A personagem Sebastian Tsé passa da vida terrena para o mundo dos mortos onde reinam os deuses chineses, e é desse percurso que fala a obra “Boi Cabeça, Cavalo Cara”, da autoria de Shee Vá

 

Salomé Fernandes

 

Abre com uma cena de suicídio e o investigador da polícia que inspecciona a cena. No livro “Boi Cabeça, Cavalo Cara”, do escritor Shee Vá, a personagem Sebastian Tsé é um obstetra nascido em Macau e educado no Canadá que se suicida porque “tem contas a ajustar com os vivos e com Deus”. A obra vai ser apresentada na sexta-feira pelas 18h30 na galeria da Livraria Portuguesa, onde estará presente o autor.

A descrição é gráfica. “Sebastian fez descer a lâmina do bisturi sobre o seu pescoço. Uma linha de sangue transformou-se, em segundos, num jorro de líquido vermelho que salpicou a parede da sala e coloriu o rosto da dra Vitória, molhando e colando os seus cabelos. Ela gritou socorro por três vezes, o corpo de Sebastian tombava sobre ela, repeliu-o com gestos automáticos e esgueirou-se para debaixo da secretária”, pode ler-se nas páginas iniciais do livro.

Vermelha é também a revolução cultural que leva os pais de Sebastian a saírem de Macau quando a cidade estava ainda sob administração portuguesa com o Governador Nobre de Carvalho, levando o casal a fugir em direcção ao Canadá, afastando-se de conflitos partidários.

Ao longo do livro, explora-se como a alma do médico obstetra “que pretendia ser vingativa e errante no mundo dos vivos, é transportada para o Mundo dos Mortos onde reinam os deuses chineses”. É aí que assiste ao seu funeral, se despede da esposa, Siu Mui, e se desliga da vida terrena na procura por respostas. “Através dos castigos devidos aos pecados cometidos como ser humano, descobre o Eu essencial e o significado de Yuan Shen, a energia cósmica do seu clã”, descreve a sua sinopse.

“Boi Cabeça, Cavalo Cara” segue-se a outros livros de Shee Vá, como o romance “Espíritos”, onde dá a conhecer o poder das superstições que povoam a mente asiática, e “Uma ponte para a China”, onde aborda as tradições chineses apreendidas no seio familiar e expandidas no contacto com a sociedade chinesa. Natural de Moçambique, é também ele médico, profissão que exerce em Macau.