O Clube Militar de Macau recebe amanhã uma conferência dedicada ao legado artístico de Manuel da Silva Mendes, “um dos poucos portugueses que se interessaram pela cultura do Outro” e o homem ocidental que mais sabia de arte chinesa na costa do país, conforme sublinha António Conceição Júnior, orador convidado para esta homenagem. Na conferência, serão analisadas as colecções de arte de Silva Mendes, que fazem agora parte do Património de Macau

 

Inês Almeida

 

Manuel da Silva Mendes veio para Macau e “foi dos poucos portugueses, do seu tempo e no geral, que se interessaram pela cultura do Outro, o que fez com que se tornasse num sinólogo e num homem muito interessado na cultura e arte chinesa, tendo sido, por isso, o homem Ocidental que mais sabia de arte chinesa na costa da China”, sublinha António Conceição Júnior em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“O Legado Artístico de Silva Mendes” é o título de uma conferência que terá lugar amanhã, pelas 18:30, no Clube Militar de Macau, e o orador será precisamente Conceição Júnior por ter na sua posse uma fotografia que mostra “uma série de coincidências”. “Há uma série de coincidências numa fotografia no Liceu de Macau, onde estão Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes e depois, lado a lado, Luís Gonzaga Gomes e o meu pai”, explicou.

“Quer o meu pai, quer Luís Gonzaga Gomes, além de terem sido alunos de ambos, tornaram-se depois colegas de redacção no Notícias de Macau, juntamente com a minha mãe, que era o jornal que ocupava o lugar onde hoje está o Jornal Tribuna de Macau, fisicamente falando”, contou António Conceição Júnior, que cresceu a ver livros das edições originais desta publicação.

Pai de António Conceição Júnior estudou com Gonzaga Gomes

Mas as coincidências da sua vida não ficam por aqui. Luís Gonzaga Gomes, além de colega do seu pai, foi primeiro director do então Museu Luís de Camões. “Eu sucedi-lhe, dois anos e tal depois de ele morrer. Ele morreu em 1975 e eu em Janeiro de 1978, o que me permitiu, de certo modo, continuar uma herança de memórias, de ligações, porque éramos vizinhos e continuei o trabalho dele, tendo até promovido uma das primeiras reedições das obras de Manuel da Silva Mendes, em 1980 e em 1983”.

No entanto, são as suas colecções de arte que hoje fazem parte do Património de Macau e que serão abordadas na conferência de amanhã.

“Ele é um homem que passa a ser extraordinariamente conhecedor da cultura chinesa”, sublinha António Conceição Júnior. “Basta dizer que, em 1909, no então Grémio Militar, actual Clube Militar, faz uma conferência sobre o Taoismo, isto é, sobre a ‘bíblia’ do Taoismo, Tao Te Qing, uma filosofia que vem dos tempos de Laozi, do século VI antes de Cristo”.

Neste texto, “há uma abordagem sobre o vazio e cujo conceito no Ocidente é tido como negativo, como no caso da pessoa que se sente vazia, que está muito em baixo”. “No Oriente dá-se exactamente o contrário, veja-se o caso da meditação que consiste no esvaziar da mente. No Tao Te Qing vêm algumas frases como ‘uma casa é feita de portas e janelas, mas é o vazio interior que a torna habitável’”, refere António Conceição Júnior.

Outro exemplo é o da roda. “Não são os 30 raids que convergem para o centro mas é sim o vazio central que permite que eles se encaixem no eixo e que a roda seja útil”. “O Taoismo tem diversas interpretações e esta é uma muito literal, mas que tem um interesse grande, pois ele [Manuel da Silva Mendes] escreveu sobre o Taoismo e a associação com o socialismo libertário, anarquismo”, frisou.