A indústria das convenções e exposições teve uma grande evolução num curto espaço de tempo e tem sido bem-sucedida em Macau, no entanto, isso fez com que os dirigentes não pensassem no que está a acontecer noutras regiões próximas nem em formas de diversificar as experiências oferecidas, alerta Patrick Delaney, especialista na área. Já Kim Mhyre defende que a RAEM deve investir na captação de eventos de larga escala, que se mantêm afastados do território

 

Inês Almeida

 

Chega hoje ao fim um seminário de três dias promovido pela Associação Internacional de Organizadores de Congressos Profissionais a par da Associação de Reuniões, Incentivos e Eventos Especiais, com a participação de peritos na área que partilharam as suas visões sobre como Macau pode melhorar enquanto destino de eventos do sector MICE.

“É um destino muito bem-sucedido porque há muitos eventos a acontecer e infra-estruturas cada vez melhores com novos hotéis e uma ponte fantástica, mas Macau tem de olhar para o que vai acontecer nos próximos três anos e seguir as tendências dos eventos de negócios, no sentido de permitir que as pessoas ‘mergulhem’ mesmo no destino, não apenas indo a um hotel e tendo uma experiência anémica. Há destinos muito mais competitivos”, sublinhou Patrick Delaney, sócio-administrador da “Sool.nua”, empresa ligada à área dos grandes eventos, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Por este motivo, seja qual for a direcção que a RAEM pretender seguir no sector das convenções e exposições, é preciso investir em experiências. “Os eventos podem ser muito específicos de uma indústria ou ter um tema particular, por isso, Macau poderá querer especializar-se na indústria do jogo, nos desportos electrónicos. O que quer que seja decidido, quando vêm, as pessoas querem é a sensação de experienciar o que Macau tem para oferecer e isso é mais do que um hotel ou um centro de convenções”.

Para Patrick Delaney, basta pensar no que o público procura hoje em dia quando viaja. “Antigamente as pessoas entravam em autocarros turísticos e passavam junto a um edifício ou uma torre. Agora as querem subir à torre, querem descê-la, fazer um ‘broadcast’ do topo, um vídeo, tirar fotografias ao que comem para pôr no ‘Instagram’, querem conhecer o ‘chef’, saber de onde vem a comida”.

“Um destino inteligente percebe que tem de evoluir sempre. Macau é um destino que não está a olhar à volta. Se olhar, vê o número de novos destinos na Ásia como as cidades chinesas que se estão a posicionar como destino, a Tailândia, o Vietname, Camboja. Há imensos destinos que se estão a desenvolver”, defendeu o perito.

“Macau é complacente por ser muito bem-sucedido e vai continuar a ser no futuro próximo. As taxas de ocupação são de 90% e isso é incrível, mas há o perigo de não se pensar em alternativas, de ficar tão ocupado com os negócios que há agora que não se vê a concorrência que se está a aproximar”. No entanto, avisa Patrick Delaney, o sucesso actual só pode continuar se a RAEM “evoluir na oferta”.

 

Forte ligação ao jogo

“Macau é muito bem-sucedido e espero que continue a ser, porém, não é diverso e como qualquer bom proprietário de um negócio, não se deve ter as receitas a vir de uma área só. Isso não é um bom plano. É preciso planear a diversidade e não sei se há suficiente neste momento”, apontou Patrick Delaney.

Por sua vez, Kim Mhyre, director da “MCI Experience”, acredita que a RAEM ainda tem um desafio pela frente no que toca a atrair eventos de larga escala. “Há uma maturidade que se segue ao processo de rápido crescimento e provavelmente precisamos de ver isso, em particular, no que tem a ver com o mercado, em termos de atrair actividades de maior escala para a região”. Isso passa também por “clarificar quais são os benefícios de estar aqui, de explicar porque é que é o destino certo para algumas marcas”.

“Há muitas comparações entre Macau e Las Vegas porque a actividade principal é o jogo, não são necessariamente conhecidos como centro de negócios, embora isso possa estar a mudar com o tempo”. Porém, os desafios para as duas cidades são ligeiramente diferentes, entende o especialista. Em Macau, estão associados ao facto de não haver muitas empresas locais de larga escala que queiram organizar eventos. “É uma questão de atrair o público de fora para a Região e isso tem a ver com as propostas, a qualidade das instalações, que é incrível, e a facilidade nos acessos, que está a melhorar, até com a nova Ponte”.

Para que isso aconteça, é preciso compreender o que esse tipo de público procura realmente. “Às vezes isso é mais do que dizer que temos quartos de hotel e salas de reuniões, é criar um pacote de ofertas mais coeso. São as experiências que podemos oferecer para ajudar a comunicar a mensagem que querem e dar experiências memoráveis ao público”, sublinhou Kim Mhyre.

“Os eventos das associações de grande escala não parecem estar a vir cá e é daí que vem muito dinheiro. Acho que era possível melhorar aí. Uma das coisas de que se fala muito é que os eventos são uma marca por si próprios. Eles criam a história da sua marca pela experiência, por isso, Macau tem de se adaptar à história dessa marca de alguma forma. Não é só uma questão de ter infra-estruturas”.

Além disso, uma vez que a maioria das associações não tem representação na RAEM, torna-se “num destino difícil”. “Associações médias, por exemplo, que têm 20.000 ou 30.000 membros, não vêm cá actualmente porque não têm uma presença local. Não têm relações aqui”, aponta Kim Mhyre, convicto de que a situação poderia começar a ser revertida se estas associações tivessem mais informação sobre a oferta do território.