A consultora de risco de Steve Vickers considera que o sector do jogo em Macau está “altamente exposto” ao impacto da “guerra” comercial entre os EUA e a China. Os especialistas consideram que a queda do valor do yuan poderá ser outro factor penalizador para os casinos e que as operadoras de jogo norte-americanas encontram-se numa “falha geopolítica” que coloca em risco as concessões

 

Liane Ferreira

 

A “Guerra Comercial EUA-China, vencedores e perdedores” é o título de um relatório de avaliação provisório da consultora de risco “Steve Vickers & Associates”, que coloca o jogo em Macau no topo da lista dos sectores possivelmente mais afectados pela disputa entre as duas maiores economias do mundo.

“O sector do jogo em Macau está altamente exposto. Qualquer abrandamento significativo ou queda do valor do yuan poderá levar Pequim a restringir ainda mais o fluxo de capitais para fora do país, diminuindo as receitas dos casinos”, alerta a empresa especialista em mitigação de riscos e inteligência corporativa que foi criada por Steve Vickers, ex-director do Gabinete de Inteligência Criminal de Hong Kong.

Recordando que “três da seis concessionárias de jogo em Macau são americanas, nomeadamente a Las Vegas Sands, a MGM e a Wynn Resorts”, a consultora nota que “estas companhias estão agora numa falha geopolítica e as concessões podem estar em risco”.

Além disso, o relatório enviado à TRIBUNA DE MACAU pela consultora salienta que o fundador da Las Vegas Sands, Sheldon Adelson, “tem fortes laços” com o Presidente norte-americano Donald Trump. Prova disso é o facto de Adelson, que sempre deu prioridade a assuntos ligados a Israel nos seus cálculos políticos, doou 25 milhões de dólares para a campanha de Trump e mais cinco milhões para o fundo inaugural do sucessor de Barack Obama.

No início deste ano, Macau também constou do relatório de análise de risco da mesma consultora para 2018, com o documento a referir que, apesar dos recentes esforços para melhorar a capacidade de actuação e prevenção, os casinos locais continuam “vulneráveis” a ataques terroristas.

No relatório “Avaliação de Risco na Ásia”, a “Steve Vickers & Associates” sustentou ainda que “o envolvimento das tríades e sociedades de crime organizado no sector do jogo não mostra sinais de diminuição – antes pelo contrário, está institucionalizado”.

 

Riscos transversais na economia

Para além do jogo, os sectores da electrónica e da tecnologia são outros potenciais alvos da “guerra” comercial, no entanto, já sem afectar directamente a RAEM. No primeiro caso, a empresa taiwanesa Foxconn poderá enfrentar grandes desafios, embora empresas japonesas e sul-coreanas com fábricas na Tailândia e Vietname possam sair beneficiadas, considera a consultora.

No caso da tecnologia, a “Steve Vickers & Associates” destacou que o valor das aquisições chinesas junto de empresas de tecnologia americanas já diminuiu de 15 mil milhões de dólares em 2015 para 13 mil milhões em 2017, e prevêem-se mais quedas. Serviços, bens de consumo, agricultura, transportes marítimos são outros dos sectores que também enfrentam riscos notáveis.

O início da “guerra” comercial aconteceu na sexta-feira, com os EUA a avançarem com a imposição de taxas de 25% no aço, 10% no alumínio e 25% em produtos chineses, avaliados em 34 mil milhões de dólares americanos. As tarifas aplicadas nos produtos devem ser de 200 mil milhões ou mais, diz a consultora.

Em retaliação, o Governo chinês impôs tarifas sobre frutas, carne de porco, soja, alumínio e canos de aço americanos. “Um novo agravamento parece inevitável, pois as tensões estão a intensificar-se”, lê-se no documento.

Os investimentos também podem estar em risco porque Washington planeia limitar o investimento chinês em empresas de alta tecnologia.

Sobre o modo de mitigar os riscos, a empresa de Steve Vickers indica que ainda é incerto e tudo depende do tempo que o conflito vai durar e até que ponto chega. Assim, sugere às empresas que se preparem para o aumento de preços e para colocar fundos de parte, por exemplo.

Além disso, insta as companhias a examinar o nível de exposição às mudanças nos fluxos comerciais, principais fornecedores e clientes, bem como devem testar as cadeias de fornecimento para identificar possíveis fraquezas.