A Lorcha “Macau”, uma das obras mais representativas dos Estaleiros de Lai Chi Vun, já está a ser desmantelada, avançou João Amorim, vogal do Conselho de Administração da Fundação Oriente à TRIBUNA DE MACAU. O abate “inevitável” foi “uma decisão muito difícil”, garantiu o mesmo responsável, frisando que a embarcação foi sendo mantida até deixar de ter condições para ser reparada
Inês Almeida
Vinte anos depois de ter ido para Portugal, por ocasião da Expo 98, a Lorcha “Macau” está a ser desmantelada. “O abate [da Lorcha] está em curso”, indicou à TRIBUNA DE MACAU João Amorim, vogal do Conselho de Administração da Fundação Oriente (FO) recordando que o organismo a que pertence adquiriu a embarcação à “Aporvela” à qual a Armada tinha transmitido a propriedade no final da Expo 98.
João Amorim salientou ainda que a Lorcha “foi sendo mantida pela FO com elevados custos mas deixou de ter condições para ser reparada”. “Desde que a Lorcha está na nossa posse, a FO procurou encontrar uma utilização adequada para a embarcação e efectuou regularmente todas as intervenções necessárias à sua devida manutenção”, assegurou.
Contudo, nos últimos anos, “não tendo tido oportunidades para continuar a assegurar a sua utilização, a FO foi contactando outras entidades, como o Museu da Marinha, o Museu Marítimo de Macau, a Casa de Portugal em Macau, entre outras, que pudessem estar interessadas na embarcação com vista a uma eventual cedência ou doação”. João Amorim assegura que a FO tentou mesmo estabelecer um protocolo com a Câmara Municipal de Portimão e a Universidade do Algarve. “Infelizmente, todas as démarches sem sucesso”.
Assim, a Lorcha “encontra-se há já bastante tempo em seco num estaleiro devido aos problemas detectados relativamente à madeira utilizada na sua construção, o que faz com que mesmo os equipamentos e sistemas de bordo tenham sofrido alguma degradação”.
Nestas condições “o abate tornou-se inevitável, e procedeu-se à obtenção dos documentos necessários e normais para o abate de uma embarcação… uma decisão difícil que tentámos adiar para que se encontrasse outra solução, o que não se revelou viável”.
A demolição da Lorcha foi denunciada por Érico Chung, estudante em Portugal, que esteve no estaleiro em Portimão onde tem sido mantida em doca seca e teve a oportunidade de falar com funcionários que o avisaram de que a demolição iria mesmo acontecer, embora, na altura, não se soubesse uma data, o que agora se confirma.
Érico Chung diz ser “lamentável” que a Lorcha Macau não possa regressar ao local de origem uma vez que a embarcação “é uma das obras representativas dos Estaleiros de Lai Chi Vun”. “O Estaleiro onde foi construída já foi demolido e agora a Lorcha também será. Essa memória que pertence a todos os macaenses vai desaparecer”. Talvez por isso o jovem indique que se sente “afortunado” por poder vê-la por uma última vez.
A par de um vídeo que partilhou no “Facebook”, filmado no dia 20 de Abril, o estudante escreve um texto indicando que a Lorcha Macau resulta “da colaboração” entre os estaleiros de Coloane [onde se fez o casco] e a Administração portuguesa de Macau, e recordou que “a sua primeira viagem foi a Tanegashima” para participar no Festival de Espingarda comemorativo da chegada dos portugueses ao Japão em 1543, salientando, contudo, que o momento “mais espectacular” da embarcação foi a representação de Macau na Expo 98, em Lisboa, onde foi visitada por milhares de pessoas.
Diz o estudante que com o encerramento da exposição “a Lorcha foi adquirida pela Associação Portuguesa de Treino de Vela, mas face a dificuldades de manutenção por parte dessa instituição, em 2001, a Fundação Oriente e a Fundação Stanley Ho adquiriram a embarcação por 1,5 milhões de patacas” [o que, como se verá adiante, não está provado].
De acordo com notícias saídas então nos jornais de Macau em língua portuguesa “a Lorcha era usada ocasionalmente para turismo marítimo”. Uma década depois, fez a sua última viagem devido às más condições. O estudante acaba então por contar que “em 2015 houve reportagens que descreveram que a embarcação já se tinha tornado sucata e madeira morta” e que funcionários do estaleiro lhe contaram “que a probabilidade de demolição da Lorcha Macau era de 100%”.
Uma longa história
Na realidade, a Lorcha Macau tem uma longa história.
A embarcação era uma réplica de barcos que desapareceram com a divulgação do vapor. Tinha 26,5 metros de comprimento, 6,5 de boca máxima, 2,5 metros de calado, três mastros e um deslocamento de 190 toneladas, tendo o seu custo rondado os seis milhões de patacas.
No passado, as lorchas assumiam-se como navios de comércio sendo ocasionalmente utilizados aquando de conflitos regionais. Combinando um casco de traçado ocidental com um leve velame de concepção oriental tornaram-se famosas pela sua rapidez e manobrabilidade. As primeiras referências a lorchas surgem no século XVII e são assinaladas por Fernão Mendes Pinto na “Peregrinação”. Estas embarcações tiveram um importante papel na Ásia, não só ao nível comercial mas também na luta contra os piratas, em apoio de frotas imperiais da China e na vigilância e segurança das rotas marítimas regionais desde a Malásia até ao Japão.
Neste contexto histórico, o capitão-tenente José Maria Cortes, nomeado em Março de 1986 para dirigir as Oficinas Navais conta que em Janeiro de 1987 após na África do Sul ter sido feita uma réplica da caravela “Bartolomeu Dias” “começou a falar-se em Macau no âmbito dos Serviços de Marinha e da Direcção dos Serviços de Turismo em construir” uma embarcação que assinalasse a presença de Portugal em Macau e traduzisse de algum modo o panorama naval chinês que havia em Macau”.
Em entrevista publicada em 2010 no blog da Armada Portuguesa José Maria Cortes explica que dos vários estudos então feitos percebeu-se que “as lorchas embora já em desuso nas águas do Sul da China tinham tido uma presença assinalável nos séculos anteriores e eram navios que tinham cascos baseados nas caravelas portuguesas e um aparelho vélico chinês”.
“Havia assim uma mistura que juntava Portugal e a China”, o que fez avançar o projecto, e com o entusiasmo dos oficiais navais em serviço no Território, em especial os comandantes Martins Soares, Sá Leal e José Cortes em 1988, por decisão da Administração portuguesa de Macau, as Oficinas Navais lançaram mãos à obra.
Conta o então director da TRIBUNA DE MACAU que “terminada no tempo do Governador Carlos Melancia, começou a viagem inaugural, com Sá Leal como comandante, a 9 de Julho de 1990, rumando à ilha japonesa de Kyushu e à cidade de Omura, para participar nas comemorações dos 400 anos da viagem de quatro samurais à Europa, levados por jesuítas portuguesas. Em Tanegashima, o seu pessoal participou no anual Festival da Espingarda e numa cerimónia no Cabo Kodura, local onde Fernão Mendes Pinto terá pisado pela primeira vez solo japonês. No Japão, foi ainda festivamente recebida em Kagoshima e Nagasaki, ambas cidades-portos com relacionamento histórico com os portugueses.”
Nos anos seguintes, efectuou viagens simbólicas à China, Coreia, Índia, Sri Lanka, Tailândia, Malásia e Singapura, sendo sempre muito visitada, ao mesmo tempo que propagou o nome de Macau nesses países.
Nos finais de 1997 ou inícios de 1998, seguiu para Hong Kong onde foi içada para um barco que a transportou a Lisboa para tomar parte na Expo 98, tendo sido um enorme sucesso. Na altura, a embarcação, tinha uma tripulação de 13 homens, e era comandada por António Carlos V. Rocha Carrilho, que este ano era vice-almirante.
Os problemas começaram a aparecer no final da Expo, porque o transporte de regresso era caro e 1999 aproximava-se. Acabou por ficar em Portugal, a cargo da Marinha, que a 28 de Setembro de 1998, a abateu ao efectivo, por despacho do Almirante CEMA e entregue a título gratuito à APORVELA, que tem por objectivo estatutário “promover a ligação das pessoas ao Mar, mantendo viva a tradição do património marítimo português”.
Em 2012, a Lorcha Macau voltou aos “media”, porque as instituições portuguesas que a aceitaram gratuita, e voluntariamente, não impediram a sua degradação e a RAEM não revelou interesse em que voltasse para Macau. Foi então cedida à Fundação Oriente, ao que parece gratuitamente, com a obrigação de proceder à sua recuperação e manutenção, mas logo em 2015 um relatório técnico reconheceu que que a recuperação é impossível” e acabaria por declarar a Lorcha Macau como “sucata”.
Agora é definitivo: a Lorcha “Macau” passa à história…



