Distinguido na Bienal de Arquitectura de Veneza com um Leão de Ouro, Souto de Moura entende que o prémio comprova o valor da arquitectura portuguesa. Em Macau, o seu trabalho é elogiado pela simplicidade, que não cria dicotomias forçadas ou envereda por clichés
Inês Almeida*
Eduardo Souto de Moura foi distinguido com um Leão de Ouro na 16ª Exposição Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza, pelo projecto do complexo turístico de São Lourenço do Barrocal, a recuperação de um monte alentejano e a sua adaptação a hotel. O reconhecimento é merecido na opinião de arquitectos de Macau.
Maria José de Freitas disse ter ficado “muito satisfeita”. “A arquitectura portuguesa está de parabéns e a arquitectura feita e desenvolvida por arquitectos portugueses está a ter um reconhecimento mundial sem paralelo. Temos sido distinguidos por uma série de situações recentes com trabalhos dos nossos arquitectos”, sublinhou em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Relativamente ao trabalho de Eduardo Souto de Moura que lhe valeu o prémio, a arquitecta diz ser “muito interessante” e uma ideia “extremamente simples”. “O trabalho é constituído por duas fotografias representativas de uma obra, o antes e o depois, e isto também desconstrói aquela ideia de que é necessário muito aparato, muita figuração para que uma obra tenha valor”, frisou Maria José de Freitas.
“Neste caso temos uma obra simples, representada de uma forma simples e inteligente e que exige uma aproximação do leitor e um espaço para se poder entender essa obra. Enquanto me aproximo dessas fotografias, a partir do momento em que consigo visualizá-las, consigo aproximar-me desse espaço que o arquitecto construiu e conseguiu dinamizar e que, desta forma bastante despojada, está a conseguir que o espectador se aperceba dela e a interiorize. Parece-me fantástico”, defendeu a arquitecta.
Este reconhecimento da arquitectura portuguesa a nível mundial, sobretudo na Europa, tem interesse na Ásia designadamente devido à arquitectura portuguesa feita no território, para que ela “consiga ser mais valorizada”. “Muitas vezes [a arquitectura portuguesa] é relegada para segundo plano perante arquitectos que vêm de outros países, de Hong Kong ou de uma série de outras áreas geográficas”.
No fundo, “estes prémios mundiais vêm afirmar um valor que a arquitectura portuguesa tem e que, ao mesmo tempo, demanda e pede uma nova forma de encarar, perspectivar”. “Actualmente estamos a dar algumas formas arquitectónicas ao mundo. Isto é um factor para nos sentirmos orgulhosos”, defendeu Maria José de Freitas.
Por sua vez, Rui Leão acredita que este prémio representa “mais uma confirmação da qualidade da arquitectura portuguesa”. “A colecção tem principalmente uma grande qualidade que é desmistificar o aburguesamento dos grandes investimentos porque no fundo há uma aldeia, um monte alentejano, para a qual há a proposta de converter num hotel e o arquitecto não propõe criar uma ideia cliché de luxo, que é incompatível com o Património que lá está”, frisou o arquitecto, indicando que essas ideias por norma levam à desqualificação do património.
Em vez disso, Souto de Moura “propõe o que é muito sensível e apreciável que é que estas pessoas, os hóspedes do hotel, fiquem nos mesmos espaços, na mesma aldeia, com as pequenas introduções que a qualificam, em vez de estar com grandes intervenções para simular uma qualidade mais urbana, mais nova-rica”.
Afastar ideias pré-concebidas
Esta é, por isso, “uma grande lição não só em termos de arquitectura, cultura e maneira de estar mas também de sustentabilidade porque há um paradigma muito importante na área da arquitectura e do urbanismo que é que não se pode sistematicamente a trazer propostas pré-concebidas do que é o luxo”. “Essas ideias pré-concebidas são, em muitas instâncias, insustentáveis”, frisou o presidente do Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa.
Já Francisco Vizeu Pinheiro defende que este prémio é dedicado a uma instalação relacionada com o espaço e tempo em arquitectura. “A instalação é simples e directa, compondo-se de duas fotografias do mesmo local em anos diferentes, sendo a intervenção arquitectónica o factor que provoca as alterações na paisagem”, sublinhou o arquitecto em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
“A janela no topo, parte do edifício do arsenal, reforça a ideia de uma janela do tempo, actualidade, contribuindo com as duas fotografias, do antes e depois, para criar o conceito do passado, presente e futuro”, considera Vizeu Pinheiro.
Ao mesmo tempo, “o prémio é também atribuído à linguagem arquitectónica que, no caso de Souto de Moura, não cria a dicotomia forçada e às vezes hipócrita de afirmação pessoal do ego, da assinatura pessoal, ao introduzir o contraste de materiais e linguagem ‘contemporânea’ ou internacional que interrompem a linguagem vernacular, as tradições do local, muitas vezes, deixando apenas a fachada original”.
Eduardo Souto de Moura, pelo contrário, “neste projecto, e noutros, respeita a linguagem da região adaptando as instalações existentes para funcionar como um hotel de cinco estrelas, sem descaracterizar a arquitectura e volumetrias existentes”. “É um bom exemplo para Macau, para a conversão de edifícios em uso pelo Governo para serem abertos ao público, como acontece com muitos edifícios históricos de Macau, no Centro Histórico ou no bairro de São Lázaro”, destacou Francisco Vizeu Pinheiro.
Reconhecimento do valor da arquitectura portuguesa
Após ser distinguido com o Leão de Ouro, Eduardo Souto de Moura considerou o prémio “o reconhecimento do valor e do nível da arquitectura portuguesa”. “É mais uma [distinção], estou contente pela arquitectura portuguesa, que cada vez é mais reconhecida nos sítios que exigem mais qualidade”, afirmou à agência Lusa, realçando ainda que “o pavilhão de Portugal era dos melhores, com um conjunto de arquitectos que não é fácil encontrar”.
“Isto tudo vem de uma tradição do Siza [Vieira], do [Fernando] Távora e de outros arquitectos”, sustentou, salientando que actualmente “a arquitectura portuguesa é muito bem vista” e tem “uma qualidade superior à da maior parte dos países europeus”. “E já não é de agora, estamos fartos de ganhar prémios, o que para mim é uma vaidade, ficamos orgulhosos”, acrescentou.
Relativamente ao projecto distinguido pelo júri da exposição – o complexo turístico de São Lourenço do Barrocal – Souto de Moura disse que foi “muito difícil, porque não é radical”: “Já fiz outros projectos mais modernos, mais antigos, este era a procura de um tom que não destruísse o ambiente do edifício e da paisagem. É um projecto de risco porque estava quase no limite do pastiche [obra em que se imita abertamente o estilo de outros artistas], era uma imitação do antigo”, explicou.
Já o Presidente da República considerou que este Leão de Ouro faz “muito bem à alma dos portugueses”. “Para nós é uma honra, é um motivo de orgulho e sobretudo é uma aposta no futuro, tal como Siza Vieira, também Souto de Moura está muito virado para o futuro. Tem grandes obras e ainda hoje foi anunciada uma obra importante e simbólica que é aquela que vai testemunhar, em memorial, a tragédia de Junho do ano passado”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.
O Ministro da Cultura também felicitou Souto de Moura, classificando o projecto em questão como “uma obra absolutamente excepcional que merece ser conhecida e vivida, e que resume o tema geral da exposição da Bienal de Veneza”: Espaço Livre.
Recordando que “Portugal é uma presença assídua e cada vez mais reconhecida no contexto das bienais internacionais de arquitectura e de artes”, Luís Filipe de Castro Mendes deixou ainda um agradecimento especial aos arquitectos “pela forma como têm enriquecido o património criativo e crítico do país e pela promoção da cultura portuguesa no mundo”.
Na mesma linha, o presidente da Ordem dos Arquitectos destacou a “sucessão de prémios” atribuídos a Souto de Moura como reflexo da “grande qualidade que tem mantido ao longo dos anos”. José Manuel Pedreirinho recordou que Souto de Moura está também representado na Bienal com “outro projecto extraordinário que é uma capela no pavilhão do Vaticano”.
100 arquitectos na exposição principal
Nascido em 1952, Eduardo Souto de Moura, vencedor do Prémio Pritzker 2011 – considerado o Prémio Nobel da arquitectura -, assinou, entre outros projectos, o Estádio Municipal de Braga, a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, e o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança. Em 2016 foi premiado pela X Bienal Ibero-americana de Arquitectura e Urbanismo, que decorreu em Madrid, “pelo importante contributo do seu ensino em universidades de diversos países”, e recebeu em 2017 o “Piranesi Prix de Rome 2017”, um prémio de carreira atribuído pela Academia Adrianea de Arquitectura e Arqueologia Onlus.
Souto de Moura foi um dos 100 arquitectos convidados pelas curadoras da Bienal de Veneza, Yvonne Farrell e Shelley McNamara, do gabinete “Grafton Architects”, para a exposição principal, além dos pavilhões nacionais.
Em Veneza, a representação oficial portuguesa traduz-se na exposição “Public Without Rethoric”, que reúne 12 edifícios públicos criados por arquitectos de várias gerações, nos últimos 10 anos, e filmes de quatro artistas, sobre os edifícios.
O certame dedicado à arquitectura – cujo prémio máximo é o Leão de Ouro – recebe este ano 65 participações nacionais, divididas entre os pavilhões históricos do Giardini, do Arsenale e do centro histórico de Veneza.
* com Lusa



