O facto de alguns enfermeiros do Hospital Kiang Wu pretenderem participar no concurso público de acesso aos Serviços de Saúde desagradou à unidade hospitalar que pediu a esses profissionais para se demitirem. Segundo a justificação do hospital privado, o objectivo é garantir a segurança dos doentes. O caso foi denunciado por Sulu Sou, que classifica como irrazoável a postura do Kiang Wu
Viviana Chan
O Hospital Kiang Wu, maior hospital privado no território, terá tentado convencer enfermeiros a demitirem-se, depois de saber que muitos deles se inscreveram nos exames para trabalhar no hospital público. O caso foi denunciado pelo deputado Sulu Sou, numa conferência de imprensa, depois de ter recebido vários pedidos de ajuda.
Sulu Sou avançou que, numa mensagem interna, o Hospital Kiang Wu advertiu que os enfermeiros interessados em realizar o exame de admissão nos Serviços de Saúde (SSM), só o poderão fazer se apresentarem a demissão. O exame está agendado para 21 de Julho.
O deputado revelou que a mesma mensagem dirigida a esses profissionais sublinha ainda que “o Governo não vai contratar enfermeiros incompetentes”.
Encarando a mensagem como uma ameaça, Sulu Sou declarou ser “normal que o hospital público pague melhor aos enfermeiros”, bem como “haver uma luta pelos recursos humanos, mas não é muito razoável que o Kiang Wu use esta estratégia para reduzir a vontade das pessoas irem para a Administração Pública”.
Segundo a publicação “All About Macau”, uma resposta do Hospital Kiang Wu confirmou que a iniciativa visava confirmar a decisão dos enfermeiros para poder antecipar os trabalhos de contratação. Além disso, o hospital privado garantiu que pretende assegurar que os trabalhadores estão focados no trabalho, evitando que distracções afectem a segurança dos doentes. A unidade hospitalar negou ter enviado a mensagem com o objectivo de obrigar os enfermeiros à demissão, funcionando sobretudo como um alerta.
Em reacção, o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, indicou que os concursos públicos, lançados pelos SSM ou outros serviços da Administração, são atractivos para os trabalhadores do sector privado, mas frisou que se trata de um “fenómeno natural no mercado laboral em Macau”, conhecido e previsto pelas empresas e instituições privadas.
Alexis Tam salientou que pretende assegurar que os residentes possam ter acesso a serviços de melhor qualidade nos centros de saúde e no Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ), estratégia em que se insere também a contratação de mais médicos e enfermeiros pelos SSM, nos últimos anos, por forma a responder às exigências da sociedade.
Em 2017, foram contratados 35 enfermeiros pelos SSM e este ano serão recrutados 48, revelou Alexis Tam.
Numa carta aberta, a Associação de Sinergia de Macau manifestou-se preocupada com a situação, indicando que, de acordo com os dados estatísticos da Associação de Beneficência do Kiang Wu, o hospital contratou um total de 774 trabalhadores não residentes, o equivalente a 40% do total.
O presidente da associação, Lam U Tou, alertou que eventuais despedimentos sem justa causa de enfermeiros locais significarão que o hospital possui mão-de-obra suficiente para sustentar o funcionamento diário. Por isso, garante que vai enviar uma carta ao Secretário para a Economia e as Finanças pedindo o corte das quotas para importação dos trabalhadores não residentes, para corresponder ao princípio de prioridade de emprego para residentes.
A queixa do grupo de enfermeiros não chegou antecipadamente ao conhecimento da deputada e antiga enfermeira-chefe do Hospital Kiang Wu, Wong Kit Cheng. Só depois de Sulu Sou divulgar as queixas é que Wong Kit Cheng fez um “post” na sua página de Facebook mostrando-se disponível para prestar apoio neste caso.



