O problema da habitação, as oportunidades para os jovens e o alargamento dos benefícios para os idosos são os tópicos que dominam boa parte das expectativas da população sobre o relatório das Linhas de Acção Governativa para 2019 que será apresentado por Chui Sai On. Ouvidos pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU, alguns residentes manifestaram-se ao mesmo tempo desiludidos e sem expectativas relativamente às linhas orientadoras para o próximo ano, receando que sejam “uma cópia” de versões anteriores. Uma cidadã salientou, por outro lado, que a maior parte da população não sabe como apresentar as suas opiniões ao Executivo, além de persistirem dúvidas quanto ao tratamento das sugestões dadas em tão pouco tempo
Viviana Chan
Os mais curiosos sobre o panorama político sabem que o Chefe do Executivo já garantiu que haverá “boas notícias” no relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o próximo ano, nomeadamente em termos das medidas destinadas a assegurar o bem-estar da população. A TRIBUNA DE MACAU saiu à rua para auscultar as expectativas dos residentes sobre as LAG, tendo ouvido apelos para uma intervenção mais determinada do Executivo em áreas cruciais ligadas ao quotidiano. Na sua maioria, os inquiridos querem que seja dada prioridade a medidas ligadas à habitação, oportunidades para jovens e serviços de saúde.
Mesmo antes de saber o conteúdo das LAG, Kuan Un San já se mostrava desiludida com Chui Sai On por repetir conteúdos nestes relatórios anuais. Na sua opinião, o relatório referente a 2019 poderá ser apenas uma “cópia do anterior”, com o Governo a manter os mesmos planos do ano passado.
Kuan Un San
“Surgem novos problemas todos os dias, mas creio que não haverá soluções para eles nestas LAG. Assim, os problemas acumulam-se de um ano para outro”, lamentou.
Kuan Un San lançou ainda dúvidas sobre os canais disponibilizados para apresentação de opiniões ao Governo. “Só temos 15 dias para apresentar a nossa opinião. Duvido que o Executivo consiga absorver as opiniões da população e dar uma solução em tão pouco tempo”, frisou, salientando ainda que o Governo demora mais de um ano a analisar as opiniões recolhidas nas consultas públicas.
Para além disso, Kuan Un San criticou a falta de sensibilização existente sobre esse canais para apresentação de sugestões. “Muitos cidadãos desconhecem onde podem apresentar a opinião. Ao mesmo tempo, alguns pensam que o Governo não irá ouvi-los, por mais opiniões que apresentem, e será a mesma coisa no final. Por isso, acabam por perder a vontade de falar sobre o assunto”, advertiu.
O processo de revisão da Lei de Habitação Económica tem merecido especial atenção desta residente. “O Governo deve manter o regime de espera para as pessoas poderem ter noção de quando é que conseguem receber uma casa. E isso também serve para o Governo ficar informado de quantas pessoas precisam de casa económica”, defendeu.
Na sua opinião, mais importante do que a revisão do critério de candidatura é assegurar a oferta de terrenos. “Sem terrenos para construir habitações públicas, o problema das casas nunca chegará a ser resolvido”, disse.
Por outro lado, Kuan Un San mencionou que os trabalhos de resposta a catástrofes têm registado uma melhoria significativa, no entanto, apenas uma solução a longo prazo servirá para resolver totalmente o problema das cheias na zona do Porto Interior. Desse modo, acrescentou, também não será necessário destacar muitos funcionários públicos para lidar com as cheias.
Problemas ficam para o próximo Chefe
O jovem Chan Hou In foi mais directo: “Não tenho nenhuma expectativa, acho que as LAG não vão ser nada de especial”.
Confessando-se desiludido com o facto das políticas implementadas pelo Executivo não terem alcançado os efeitos esperados, anteviu que, sendo o último relatório das LAG que Chui Sai On vai apresentar, “não deverá
haver grandes novidades”.
“Este Governo vai deixar os problemas para o próximo Chefe do Executivo”, disse, sublinhando que “os problemas ligados à qualidade de vida agravaram-se, porque Chui Sai On não é muito competente”.
Chan Hou in
Para Chan Hou In, o problema da habitação está no topo das preocupações da nova geração de Macau. Relativamente à política lançada no início deste ano que aumentou o rácio dos empréstimos bancários para aquisição da primeira habitação para os jovens, acredita que “esta medida não tem um efeito satisfatório”. “Ademais, as medidas aplicadas contra a especulação imobiliária também não conseguiram impedir o aumento do preço das casas em Macau”, criticou.
Na sua observação, a medida de facilitação dos empréstimos bancários para os jovens conseguiu levar alguns a adquirir habitação, mas o crescimento da taxa de juros está a pressionar financeiramente quem está a pagar as casas aos bancos. Nesse contexto, Chan Hou In considera que o Governo deve ter uma visão global da administração.
Outro ponto de preocupação referido prende-se com a educação sexual, com Chan Hou In a mostrar-se frustrado por não terem ocorrido mudanças na legislação depois do movimento “Metoo”. “O tema do assédio sexual foi muito falado antes, mas agora parece estar a afastar-se do dia-a-dia das pessoas sem ser mudado nada na lei”, indicou, confessando esperar que o Governo possa lançar medidas sobre esse tema no futuro.
Relativamente à construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong–Macau, Chan Hou In também assume uma postura pessimista, por ser uma estratégia que continua a ser vaga, apesar de muito apregoada. “Há uma falta de orientação concreta neste tema. Não vejo porque é que os jovens de Macau apreciem trabalhar na China Continental, quando há uma diferença de culturas tão grande e muitos inconvenientes, como por exemplo, não terem acesso ao Facebook na China”, referiu.
Dar cheques não é suficiente
Webster Ng de 30 anos, tem uma opinião oposta a Chan Hou In. À TRIBUNA DE MACAU, considerou que as pessoas de Macau começam a ter uma “mente cada vez mais aberta” em relação à exploração de oportunidades fora do território, sendo que antigamente é que as pessoas tinham menos vontade de ir para o Interior da China.
Falando sobre as oportunidades para a nova geração, Webster Ng reconhece ainda assim que muitos jovens locais não se sentem motivados a ir para a China. “A competitividade dos jovens de Macau é baixa em comparação com os do Interior da China. Caso decidam não sair de Macau, é desejável que o Governo crie uma rede de protecção para as pessoas locais”, apontou.
Para Webster Ng, é importante que o Executivo ofereça uma plataforma para os jovens desenvolverem as suas capacidades. “Dar o cheque pecuniário não é suficiente”, indicou.
Un Hon Kuan, de 60 anos, trabalha numa instituição de serviços sociais e diz estar preocupado com os benefícios no sector da saúde, indicando que a distribuição dos vales de saúde não ajuda as pessoas. Sugerindo que os serviços médicos comparticipados tenham uma abrangência ampla, frisou que se as pessoas desfrutarem de tratamentos gratuitos “poderão fazer exames para descobrir problemas de saúde mais cedo” ou “prevenir algumas doenças graves”.
Webster Ng
Para o sexagenário, os idosos de Macau gozam de regalias satisfatórias, mas isso não é suficiente. Por isso, sugere mais benefícios para a população idosa, como por exemplo, um subsídio para deslocações nos transportes públicos. Segundo referiu, os idosos da China Continental gozam de uso gratuito dos transportes públicos e têm acesso aos parques, mas os de Macau vêem-se obrigados a pagar.
Por outro lado, Un Hon Kuan lembrou que o Governo de Macau tem muitas fracções desocupadas, que devem ser atribuídas para resolver o problema da habitação. “O Governo deve ceder estas habitações para pessoas que precisam. Deixá-las vazias, é um desperdício”, disse, sugerindo que o Executivo permita aos cidadãos alugar essas fracções, com a possibilidade de as adquirirem mais tarde.
Por sua vez, Kuan Ka Peng está mais atento à promoção de negócios na zona central de Macau, por aí ter negócios relacionados com o turismo e lazer. À TRIBUNA DE MACAU, elogiou o trabalho do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam.
Na sua análise, o Governo tem atribuído mais recursos à distribuição de turistas pelas zonas antigas, como por exemplo, Rua de Cinco de Outubro e Rua dos Ervanários. Para além disso, Kuan Ka Peng considera que a generalização do uso do telemóvel ajuda a atrair turistas para as lojas mais escondidas, ao contrário do que acontecia antigamente.
Como empregador, Kuan Ka Peng garante que, actualmente, os recursos humanos já não são a maior fonte de preocupação das pequenas empresas em Macau. “A instabilidade da economia levou-nos a pensar se devíamos contratar tanta gente, mas muitos negócios tradicionais de Macau são geridos pelas famílias e os membros destas conseguem fazer tudo. Por isso, neste momento não há crise de recursos humanos como antigamente”, afirmou.
Por outro lado, o empresário explicou que muitos trabalhadores saíram do sector de jogo quando fecharam as salas VIP, pelo que ocorreu um regresso dessa mão-de-obra para os pequenos negócios.
Kuan espera que o Governo possa ficar atento às novas mudanças do mercado de turismo, para antever e acompanhar melhor o desenvolvimento futuro.
Sessão da AL dedicada às LAG transmitida em várias frentes
O Chefe do Executivo vai estar amanhã, pelas 15:00, na Assembleia Legislativa para apresentar o relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o ano financeiro de 2019. Duas horas depois realizar-se-á a habitual conferência de imprensa na Sede do Governo, onde Chui Sai On irá responder às questões da comunicação social. Na sexta-feira, o líder do Governo regressará ao plenário, entre as 15:00 e 18:00, desta feita para responder a interpelações orais dos deputados. Estes três momentos podem ser acompanhados na íntegra através da emissão na TDM (Canal Macau, TDM Information e TDM Canal Satélite e Rádio). O público poderá também assistir à transmissão em tempo real através do portal do Governo (www.gov.mo) ou das páginas online do gabinete do Chefe do Executivo (www.gce.gov.mo), Assembleia Legislativa ou Gabinete de Comunicação Social (www.news.gov.mo). De salientar ainda que o relatório das LAG poderá ser descarregado amanhã após a reunião plenária. O debate das linhas de acção sectoriais arrancará no dia 22 com a tutela da Administração e Justiça.



