional de Macau (IIM).
A obra centra-se na colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, onde Énio de Souza coordena, desde 2001, um curso de língua e cultura chinesa. Esta publicação é também a “primeira em língua portuguesa (incluindo países de língua portuguesa) que fala, em termos académicos, sobre música e instrumentos musicais”.
Por outro lado, Énio de Souza decidiu dedicar a tese-livro “a Macau e às suas gentes” pois foi onde recebeu “primeiras bases de músicas e de instrumentos musicais chineses”. Nos 16 anos em que trabalhou no IC teve o “privilégio de participar na implementação das políticas culturais” que motivaram a criação de uma série de infraestruturas, tal como o Conservatório de Macau (ainda que não tão directamente), e sobretudo a Orquestra Chinesa de Macau – cujo embrião foi precisamente um curso livre (1985) leccionado por Wong Kin Wai, de Hong Kong. A formação era dada aos fins-de-semana, no então Centro Cultural Sir Robert Tung.
A insistência era necessária porque, recorda, quando chegou em 1983 “havia muitas associações de música chinesa, mas não havia formação, um curso oficial de música chinesa”. “Criou-se a Orquestra de Câmara de Macau e, na altura, comecei por insistir que também teríamos de ter uma Orquestra Chinesa”, aponta.
Por força das responsabilidades, Énio de Souza – que “não percebia nada de música chinesa nem de instrumentos musicais chineses”- começou a instruir-se mas em Macau “não havia informação” e as associações de música chinesa que existiam eram sobretudo dedicadas à Ópera Chinesa.
Também não havia o Conservatório, apenas a Academia de Música São Pio X criada pelo Padre Áureo Castro, pelo que pertencia à Diocese, e que apenas ensinava piano e violino. Não obstante, Énio de Souza frisa o “trabalho meritório do Padre Áureo Castro que dedicou toda a sua vida àquela Academia”.
Promover a música chinesa em Portugal
A partir deste primeiro contacto, entre idas a Hong Kong para alimentar o saber, e entretanto regressado a Portugal (em 1999), Énio de Souza focou-se em dois grandes objectivos: apoiar a difusão da língua chinesa e divulgação da música e instrumentos musicais chineses em Portugal. “Havia um défice muito grande, considerando sobretudo a relação diplomática, política, económica e cultural com a China de mais de cinco séculos”, começa por explicar.
O investigador começou, em 2001, a conduzir um levantamento organológico chinês em Portugal tendo, até à data, localizado mais de 400 instrumentos musicais chineses dentro de seis colecções privadas e públicas de Lisboa. Já há vários anos que Énio de Souza tem contribuído para que este lado da cultura chinesa seja mais conhecida e, sobretudo, investigada. “O objectivo final é ver se alguma universidade em Portugal avança com um seminário, uma cadeira [ao nível da licenciatura] sobre música e instrumentos musicais chineses. Esse é o meu grande objectivo. Já não sou novo, não vou fazer nenhuma carreira académica mas estou disposto a colaborar”, garante.
Uma ambição que se prende muito com a forma como esta parte da cultura chinesa foi promovida em Portugal. A dada altura, “Portugal esquece-se um bocado da China e só se volta a lembrar em 1961, quando é criado no antigo Instituto do Ultramar um seminário de língua e cultura chinesa e que só funciona um ano porque no ano seguinte não tinha alunos”, recorda.
Em 2001, foi criado o Centro Científico e Cultural de Macau que contribui para o lançamento no ano lectivo 2015/2016 do ensino da língua chinesa no secundário, em 12 escolas públicas de norte a sul do país. Hoje, a língua chinesa está em “pleno funcionamento”, havendo universidades com centros de língua chinesa mas não há “nenhuma em Portugal que tenha um seminário, uma cadeira relacionada com música chinesa”.
Dos “contributos” para a promoção e educação da música e instrumentos chineses, consta também um atelier aberto ao público, criado em 2002, por Énio de Souza, com base no espólio de 42 objectos do Museu do Centro Científico. Hoje, é “uma das grandes acções educativas do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau”, afirma.
Sendo a investigação a importância maior desta área de interesse, Énio de Souza continua, entretanto, a fazer o levantamento dos instrumentos e a promovê-los através de exposições, seja em Portugal ou no exterior, ou por conferências como foi o caso da 21ª conferência internacional da CHIME, intitulada “Música e Instrumentos Musicais Chineses, a 3ª em Lisboa.
Nessa ocasião, foram cinco representantes de Portugal que apresentaram comunicações sobre instrumentos musicais chineses evidenciando que o interesse pela área está a crescer. Por tudo isto, Énio de Souza, está ainda a trabalhar na criação de uma associação de música e instrumentos musicais chineses no âmbito da investigação.



