O professor e autor José Manuel Simões lança na sexta-feira a sua décima obra, “O Sétimo Sentido” que marca um distanciamento em relação a si próprio como escritor por, pela primeira vez, escrever uma protagonista no feminino. Para dar corpo à história de Glória Meireles, médica que vai de Frankfurt à Índia e a Moçambique, o autor esteve também na Índia e em Moçambique

 

Inês Almeida

 

A Creative Macau recebe, na sexta-feira, pelas 18:00, o lançamento do décimo livro de José Manuel Simões, “O Sétimo Sentido”, que marca a estreia do autor no campo da escrita no feminino. Ao seu lado na mesa da cerimónia de lançamento estarão Maria Rouco, contadora de histórias, Mário Gandra, professor e artista plástico, António Neves, médico, e Bruno Camacho da Côrte, terapeuta da fala.

“É a primeira vez que escrevo no feminino. A personagem central é Glória Meireles, médica, que se formou em Portugal, que depois vai trabalhar num hospital em Frankfurt, na Alemanha, devido a dois factos que acabam por despoletar a acção do livro”, explicou em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

A primeira situação que leva a todo o enredo da obra é a morte de Ophélia, uma menina de quatro anos que sofria de leucemia e de quem a médica “gostava particularmente”. “Ela estava a tentar todos os meios para adiar essa morte, mas um dia, quando [Ophélia] tinha quatro anos, faleceu nos braços dela [Glória], mas, curiosamente, faleceu com um sorriso nos lábios, uma serenidade, uma leveza e ela interroga-se porque há pessoas que morrem com um peso enorme, com dor e agonia, e outras como Ophélia”, continuou José Manuel Simões.

A este episódio junta-se a traição do namorado. “Dois dias depois da morte da Ophélia ela chega a casa e o namorado está com outra mulher alemã. Ela fica muito abalada com isso, sai de casa, não fala. Aliás, ela é uma pessoa de muitos e profundos silêncios, e decide ir para a Índia”. É lá que decorre o primeiro capítulo da história. “É uma viagem muito sofrida, dolorosa. Ela depara-se com coisas que a chocam, nomeadamente a insalubridade e todo aquele contexto, aos olhos dela, extremamente pesado”.

Numa fase posterior da história, a personagem principal decidiu ir para Moçambique, para Chai-chai. “Ela vai colocar a profissão ao serviço das crianças, sobretudo pacientes de SIDA, e coloca a vida dela e a profissão ao serviço dessas pessoas em Chai-Chai”.

Para escrever as vivências da personagem em ambos os locais, o também coordenador do Departamento de Comunicação e Media da Universidade de São José fez “uma pesquisa exaustiva” e viajou. “Fiz uma viagem pela Índia para dar substância à viagem da personagem e passei um tempo no hospital em Chai-chai a investigar, a conversar com os médicos, com o director do hospital, para dar corpo à personagem”.

A escolha dos locais teve motivações diferentes. Uma foi pensada em antemão, a outra, acabou por ser uma mera coincidência. “A Índia porque, para muita gente, é um espaço onde ainda existe uma grande espiritualidade, muita gente tem essa ideia. De facto, também fui, de alguma forma, procurar essa espiritualidade para fornecer dados à Glória, mas não a encontrei, confesso. Pelo contrário, encontrei aspectos quase dramáticos”.

Chai-chai acabou por se tratar de uma “grande coincidência”. “Percebi que a Glória ia para Chai-chai quando recebo um convite de um Festival Literário de Chai-chai para ir representar Macau”. Assim, durante a noite José Manuel Simões participava nos eventos do festival literário, porém, durante o dia, frequentava clínicas e hospitais para fazer investigação que permitisse conferir alguma substância à vida de Glória Meireles.

Este festival literário está contemplado na obra de um modo algo caricato. “Um aspecto engraçado é a Glória a interagir com o José Manuel Simões. Ela vai ao festival literário e encontra-se com um autor, ele apaixona-se profundamente por ela, porque ela é uma pessoa maravilhosa, e apanha uma grande tampa”.

 

Novos desafios

A decisão de escrever no feminino pela primeira vez teve a ver com uma tentativa de alcançar um novo patamar de sucesso. “Um amigo que vai estar na mesa a lançar o livro, Bruno Camacho da Côrte, que é terapeuta da fala, perguntou-me exactamente porque escrevi no feminino. Eu disse que acho que tive algum protagonismo e sucesso enquanto jornalista de cultura, depois academicamente sou também uma pessoa bem-sucedida, mas enquanto escritor, pese embora este ser já o meu décimo livro, nunca atingi um patamar de sucesso e acho que isso se deve também ao facto de ter escrito biografias, muito focadas na pessoa com quem estava a trabalhar e depois noutros livros há uma componente auto-biográfica”.

Pelo contrário, em “O Sétimo Sentido”, José Manuel Simões quis distanciar-se “completamente” de si próprio, das experiências e ideias. Então, escrever no feminino e na primeira pessoa afigurou-se a melhor opção.

A escolha do título “O Sétimo Sentido” está, de resto, também intimamente ligada com quem é a personagem principal desta obra. Na história, Glória Meireles “primeiro usa muito os cinco sentidos, descrevendo-os de uma forma muito pormenorizada, mas depois tem uma intuição tremenda, um sexto sentido”, indicou à TRIBUNA DE MACAU. “Às tantas, no acto da medicina, ela descobre o sétimo sentido, que é uma espécie de fé, é algo que vai além de nós, mas que no fundo ela consegue incorporar, viver e passar aos outros”.

Este sétimo sentido está também ligado “a um lado holístico da medicina” praticada pela personagem principal no sentido em que no exercício das suas funções no dia-a-dia “usa coisas das curandeiras de Chai-chai, homeopatia”. No fundo, “sai da medicina tradicional quando é preciso”.