Os académicos Sao U. Chan e Luís Miguel dos Santos defendem legislação para regular as actividades de jogo praticadas socialmente, entre amigos e família, sobretudo por forma a evitar e prevenir que as gerações mais novas enveredem pelo caminho obscuro do vício do jogo. Num estudo consultado pela TRIBUNA DE MACAU, os académicos apontam a influência familiar, a intrusão dos casinos nos espaços residenciais e o “jogo social” como três factores-chave para alimentar o vício
Catarina Almeida
Com apenas 15 anos, Alan evidenciava elevados riscos de vir a contrair o vício do jogo, muito em parte devido aos “comportamentos de jogo dos pais”. Tanto a mãe como o pai trabalhavam já nessa altura em casinos, por isso, o ambiente de apostas e lotarias ocupou desde cedo uma parte significativa da sua vida. “O meu pai foi ‘croupier’ a partir de 1990 e desde então praticava e explicava em casa determinados jogos. Às vezes até pedia aos meus irmãos e a mim para jogarmos com ele para treinar. Agíamos como se fossemos clientes e o meu pai era o ‘croupier’. Esta foi a minha primeira interacção com o jogo de casino”, disse Alan, que tem agora cerca de 30 anos.
À semelhança de Alan, Benson e Catherine estavam inseridos num contexto social e familiar altamente potenciador e de risco em termos de vício do jogo. Os três foram inquiridos pelos académicos Sao U. Chan e Luís Miguel dos Santos no âmbito do Estudo sobre os “Comportamentos do Jogo Patológico em Macau: Abordagem Teórica Sociocognitiva”.
Nesta investigação, que não está associada a qualquer instituição, são lançados alertas e sugestões sobre a necessidade do Governo – incluindo departamentos, legisladores e serviços de assuntos sociais – avançar com medidas de reorganização do planeamento urbanístico, mapas curriculares educativos, políticas sociais e leis que “concedam mais e melhor protecção às novas gerações perante actividades e comportamentos associados ao jogo”. Isto porque, com base nos três testemunhos, a simples observação dos comportamentos de outros – sobretudo de jogadores – suscitará muito provavelmente o interesse numa fase precoce do crescimento.
Para os autores deste estudo consultado pela TRIBUNA DE MACAU tal cenário deve-se a três factores, nomeadamente a família. “Os pais dos três inquiridos trabalham [ou trabalhavam] em casinos ou locais relacionados e, como costumavam partilhar práticas e técnicas de jogo, os inquiridos acabaram por entender o modo de funcionamento e a crescer nesse ambiente que acabou por motivar o desenvolvimento de hábitos e conhecimentos sobre o jogo e como fazer dinheiro nos casinos”, observam.
Aliás, no caso de Catherine, os pais trabalham na indústria do jogo desde que se lembra de ser gente. “Além disso, muitos tios e tias são ‘croupiers’ ou supervisores nesses locais – o que não é incomum para Macau. Uma vez que muitos amigos de famílias e relativos trabalham nos casinos, as nossas discussões familiares e expectativas vão sempre abordar a questão do jogo e dinheiro”, contou Catherine, de 25 anos, aos académicos.
Não fosse já o jogo um tema bastante presente dentro de casa e em encontros familiares, Catherine viu-se encorajada pelos próprios pais a manter um contacto mais próximo com a indústria mal finalizou o ensino secundário. “Sendo a filha mais velha tinha chegado a altura de ser independente também para aliviar a pressão financeira que estava a impor à minha família, pelo que decidi trabalhar como ‘croupier’ mal terminei o ensino secundário”, explicou.
A mesma narrativa é contada por Benson, de 28 anos, que decidiu enveredar por esse percurso profissional logo após o secundário depois de ter percebido “a quantidade de dinheiro que os meus tios conseguiam ganhar através do jogo”. “Percebi que não iria auferir sequer metade do salário de um croupier se optasse por trabalhar em instituições bancárias”, acrescentou.
No final do ano passado, a remuneração média – excluindo as participações nos lucros e os prémios – dos trabalhadores a tempo inteiro do sector das lotarias e outros jogos de aposta situava-se em 22.940 patacas (mais 4,3% em termos anuais). Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos indicam ainda que o salário médio dos “croupiers” cifrou-se em 19.850 patacas, uma subida de 5,4%.
O jogo mesmo “ali ao lado”
Ao contrário de outras cidades internacionais, Macau é “extraordinariamente pequeno e apertado”. Por outras palavras, “a localização dos casinos e das zonas residenciais interagem uma com a outra e, por isso, os residentes – incluindo estudantes e criança – têm fácil acesso a casinos e centros de jogo dentro da sua zona de habitação motivando hábitos e interesses pelo jogo no caminho para a escola”, entendem os académicos que encontraram na história de Alan uma explicação prática.
“Dentro da minha zona de residência há quatro casinos, dois ou três são centros de jogo e um é clube de dança. À noite conseguia ver todos aqueles edifícios iluminados e ouvir os visitantes/turistas a falarem sobre jogo enquanto passeavam. Enquanto fui crescendo dentro desse ambiente, a minha curiosidade e vontade de entrar nesses espaços foi crescendo”, relatou Alan.
Por sua vez, Catherine vive mesmo em frente a um centro de apostas desportivas pelo que, diariamente, cruzava-se com “mais de 50 apostadores que ficam ali à porta durante 24 horas”. “Consigo ouvi-los a falar sobre as apostas que fizeram em jogos disputados por equipas da Inglaterra, Argentina e Portugal. É uma realidade que conheço desde pequena, até porque o meu pai também é apostador desportivo e às vezes levava-me com quando ia apostar. Claro que ficava à porta porque não podia entrar – tinha menos de 21 anos – mas ainda assim conseguia pelo menos ficar a perceber a natureza do jogo e daquelas apostas”.
No caso de Benson, tanto a escola como a casa estão situadas mesmo em frente a um casino. A instituição de ensino sempre tentou encaminhar os alunos para a direcção certa, porém, “depois de concluirmos o ensino secundário e atingirmos 18 anos todos os meus colegas de turma quiseram logo conhecer os ambientes do casino inclusive vestidos com o uniforme da escola”, recordou.
Estes relatos contextualizam, de facto, a intrusão destes estabelecimentos ligados ao jogo no dia-a-dia dos residentes de Macau. “Poderá existir um elevado risco dos não-jogadores e menores de idade começarem a interagir e a comportarem-se apenas a partir daquilo que observam diariamente. Como o jogo está altamente envolvido no dia-a-dia dos residentes, não é difícil de acreditar que estes comportamentos patológicos possam surgir com base nas observações de outros”, consideram.
Por outro lado, os três inquiridos expressaram que o hábito de jogar socialmente com amigos e colegas de turma “não é incomum em Macau uma vez que a maioria das pessoas pode jogar com amigos”. No caso de Benson, por exemplo, a primeira interacção com o Mahjong foi com os colegas, depois da escola, durante o ensino básico. “Vários colegas de turma sempre jogaram Mahjong e póquer depois do horário escolar, quase todos os dia, sem parar. No primeiro mês, não jogávamos a dinheiro mas, eventualmente, isso começou a acontecer”, admitiu. Catherine também começou a jogar em tenra idade, com amigos e até os seus pais, pois não viam “nada de errado” nessa prática.
Para os académicos pesa também muito o facto do “jogo social não ser regulado por nenhuma lei, regulamento ou políticas”. “Ao contrário dos jogos de casino, o Blackjack, Mahjong, póquer e jogos de dados são práticas comuns no dia-a-dia da sociedade chinesa. Como a maioria das famílias chinesas não desencoraja os filhos menores a praticar esses jogos depois da escola, algumas pessoas podem começar a envolver-se nos jogos de fortuna e azar ainda durante a adolescência ou início da fase adulta”, apontam.
Por isso, “como vários indivíduos podem observar tais comportamentos numa fase precoce começam a perceber as técnicas do jogo e, eventualmente, tornar isso numa prática comum e diária”, advertem.



