Wilson Hon Wai acredita que o consumo de heroína está controlado
Wilson Hon Wai acredita que o consumo de heroína está controlado

Em Macau não há novos casos de infecção pelo vírus do HIV com origem na troca de seringas usadas para injectar heroína. O Instituto de Acção Social defende que é o resultado do tratamento com metadona e do programa de troca de agulhas

 

Salomé Fernandes

 

Não houve novos casos de transmissão de Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) devido à partilha de seringas em 2016, situação que se mantém este ano. Wilson Hon Wai, vice-presidente do Instituto de Acção Social (IAS), considera que o consumo de heroína está controlado mas que não se pode baixar os braços.

“Tanto os casos de contaminação estão a decrescer, como o consumo de heroína está a seguir a mesma tendência. Como os consumidores de heroína estão estáveis através do recurso ao nosso programa de metadona, que é fornecida gratuitamente, há menos dinheiro a seguir para os traficantes de droga”, indicou Wilson Hon Wai, à margem da 27ª conferência da Federação Internacional de Organizações Não-Governamentais para a Prevenção de Drogas e Abuso de Substâncias.

Apesar de os casos de “ice” serem agora os mais preocupantes, o responsável do IAS salientou a necessidade de controlar a infecção por partilha de seringas para consumo de heroína, de modo a impedir que se alastre o uso de ambas as substâncias. Em 2004 a taxa de pessoas infectadas por essa via era de 66%.

O vice-presidente do IAS indicou que o período mais difícil de combate à heroína foi em 2010, aquando da expansão dos centros de metadona, porque a política de “garantir acesso a todos os consumidores de heroína perto das suas residências” levantou críticas. No entanto, Wilson Hon Wai acredita que as estatísticas do Centro de Controlo de Doenças são um reflexo desse trabalho e da política de reciclagem de seringas, para que ninguém recorra a material de consumo já usado. No entanto, alertou que “ter a situação controlada não significa que não possa voltar a acontecer”.

Quanto ao quadro legal, garantiu que o IAS “está em contacto com a polícia e se as pessoas estiverem no processo de procurar ajuda não são presas, por causa da confidencialidade dos assistentes sociais e dos médicos”. Uma situação que só não se aplica a quem esteja “a traficar, a vender ou contenha grandes quantidades consigo”.

O apoio direccionado a adolescentes funciona de forma diferente, com uma equipa que tem assistentes sociais e uma abordagem diferente da dos centros de tratamentos. “O primeiro contacto não é para os convencer a deixar a droga. Tentam que eles saibam que se tiverem problemas podem contactar os serviços de acção social sem serem julgados”, descreveu.

Para além disso, o IAS desenvolveu uma aplicação de telemóvel dirigida aos pais. A “app”, destinada a maiores de 16 anos, já teve mais de 100 transferências. Está em cantonês, mas é intitulada de “know drugs”, e a sua descrição indica ter por objectivo fornecer dados recentes sobre as vias de procura de ajuda para toxicodependentes e familiares, bem como reforçar a consciência dos jovens e dos pais sobre o perigo das drogas.

Dada a introdução de novas drogas no mercado, Wilson Hon Wai entende que é “preciso educar os médicos porque as drogas sintéticas novas não apareciam nos livros e é preciso que conheçam os sintomas”. Para isso, são realizados programas de formação, que atraem anualmente “cerca de 2000 profissionais”, incluindo diversos profissionais de saúde e a própria polícia.

Apontou como exemplo os problemas de bexiga e infecções do tracto urinário por parte de quem abusou de “ketamina”. “É preciso os médicos verem que essas situações podem estar ligadas a droga, peçam às pessoas para parar e consultar os serviços de acção social”. A identificação do risco de toxicodependência por parte dos médicos leva a que o IAS colabore também com profissionais do sector privado.