As autoridades chinesas deverão manter uma política “muito conservadora” sobre a abertura de fronteiras em 2022, considerou o CEO da Melco Resorts, tendo em conta a situação pandémica em Hong Kong e o facto do calendário anual integrar eventos “muito importantes” para o país, desde as comemorações do 25º aniversário da RAEHK ao 20º Congresso Nacional do Partido Comunista. Lawrence Ho não acredita que o Continente retome as visitas em excursões e os vistos electrónicos para Macau antes da abertura do “corredor Hong Kong-China”

 

Sérgio Terra

 

O fluxo de visitantes em Macau continuará a ser limitado e sujeito a flutuações, sazonais ou derivadas de alterações às medidas de prevenção epidémica, enquanto as autoridades chinesas mantiverem a política de “zero casos de covid”, observou Lawrence Ho, assumindo que não espera mudanças substanciais nessa estratégia a curto prazo.

“Acho que a política chinesa será muito conservadora este ano no que diz respeito à abertura das suas fronteiras e, recentemente, notámos até como certas províncias vêem Macau tão perto de Hong Kong. Portanto, de alguma forma, o surto de covid em Hong Kong afectará Macau. Honestamente não tenho muita esperança de que as excursões em grupo ou os vistos electrónicos sejam normalizados antes do corredor Hong Kong-China, o que significaria a abertura do corredor Hong Kong-Macau”, afirmou o presidente e CEO da Melco Resorts & Entertainment numa teleconferência com analistas para análise dos resultados financeiros da empresa no quarto trimestre de 2021.

Lawrence Ho recordou ainda que 2022 é um ano “singular” e “muito importante” para a China. “Passámos pelas Olimpíadas e, claro, as reuniões das duas sessões [da Assembleia Nacional Popular e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês] vão começar esta semana (…) Depois disso teremos a eleição do Chefe do Executivo de Hong Kong, o 25º aniversário da transferência de Hong Kong e, de longe, o evento mais importante acontecerá em Outubro, que é o Congresso Nacional do Partido Chinês”, destacou.

Na apresentação dos resultados do quarto trimestre, o líder da Melco já tinha indicado que as restrições às viagens “continuaram a afectar o desempenho operacional e financeiro” do grupo, que se viu obrigado a manter “uma forte disciplina de custos nestes tempos desafiadores”. No início deste ano, a detecção de casos de covid em Zhuhai “levou a um desempenho mais suave no período pré-Ano Novo Chinês”, no entanto, os negócios registaram uma recuperação expressiva durante os feriados da época festiva e nas semanas seguintes.

“Os negócios ‘premium’ directo [sem intervenção de ‘junkets’] no City of Dreams Macau mais do que duplicaram em comparação com o período do Ano Novo Chinês de 2021 e continuaram a superar [o mercado] nas semanas seguintes. As apostas nas mesas de massas também demonstraram força, aumentando cerca de 20%” em relação ao período homólogo do ano anterior, realçou Lawrence Ho.

Em linha com a postura das outras operadoras de jogo, a Melco também desvalorizou o impacto da crise no segmento VIP, profundamente abalado pelas detenções de Alvin Chau e Levo Chan, que lideravam a Suncity e Tak Chun, as duas maiores empresas de “junkets”. “No ano passado, antes de toda a indústria VIP e junket implodir, mudámos o Altira para um empreendimento focado nas massas ‘premium’’, apontou Lawrence Ho.

 

Casino Studio City à espera de “clarificação”

Os responsáveis da Melco foram igualmente questionados sobre a situação do casino Studio City no quadro da revisão da lei do jogo, cuja proposta prevê um prazo de três anos para resolver a questão dos casinos-satélite, uma vez que apenas serão autorizados espaços de jogo localizados em bens imóveis da concessionária.

Há cerca de um mês, a Studio City International Holdings, que controla e opera o empreendimento situado no COTAI, admitiu que poderá ter de transferir a propriedade do casino para a titular da licença do jogo, ou seja, para a Melco. Segundo a Studio City International, que é maioritariamente controlada pela Melco mas tem 38% do seu capital na posse de outros investidores, se a nova lei for adoptada nos termos actuais será necessário negociar “uma alteração aos termos da concessão do terreno do Studio City e cumprir e concluir vários outros procedimentos administrativos”, que exigem autorizações do Governo da RAEM.

Contudo, na conferência com os analistas, Lawrence Ho procurou minimizar potenciais preocupações sobre essa matéria. “Nunca vimos o Studio City como um casino satélite, considerando que a Melco Resorts possuía a maioria da propriedade do Studio City. E acreditamos que a revisão da lei do jogos também não vê o Studio City como um casino satélite”, ressalvando porém que, apesar de estar a ser “um processo rápido, justo e razoável”, o grupo ainda aguarda “muitos esclarecimentos do Governo” antes da aprovação do diploma na Assembleia Legislativa.

Ainda com os olhos postos no futuro, o filho de Stanley Ho asseverou que o grupo mantém-se “comprometido” com o seu programa global de investimentos. “Em Macau, continuamos os nossos esforços para concluir a construção da Fase 2 do Studio City no prazo fixado na concessão do terreno, 27 de Dezembro de 2022”, acentuou, acrescentando que o City of Dreams Mediterranean, primeiro resort integrado de Chipre, deverá ser inaugurado no segundo semestre deste ano.

Por outro lado, pela primeira vez desde Março de 2020, o City of Dreams Manila voltou a operar com “100% da capacidade”, depois do Governo das Filipinas ter aliviado, na terça-feira, as restrições para impedir a propagação da covid-19.

Conforme noticiámos ontem, a Melco Resorts encerrou as contas de 2021 com prejuízos líquidos de 811,8 milhões de dólares americanos (6,5 mil milhões de patacas ao câmbio actual), reduzindo assim as perdas sofridas no ano anterior (1,26 mil milhões de dólares). O EBITDA (resultados antes de juros, impostos, amortizações e depreciações) regressou aos ganhos (235,1 milhões de dólares), invertendo as perdas de 104,3 milhões em 2020, e as receitas operacionais cresceram 16,18% para 2,01 mil milhões de dólares, fomentadas pelo “mercado de massas e negócios não relacionados com o jogo”.

No quarto trimestre de 2021, os resultados melhoraram em vários domínios, em termos anuais, com os prejuízos líquidos a descerem 19,3% para 159,9 milhões de dólares e os ganhos no EBITDA a subirem 76% para 94 milhões. Em contrapartida, as receitas operacionais recuaram 9% para 480,6 milhões.

De acordo com a consultora Sanford C. Bernstein, a quota de mercado do jogo da Melco atingiu 16,6% entre Outubro e Dezembro, ficando aquém dos 17,1% e 17,6% garantidos no terceiro e segundo trimestres de 2021, respectivamente.