Wong Dong diz que vender pianos em Macau é uma “tarefa sem futuro”
Wong Dong diz que vender pianos em Macau é uma “tarefa sem futuro”

O mercado das lojas de instrumentos musicais no território cresceu 114,3% no intervalo de uma década, agregando hoje 90 estabelecimentos, dos quais cerca de 70% disponibilizam aulas de música. A directora da Associação de Música e Promoção da Educação Artística de Macau entende que essa evolução está associada ao crescimento económico e aumento da importância atribuída à música nas escolas. Mesmo assim, adverte que “o desenvolvimento do sector de música é muito lento e está aquém do nível das regiões vizinhas”. As reticências são partilhadas por responsáveis do sector, havendo mesmo quem tema o desaparecimento dessa actividade

 

Rima Cui

 

No final de 2007, Macau dispunha de 42 estabelecimentos de venda a retalho de instrumentos musicais, mas 10 anos depois o número cresceu cerca de 114,3%, totalizando agora 90 lojas, de acordo com dados fornecidos pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Entre 2007 e Junho de 2017, abriram 61 lojas de instrumentos, porém, outras 28 não sobreviveram e declararam falência nesse espaço de tempo. Os mesmos dados indicam ainda que a idade média de actividade dos estabelecimentos actuais atinge 8,5 anos.

É também de salientar que 61 das 90 lojas de instrumentos em funcionamento oferecem aulas de música, ou seja cerca de 70% do total.

“No passado, poucas pessoas em Macau davam importância à música, sendo que muitas consideravam os instrumentos musicais como produtos de luxo. Além disso, apenas pessoas ricas aprendiam piano ou violino”, destaca Carol Lam, directora da Associação de Música e Promoção da Educação Artística de Macau, em declarações a este jornal.

Hoje, a situação é distinta. “Com o crescimento económico, cada vez mais pessoas começam a valorizar a música e há também mais escolas a apostar muito no desenvolvimento das aulas de música”, sublinha.

No entanto, apenas as lojas de maior dimensão conseguem sustentar-se através da venda de instrumentos, pelo que a maioria dos estabelecimentos lucra sobretudo com as aulas de música, explica Carol Lam, acrescentando que em Macau aprende-se mais piano, violino e flauta.

“Surgiu um novo modelo de operação, com muitas pessoas a começarem a aproveitar edifícios industriais para vender pianos em segunda mão, permitindo que os clientes paguem de forma faseada. Uma loja deste tipo pode ter 100 pianos à venda”.

Para a representante da associação de promoção de música, “o sector não é suportado pelas compras de clientes individuais, mas pela procura das escolas”. Segundo Carol Lam, para além de alguns jardins-de-infância exigirem aos alunos aulas de piano, também há escolas que fixaram regras para que os estudantes dominem pelo menos dois instrumentos musicais ou toda a turma saiba tocar piano.

 

Poucos recursos humanos

Macau tem 90 lojas de instrumentos musicais

Apesar de tudo, a mesma responsável entende que o desenvolvimento deste sector musical em Macau é muito lento e está ainda muito longe de outras regiões asiáticas. Embora cada vez mais pessoas aprendam música, a maioria prefere desenvolver este interesse nos tempos livres e não como um caminho profissional.

“A falta de docentes é um dos motivos mais importantes para o problema. Uma edição da licenciatura em Música da Escola Superior de Artes do Instituto Politécnico de Macau apenas consegue formar 10 professores e, além disso, raramente há doutorandos de música no território. Apesar das lojas de instrumentos terem professores, estes só possuem qualificação de nível oito de piano”, lamenta.

Esta situação verifica-se, por exemplo, na loja e escola “Ocean Piano”. Segundo revelou uma funcionária a tempo parcial, de 16 anos, trabalham na loja sete professores de piano, todos jovens que concluíram as aulas de piano de nível oito no mesmo local.

“Entre os alunos, há crianças e adultos. A minha irmã aprendeu um instrumento musical porque é mais vantajoso no exame de admissão para a universidade, dando-lhe 20 pontos a mais na nota. Ela apenas precisa de filmar um vídeo em casa a tocar o instrumento”, referiu a adolescente.

 

Futuro pouco risonho

Ao analisar a falência de 28 lojas em 10 anos, Carol Lam considera que a situação deriva da abertura de aulas de música em muitas escolas. Paralelamente, as vendas online têm crescido exponencialmente, facilitando sobremaneira o acesso a instrumentos muito mais baratos.

Wong Dong, funcionário da loja de instrumentos “Sam Sam”, marca de educação musical com quatro sucursais em Macau, gere sozinho um espaço comercial que por mês vende menos de 10 instrumentos. “O piano chinês e o violoncelo são os instrumentos que geram menos interesse das pessoas”, queixou-se, revelando que, na sua loja, a venda de um piano demora normalmente vários meses.

Para Wong, a vender pianos em Macau é uma “tarefa sem futuro”, até porque o facto das fracções habitacionais serem pequenas suscita grandes hesitações aos potenciais compradores. “Esta loja agora não tem lucros”, indicou.

Segundo o funcionário, que tem vários anos de experiência nesta área, outro dos entraves passa pelo enquadramento legal desses espaços. As regras vigentes estipulam que um estabelecimento que seja denominado  como “loja de instrumento”, não pode dar aulas, algo que só é permitido a um “centro de educação”.

Tal como Carol Lam, Wong Dong vê nas escolas uma grande concorrência aos centros de educação de música. Questionado sobre uma possível cooperação entre as partes para transformar a concorrência num impulso mútuo, o jovem licenciado em flauta lamentou que os Serviços de Educação e Juventude proíbam a colaboração entre esses centros e as escolas, situação contrária à registada no Continente chinês.

Na sua perspectiva, a venda de instrumentos “não tem futuro e vai morrer”. “Muito rapidamente, vão indo à falência muitas lojas de instrumento”, asseverou.

Num centro de educação da marca “Sam Sam”, grupo que conta com 30 professores, uma aula de piano, por exemplo, tem a duração de 45 minutos e custa 280 patacas. Wang Dong refere que este preço é muito mais elevado do que as cerca de 100 patacas por aula cobradas noutros outros estabelecimentos.

O caminho para uma possível recuperação veio com as festas, pois a empresa “Sam Sam” começou a aceitar convites para actuações, a uma média de duas por mês.

O Jornal TRIBUNA DE MACAU tentou contactar  responsáveis de outras lojas de instrumentos, mas todas essas solicitações foram rejeitadas, situação que Wong Dong atribui ao facto de ter surgido no sector um problema de “espionagem comercial”. Muitas lojas enviam “espiões para roubar novas ideias de exploração a outros estabelecimentos”, assegurou.