A escrita, a paginação, a edição e a revisão são algumas das actividades a que se dedicam reclusos do Estabelecimento Prisional de Coloane. Ao participarem na elaboração da revista “Kai Pou” – que pretende “iluminar o verdadeiro sentido da vida e guiar pelo caminho certo” – encontram sensações de “identidade” e de “sucesso”
Catarina Pereira
Não se recorda de qual foi o primeiro artigo que submeteu para a “Kai Pou”, mas sabe bem – ou o diário que escreve lembra-o – que foi o sétimo que foi “finalmente seleccionado” para integrar a revista produzida pelos reclusos no Estabelecimento Prisional de Coloane. “O tema relacionava-se com ‘aprendizagem’”, recorda Kevin (nome fictício), em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.
“Os artigos que escrevo centram-se na auto-reflexão e numa atitude positiva”, acrescenta, vincando que todos os domingos entrega um novo texto – mais à frente, o técnico responsável pela produção da revista, Chiang Tat Seng, há-de dizer que Kevin é um bom exemplo.
“Iluminar o verdadeiro sentido da vida e guiar pelo caminho certo” é este o significado de “Kai Pou”, explica Chiang Tat Seng, acrescentando que a publicação oferece aos reclusos informação para aprendizagem, recreação e interacção social, bem como reflexões inspiradoras. “É produzida por reclusos que participam em formações profissionais e também reflecte em primeira mão os sentimentos dos detidos e as realidades das actividades diárias dentro da prisão”, acrescenta o responsável.
Foi através de um antigo recluso que Kevin soube da existência da revista e que podia participar na sua concepção. “Comecei a ler a revista e depois comecei a entregar textos”, conta. Além do diário, a experiência que tinha de escrita resumia-se a cartas que enviava para a mulher, para os familiares e para os advogados. Agora escreve também notas sobre pensamentos que vai tendo ou informações que considera interessantes.
Com 45 anos e algum tempo de prisão, recusa definir-se como recluso. “Considero-me um criador de conteúdos”, afirma. Escrever, diz, ajuda a melhorar a caligrafia e a estruturar o pensamento. Kevin escolhe temas que “sejam interessantes” e que “tenham uma mensagem positiva”. Além do hábito que criou e das técnicas que vai adquirindo, este criador de conteúdos sublinha que “o mais importante na escrita é a sensação de identidade”.
Normalmente, durante a semana costuma ouvir rádio e ler jornais, escrevendo depois notas sobre assuntos que lhe parecem relevantes. Ao fim-de-semana, organiza as notas e os pensamentos, seleccionando depois um artigo que lhe pareça mais adequado para submeter. Desde 24 de Outubro de 2024 que o faz.
“A evolução mais concreta que vejo é que submeto textos todos os domingos, esses artigos são provas reais que permitem medir a minha evolução”, observa. No dia em que o visitámos, contou que no domingo anterior tinha submetido o 79º texto, no qual abordou o cenário dos casos de burla e a relação com a tecnologia, bem como os métodos de prevenção.
Kevin considera que “a revista tem um impacto positivo dentro da comunidade [da prisão] porque, sempre que é publicada, os outros reclusos lêem os artigos, discutem os temas, e isso pode inspirar outros reclusos a começar a escrever”. “Como é algo real, palpável, pode ajudar os outros reclusos a perceber ‘é possível’”, vinca.
O processo de escrita é também para ele uma ferramenta imprescindível na “intenção de organizar a vida diária dentro da prisão”. “Escrever pode ajudar a planear a vida institucional dos reclusos”, acrescenta.
A revista “Kai Pou” não chega apenas às mãos dos reclusos. Pode também ser lida pelo público. Kevin diz que, desta forma, a revista “dá a conhecer à sociedade o que está a acontecer dentro da prisão e que a prisão não está só relacionada com punições, é muito mais diversificada”.
Paralelamente, crê que chama a atenção da sociedade para a necessidade de apoio aos reclusos: “Com a divulgação da revista, poderão surgir mais oportunidades, por exemplo colaborações ou apoio por parte de voluntários”.
Kevin, que foi responsável pela gestão de uma empresa estatal, professor num centro de educação para adultos e consultor de transformação digital numa start-up, conta que já conseguiu incentivar alguns colegas a escrever.
“Alguns persistiram, outros desistiram depois de submeter um ou dois artigos que não foram publicados”, recorda, sublinhando que, na sua perspectiva, vale a pena participar nessa experiência de escrita, mesmo que no fim de contas o artigo não seja publicado.
Simon (nome fictício) está há cerca de um ano a editar e paginar a revista. “No início era algo novo, que queria fazer, mas não tinha experiência nenhuma”, recorda. O mais difícil era fazer a paginação, “porque tinha de fazer tudo no computador e não estava muito familiarizado”, conta.
Por isso, para ele, esse é um dos aspectos mais relevantes deste trabalho: que os reclusos possam aprender a trabalhar com tecnologia que no exterior é muito mais comum.
Apontando que “precisava de muita ajuda dos instrutores”, Simon acrescenta que, olhando para trás, considera que tem vindo a evoluir. “Às vezes, há novos reclusos que se candidatam para o trabalho, por isso, tentamos ser activos e ajudamo-nos uns aos outros”, prossegue.
“Uma das coisas de que mais gosto [neste trabalho] tem a ver com a sensação de sucesso. Recolhemos a informação, organizamos, classificamos, editamos e sintetizamos para que se torne uma revista completa. Gosto desta atitude rigorosa da revisão”, observa.
Antes de integrar a equipa, Simon limitava-se a ler “revistas cor-de-rosa”. “Lia-as de forma muito superficial e não prestava muita atenção”, conta. Fazer parte da equipa da “Kai Pou” ajudou-o a “colmatar muitas lacunas no conhecimento”, nas áreas jurídica ou de acção social, por exemplo, além dos aspectos mais técnicos como a paginação ou a edição. Diz também que começou a estar mais atento a palavras que muitas vezes se escrevem de forma incorrecta.
“É positivo que todos tenhamos um objectivo comum. Através deste trabalho, sinto que estou mais próximo dos outros reclusos e dos funcionários, damo-nos melhor”, observa.
Jimmy é o último recluso que entrevistamos. Entra na sala a pedir para não fazer a entrevista em mandarim, a sua língua materna. Quer treinar a língua à qual se tem dedicado desde que entrou no Estabelecimento Prisional: o inglês.
“Antes falava zero. Estou a aprender inglês na prisão há quase três anos”, explica, acrescentando que é do Interior da China. Assim que entrou no estabelecimento, definiu uma estratégia: “No ambiente prisional há alguns estrangeiros, por isso agarrei a oportunidade, pergunto a toda a gente se podemos falar inglês e falo. Decidi dedicar-me a este plano de aprender e mudar o meu comportamento”.
Quanto à revista, soube que existia na zona de descanso da prisão, onde costumam estar pousadas. “Escrevo para expressar a minha opinião, para falar sobre o que decidi mudar…”, diz.
O processo de “repetir e repetir” ajuda-o a melhorar a escrita. “Não tinha experiência nenhuma, não tinha estudos. Aqui leio muitos livros, é bom para a memória. Por isso, melhorei a minha capacidade de escrita durante este processo, sinto que estou muito melhor”, observa.
O primeiro artigo seu que foi publicado na revista surgiu no âmbito de um concurso de escrita. “Ganhei dinheiro e tudo”, conta, sorrindo.
Jimmy está não só empenhado na escrita para a revista e na aprendizagem do inglês, como também trabalha na padaria. “Antes, só comia pão, agora posso fazer o meu próprio pão”, afirma, dando uma gargalhada.
“O meu comportamento é totalmente diferente de antes. Tento sempre adoptar uma atitude positiva e aproveitar o tempo dentro da prisão, porque a verdade é que há muitas oportunidades de aprendizagem”, considera.
A evolução da revista
Cheang Choi Hong é editora-chefe da “Kai Pou”. Ingressou em 1998 na Direcção dos Serviços Correccionais e ficou encarregada de relançar a revista, depois de um hiato de dois anos por falta de recursos humanos, devido à saída de muitos colegas portugueses. Em Novembro de 1999, um mês antes da transferência da administração de Macau de Portugal para a China, saiu aquela que seria a primeira edição da revista da prisão ao seu comando, nessa altura já com cor, ao contrário do que acontecia anteriormente.
“Desde que foi relançada em 1999, a revista passou a ter mais cor e, a partir de 2023, passou a ter uma versão em inglês” para chegar a um público mais vasto, explicou Cheang Choi Hong em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. A revista produzida no Estabelecimento Prisional começou por ser publicada apenas dentro de portas, mas foi também quando Cheang tomou as rédeas da publicação que passou a estar disponível para a sociedade.
Agora, o público pode folheá-la e ler os artigos dos reclusos nas bibliotecas públicas ou então online, através da página dos Serviços Correccionais.
“Espero que a revista possa ajudar os reclusos a concretizar a educação através da cultura e também a que não se sintam tão isolados, expressando os seus pensamentos e auto-reflexões através dos artigos submetidos”, afirmou a mesma responsável, que é também chefia funcional do Grupo de Educação e Formação. Além disso, frisou, a “Kai Pou” tem igualmente “um papel importante” na informação que chega aos reclusos.
A este jornal, contou que muitos ex-reclusos, depois de saírem em liberdade escrevem cartas para o Estabelecimento Prisional “a dizer que a revista os ajudou muito”. Em particular, Cheang Choi Hong falou de um recluso que trabalhou na revista, numa altura em que não havia internet e as informações eram muito limitadas.
“Participou na produção e no final conseguimos montar a revista, e ele sentiu uma sensação de realização. Com o projecto concluído, quis enviar a revista para a mãe”, contou. E, mesmo depois de ter saído em liberdade, contactou a DSC para pedir essa mesma edição da revista “para guardar como recordação, mesmo tendo em conta que os nomes com que assinam são fictícios”.
Além de esperar que a revista possa oferecer novas competências aos reclusos – como a escrita, a revisão, a paginação ou design gráfico -, que podem ser utilizadas quando saírem da prisão, a responsável espera também que os leitores, sejam os que estão atrás das grades ou outros, percebam que “a vida institucional não está relacionada apenas com punição, mas também com educação, aconselhamento psicológico, formação, serviço social”, enumerou Cheang Choi Hong.
Um “impacto positivo”
Chiang Tat Seng, por seu turno, trata da paginação, do design, da impressão e da produção da revista, além de ser responsável por convidar algumas pessoas a escreverem artigos para a revista e pela organização de documentos, revisão dos artigos, entre outros. A este jornal explica que todos os reclusos podem submeter artigos, sendo que a maioria os escreve em chinês, havendo alguns que o fazem em inglês.
“Normalmente, na última edição de cada revista publicamos o tema da próxima edição, portanto, a partir daí, os reclusos podem escrever os artigos e submetê-los”, clarificou, acrescentando que depois passam por um processo de selecção e, por fim, de publicação. Segundo Cheang Choi Hong, os artigos finais apresentam sempre algumas diferenças, com os responsáveis a considerarem que os reclusos podem, assim, aprender através da leitura das duas versões.
O recluso Kevin mencionou que todos os domingos submete artigos escritos – “um exemplo muito bom”, segundo frisou Chiang Tat Seng, mas nem todos o fazem. “Alguns reclusos só submetem um artigo de dois em dois anos, por exemplo”.
Nem todos os artigos são publicados – afinal há apenas duas edições da revista por ano -, mas esse também não é o principal objectivo. “Esse hábito de escrever tem um impacto positivo, a ideia da ‘Kai Pou’ é cultivar a leitura dentro da prisão. E, através da revista, os reclusos podem ler os artigos escritos pelos colegas ou pelos serviços”, continuou.
Cheang Choi Hong observa os reclusos antes e depois de começarem a produzir conteúdos para a revista ou a ajudar na produção. Diz que há diferenças na forma como se comportam. “Por exemplo, alguns reclusos antes conversavam principalmente sobre casinos e outros temas ‘pouco saudáveis’, mas depois de começarem a escrever artigos passaram a ter contacto com temáticas da reabilitação e outras áreas, e os temas de conversa começaram a mudar para assuntos mais positivos”, exemplificou, acrescentando que aperfeiçoam também a caligrafia.
Questionado sobre se há exercícios conjuntos de escrita, o consultor técnico disse que não. “Mas os reclusos têm uma biblioteca, há muitos livros de referência nas áreas da escrita e literatura, portanto podem ler e melhorar a escrita”, disse, acrescentando: “E organizamos também concursos de escrita, com os artigos vencedores a serem publicados na revista”.
Os temas dos concursos de escrita não fogem muito ao habitual, centram-se na reabilitação. “Temos professores de língua chinesa que ensinam aos reclusos técnicas de escrita e de expressão. Assim podem melhorar”, disse. Depois, vincou: “Normalmente, os reclusos que escrevem têm um nível de educação relativamente alto, portanto, os artigos também têm uma certa qualidade”, podendo assim aproveitar os concursos de escrita para “expressarem os seus pensamentos”.
Workshop para publicação da revista só chega à ala masculina
Ainda que homens e mulheres tenham “as mesmas oportunidades” no que respeita à escrita de artigos para a “Kai Pou”, a verdade é que o processo de produção e publicação da revista, que acontece através de um workshop com 12 vagas, só chega à ala masculina. A Direcção dos Serviços Correccionais (DSC) explicou que os materiais e tecnologias para a publicação encontram-se na zona dos homens, pelo que as mulheres não podem participar. Quanto à submissão de artigos, podem fazê-la, com a revista a chegar também à ala feminina para leitura das reclusas. Segundo as informações da DSC, para cada quatro artigos submetidos por homens, há um submetido pelas mulheres.







