Há ainda “muito para fazer” ao nível da informação sobre o autismo o que, por si só, dificulta a aceitação e compreensão dos pais e da sociedade face a esta condição, observa Goreti Lima. Segundo a psicóloga, que tem seguido vários casos de crianças autistas e respectivas famílias, “ninguém gosta de rótulos e, psicologicamente, a primeira fase nos processos de mudanças na vida, é a negação”. Por tudo isso, até se “chegar à aceitação há um caminho” e o distúrbio do autismo não é excepção à regra
Catarina Almeida
Em 1943, Leo Kanner publicava a obra que associou o seu nome ao autismo. Hoje em dia, para serem consideradas dentro desse espectro, as pessoas devem evidenciar uma tríade de “insuficiências, dificuldades”, nomeadamente ao nível da comunicação, interacção social e funções executivas.
Estas últimas manifestam-se sobretudo no comportamento, ou seja, no “pensamento rígido” pois não conseguem imaginar, tudo é “muito literal”, comportamentos repetitivos e padronizados, atenção e concentração, entre outros aspectos.
E, muitas vezes, “estas três áreas comprometidas, aparecem acompanhadas de questões de processamento sensorial, isto é dos sentidos, a percepção do mundo que nos rodeia a todos”, Goreti Lima, psicóloga no território que tem trabalhado com crianças autistas, actualmente no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.
O estudo sobre esta condição está em constante avaliação e descoberta, no entanto, ainda “há muito para fazer sobretudo ao nível da informação” pois “só havendo conhecimento sobre um assunto se pode compreendê-lo e aceitá-lo”, realça Goreti Lima à TRIBUNA DE MACAU.
Tal como Jacky e Angel, que se viram forçados a desistir das terapias dadas fora da escola e do Centro de Apoio Psico-Pedagógico e Ensino Especial (CAPPEE), há pais que “interrompem o processo de avaliação ou que rejeitam logo à partida o diagnóstico mas é um processo natural do ser humano”, explica Goreti Lima.
Até porque, observa, “ninguém gosta de rótulos e, psicologicamente, a primeira fase nos processos de mudanças na vida, é a negação. Até se chegar à aceitação há um caminho. A questão fulcral é que quanto mais cedo se der a intervenção (adequada) tanto melhor”. “Estes assuntos são muito delicados de abordar com os pais… muitas vezes nem o processo de avaliação avança porque atribuem determinado tipo de comportamento à idade, à falta de imaturidade, e ficam na esperança que as crianças mudem. É outra resposta natural do ser humano à mudança”, aponta.
Ademais, Goreti Lima entende que esta falta de conhecimento sobre a condição em Macau deve-se muito ao facto do autismo acontecer ao “nível do neuro-desenvolvimento, no cérebro” e manifesta-se em comportamentos diferentes.
Além disso, “como não é visível aos olhos, como por exemplo uma pessoa que necessita de cadeira de rodas para se deslocar, na prática ainda não é reconhecida como uma desvantagem ou incapacidade”, frisa. “Ainda há muito aquela ideia que uma pessoa autista apresenta um deficit intelectual e se embala sobre si em total isolamento, ou pelo contrário, é aquela mente brilhante do actor Dustin Hoffman no filme Rain Men. Não é”, explica.
Considerada como um espectro, esta condição manifesta-se nas crianças de variadas formas pois a verdade é que umas precisam de mais apoio do que outras, ainda que todas necessitem, como destaca Goreti Lima, que lida com crianças autistas numa frequência diária.
No Costa Nunes, são 11 as crianças identificadas pelo sistema de saúde de Macau com autismo. Mas, na versão da psicóloga, “existem as outras que apresentam todos os sinais mas que os pais, os educadores, e até alguns técnicos de saúde, não reconhecem. Acredito que por desconhecimento ou pudor”, observa.
É “preciso informar”
Goreti Lima tem recebido muita formação fora do território, que lhe implica idas a centros de intervenção e escolas. Formação essa que, por sua vez, tem também permitido observar que, em Macau, ainda há muito por fazer. Por isso, adverte, “é preciso informar os pais e as equipas educativas e de apoio, e depois dar formação e treino adequado. A maior lacuna que encontro no território é falta de formação para lidar com estes casos. E este trabalho é o mais importante. Saber dar respostas adequadas. Ainda vejo programas de intervenção (quando existem) completamente ultrapassados”.
Em contrapartida, “nos tempos que correm existem intervenções focadas no treino das emoções e das interações sociais que respeitam a pessoa e a sua individualidade, e que requerem um ajuste do ambiente às desvantagens que os autistas apresentam”, vinca.
No entanto, se estas adaptações fossem implementadas trariam benefícios para todos, diz a psicóloga referindo-se a “pessoas do tipo neurológico dominante (que são a maioria) e os que apresentam um neurotipo diferente (autistas) e por isso se encontram em desvantagem”.
Em prol de uma melhor qualidade de vida para autistas, a aposta na formação e treino passam também pelas escolas. “As adaptações ao currículo com base neste tipo de intervenção beneficiam todos, especialmente num território bilingue ou trilingue como o que vivemos, pois as estratégias são todas elas em redor da comunicação”, destaca.
“As nossas escolas estão cheias de crianças e jovens expostas a várias línguas. Quando comecei a estudar a fundo programas de intervenção percebi que aqui em Macau todos os alunos iam tirar proveito deste tipo de métodos. Por isso vale a pena adoptar estas estratégias porque ganham todos, e a inclusão acontece naturalmente”, acrescenta.
Pelo exposto, a “formação e treino para os programas de intervenção, ou seja um modelo de estratégias de actuação, ainda está por fazer. Mas é óptimo terem sensibilidade, a adopção de uma prática vem logo a seguir, desde que as escolas invistam nas suas equipas educativas. Já agora a DSEJ, através do CAPPEE, facilita esse processo e eu sou a prova disso”, vinca.
Um dos pontos fundamentais quando se discute e tenta perceber o autismo é estar também consciente de que a “teoria é óptima para alertar e sensibilizar a opinião pública, mas não chega quando se lida com estes casos diariamente”, defende Goreti Lima.
Tanto que, “por falta de conhecimento, ainda há a ideia que as perturbações do espectro do autismo estão de mãos dadas com o estilo parentar, o que está longe da verdade”. Por outras palavras, “sendo uma perturbação do neuro-desenvolvimento, é no cérebro, logo, não se fica autista, nasce-se assim”.
NA EDIÇÃO DE AMANHÃ: O AUTISMO NA FASE ADULTA



