Vestir trajes tradicionais para conhecer os segredos e a cultura tornou-se numa verdadeira moda em países como o Japão ou a Coreia do Sul. Judy Lee e April Chen, naturais de Taiwan, são as responsáveis por trazer para Macau esta prática que tem atraído muitos turistas. A loja “Qiyuan”, única do género em Macau, disponibiliza quase tudo o que é necessário para garantir uma visita ao território a rigor e a preceito: desde a maquilhagem aos penteados, passando pelos trajes e sessões de fotografia

 

Viviana Chan

 

Viajar para lugares no mundo como o Japão ou a Coreia do Sul poderá representar uma verdadeira imersão na tradição sobretudo por ser vulgar visitar determinados palácios e palcos de uma intensa marca cultural e cruzar com pessoas que evocam tempos antigos. Mas, de facto, são turistas. Vestidos à moda antiga, numa espécie de regresso ao passado em tempos modernos. Conhecer esses verdadeiros tesouros culturais e vestir os trajes tradicionais da época em causa propicia uma experiência completamente diferente. E, em Macau, essa moda não passou ao lado.

Negócio juntou em Macau as taiwanesas April Chen (esq) e Judy Lee

Em Maio, num canto tranquilo perto da Rua do Pedro Nolasco da Silva, duas jovens taiwanesas inauguraram um novo espaço na cidade. A loja “Qiyuan” abriu no Pátio de Hó Chin Sin Tong – que tem acesso para o Centro Histórico de Macau – e o desafio lançado pelas jovens empresárias é simples: entrar, pagar 300 patacas em troca de um “bilhete” que garante acesso a uma entrada na “máquina do tempo” e sentir a Macau antiga.

À TRIBUNA DE MACAU, a fundadora da loja, Judy Lee, contou como foi influenciada e o que a motivou a apostar neste tipo de negócio, inédito até agora na cidade. “Fui buscar inspiração ao que é já um negócio no Japão e na Coreia do Sul, onde os turistas podem experimentar os trajes tradicionais. Macau tem muitos recursos turísticos, como os edifícios de estilo português pelo que é um espaço perfeito para lançar este tipo de serviço”, destacou.

Alugar este tipo de roupas tradicionais é algo que tem conquistado o mercado turístico muito graças à generalização das redes sociais que motiva muitos turistas – e cibernautas – a captar fotografias bonitas e originais. Para muitos, é essencial captar e partilhar cada momento da viagem.

Na loja “Qiyuan” é possível alugar o traje tradicional chinês “qipao”, que surgiu nos anos 1930

Ora, para as duas fundadoras, o balanço do negócio neste primeiro mês de funcionamento não poderia ser mais positivo, comprovando que os turistas que passam por Macau querem experienciar a cidade no seu todo. “Está a correr cada vez melhor. Temos recebido muita atenção e partilhas de informação sobre a loja nas redes sociais”, disse Judy Lee, acrescentando que 70% clientes dos seus clientes são turistas.

Na loja “Qiyuan” é possível alugar o traje tradicional chinês “qipao” – modelo de vestuário que surgiu nos anos 1930 entre as duas grandes guerras quando Xangai era conhecida como a “Paris do Extremo Oriente”, aberta e cosmopolita. O próprio corte do vestido é bastante feminino deixando a mulher com uma postura elegante e adelgaçada “obrigando-a” a movimentar-se de forma mais cuidadosa o que, segundo reza a História, criou no imaginário dos ocidentais a imagem de uma mulher oriental sensual e misteriosa. Este traje foi também usado variadíssimas vezes em produções cinematográficas de Hong Kong, o que contribuiu para fortalecer o simbolismo de uma China Moderna.

Em comparação com os trajes coreanos e japoneses, o “qipao” é mais simples, na medida em que consiste numa única peça sendo mais fácil de vestir. “Os turistas de Taiwan procuram mais este serviço, seguindo-se os de Hong Kong”, apontou Judy Lee.

 

Das fotografias à maquilhagem

O estabelecimento comercial está aberto todos os dias, das 10:30 às 18:00, excepto às quartas-feiras. Quem quiser alugar um traje durante sete horas terá de pagar 340 patacas para também ter direito a uma fotografia. Os tamanhos variam de XS a XXXL tal como os estilos do vestido que poderá ser mais curto ou mais simples. O pacote inclui também maquilhagem e penteado.

Segundo as proprietárias do espaço quem quiser tirar mais fotografias, em diferentes cenários da cidade, pode contratar um fotógrafo por 1.500 patacas para 90 minutos. Caso o cliente seja um casal, o pacote (530 patacas) inclui traje para mulher e homem com acessórios mais básicos. Além disso, a loja oferece um serviço de orientação disponibilizando um itinerário caso os turistas queiram ser fotografados em vários pontos de interesse patrimonial. Nesta listagem, a Rua da Felicidade é a mais recomendada, sendo também sugeridas paragens na zona de São Lázaro e nas Ruínas de São Paulo, entre outros locais.

A co-fundadora April Chen considera que Macau tem muitas zonas lindas que pouca gente conhece. “Há locais muito bonitos para tirar fotografias lindíssimas e, por isso, a nossa intenção é inspirar as pessoas a registarem mais aqueles momentos”, disse.

 

Seis meses de preparação

Foi Judy Lee quem tomou a iniciativa de abrir este negócio, depois de ter desistido da área em que trabalhava. “Tive um trabalho num casino, mas acabei por desistir porque era por turnos, o que é muito cansativo”, admitiu. “Além disso, obrigava-me a estar sempre de pé e como tive um acidente que me deixou mazelas no pé… Deixou-me a pensar e a chegar à conclusão que talvez não seria o melhor emprego para mim”, contou.

A sua parceira de negócio, April Chen, também se casou com um residente de Macau acabando por mudar definitivamente para o território. As donas desta loja conhecerem-se nas aulas de Cantonês.

Oferta inclui uma vasta gama de acessórios

No que à montagem do negócio diz respeito, Judy Lee recorda os seis meses necessários para preparar todo o processo sendo que a procura pelo espaço foi o ponto mais difícil. “Tínhamos dúvidas se este negócio tinha o que era preciso para suceder”, reconheceu Judy Lee.

Já April Chen apontou o elevado custo de vida de Macau como um entrave inicial. “Não acreditava que iríamos conseguir montar tudo sem a ajuda de terceiros mas acabei por ficar mais tranquila porque Roma não foi construída num dia”.

April Chen tem agora 30 anos – uma idade que diz ser ideal para levar avante sonhos e desejos. “Visitei uma loja parecida em Taiwan para aprender algumas coisas mas foi a fase em que estou na vida que me impulsionou a avançar com esta ideia”, contou.

Já Judy Lee não pecava por falta de determinação. O impasse existia mais porque ainda não tinha encontrado o parceiro de negócios ideal. “A April Chen é de confiança mas esperei pela resposta dela durante dois a três meses”, disse.

As duas jovens estão cada vez mais confiantes no sucesso do negócio, uma vez que o desenvolvimento do turismo em Macau apresenta resultados satisfatórios. Ao mesmo tempo, o Governo de Macau está a apostar mais nas indústrias criativas: “Os produtos criativos de Macau melhoraram muito”, constata Judy Lee.

Para April Chen, “o Governo está a envidar muitos apoios nessa área, passando ser uma das prioridades da acção governativa”, indicou.