O impacto do “nascimento” do Venetian Macau, há 10 anos, é visto com bons olhos por alguns analistas do território, embora também haja quem defenda que alguns aspectos podiam ter sido melhorados. Penny Wan, do Instituto de Formação Turística, e Anthony Wong, da Universidade Cidade de Macau, destacam a importância da experiência oferecida aos clientes do imponente resort. Já Jorge Godinho e José Maneiras destacam o “marco histórico” de ter sido um importante ponto de partida do desenvolvimento do COTAI

 

Inês Almeida

 

A 28 de Agosto de 2007, a “visão” de Sheldon Adelson, presidente do grupo Las Vegas Sands, começou a ganhar forma com a abertura do Venetian Macau, primeira peça do grande “puzzle” que idealizou: a “strip” do COTAI. Com o mega empreendimento nascia assim uma nova era da indústria do jogo e dos resorts integrados em Macau, cujo 10º aniversário a empresa vai assinalar hoje, depois de ter decidido adiar as comemorações devido ao grande impacto que o tufão “Hato” teve no território.

O “resort”, que inclui 2.841 quartos e 64 suites, está actualmente a ser renovado, no âmbito de um projecto que arrancou no ano passado e vai ser concluído antes do próximo Novo Ano Lunar.

Informações enviadas pela Sands China ao Jornal TRIBUNA DE MACAU referem que as áreas do retalho e restauração no Venetian cobrem aproximadamente 918.000 de pés quadrados, consistindo em mais de 350 lojas e 50 restaurantes.

Analistas ouvidos pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU têm diferentes visões sobre o principal empreendimento da Sands China no território, porém, há algo com que todos concordam: o seu impacto na economia e na vida de Macau foi significativo.

“Antes da abertura do Venetian, a indústria do jogo de Macau desenvolvia-se em torno de casinos e hotéis, muito frequentemente separados. O Venetian, porém, introduziu e elaborou o modelo dos resorts integrados de Las Vegas que oferece um centro de entretenimento único com o casino como parte fulcral do desenvolvimento do negócio com o objectivo de atrair tanto jogadores como não-jogadores”, frisou Penny Wan, em declarações a este jornal.

Para a académica do Instituto de Formação Turística (IFT), os restaurantes, as decorações “caras e impressionantes” e as várias infra-estruturas de entretenimento e compras permitem que os clientes tenham acesso a todo o tipo de serviços. Assim, “o Venetian enfatiza a importância de criar uma experiência inesquecível e memorável para os clientes” e é “muito bem-sucedido” nessa estratégia, pois compreende que os clientes “estão a tornar-se mais sofisticados e exigentes, tendendo a procurar experiências que vão além das funções básicas mas que satisfazem as suas necessidades emocionais e estéticas”.

“Os clientes de hoje procuram experiências extraordinárias e memoráveis com as quais se possam relacionar, que os toquem no coração e entusiasmem a sua mente, permitindo-lhes imergir em fantasias e diversão”, aponta a docente.

Penny Wan destaca também a estética que se foca num tema único e na “bonita e impressionante arquitectura”, além do ambiente espaçoso. Há ainda a vertente “de escape” como o “céu azul” pintado sobre a zona das lojas e alguns restaurantes.

Além disso, a académica salienta que todas estas experiências não são usufruídas apenas pelos turistas mas também pelos residentes. “É um bom lugar para as famílias e os indivíduos passarem um dia a fazer compras, ver espectáculos e comer. O Venetian também trouxe mais entretenimento e lazer para os residentes”.

Por outro lado, ressalva a docente do IFT, tudo isso tem também um lado negativo. “Com um desenvolvimento tão grande, a criação do Venetian levou a vários problemas relacionados com os recursos humanos, incluindo uma falta de mão-de-obra aguda e a influência de trabalhadores estrangeiros levou a alterações nas oportunidades de promoção dos trabalhadores locais dentro dos resorts integrados e a conflitos entre locais e estrangeiros”.

 

Um marco na diversificação

Para Jorge Godinho “o Venetian foi uma forte aposta, um investimento visionário e um importante na história recente – pós-2001 – do jogo em Macau”. “Foi o ponto de arranque do COTAI e parte fundamental de uma expansão sem precedentes da exploração dos jogos de fortuna ou azar”, frisou o professor da Universidade de Macau numa resposta ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“Poder-se-á dizer que, em termos geográficos, é o “centro” do COTAI e que os projectos das outras subconcessionárias foram construídos à sua volta. Com a sua abertura dissiparam-se, de vez, quaisquer dúvidas sobre o futuro do COTAI que ainda existissem”, sublinhou.

Jorge Godinho destaca que “o Venetian tem muito mais para além de jogos de fortuna ou azar”. “O projecto diversificou a sua oferta, o que foi conseguido pelas galerias comerciais, restauração e sobretudo com um centro de convenções de enorme capacidade e sucesso”.

No campo dos espectáculos, admite que “não terão vingado como pretendido, mas tal deve-se às preferências dos turistas que não é possível alterar de um dia para outro”. “Em todo o caso, já foram muitos os espectáculos e concertos”, disse, recordando particularmente o concerto dos “Rolling Stones”.

De um modo geral, acredita Jorge Godinho, “o Venetian e, depois dele, o Marina Bay Sands de Singapura, contribuíram para uma alteração da percepção do público e dos decisores políticos na região da Ásia-Pacífico sobre esta indústria, que passou a ser mais favorável e são o modelo que muitas outras jurisdições estão agora a tentar copiar”.

Anthony Wong, da Universidade Cidade de Macau, é mais conciso mas destaca: o Venetian trouxe infra-estruturas de topo, seja ao nível da hotelaria, do sector MICE, dos transportes, entretenimento, compras e turismo. O académico considera ainda que o complexo é “uma imagem icónica de um destino de jogo” e possibilita uma experiência com traços americanos e europeus.

 

O lado negativo da “primeira azeitona”

De uma perspectiva do desenvolvimento urbano, José Maneiras aponta: “Aquela foi a primeira azeitona a sair do frasco e que fez o crescimento de Macau, com o seu lado positivo e negativo”. Se, por um lado, encheu os cofres do Executivo, também trouxe o lado negativo do “planeamento, da arquitectura kitsch, megalómana”. “Las Vegas aconteceu no meio do deserto, não fazia mal a ninguém aquela cidade artificial, mas aqui transportaram Las Vegas por imitação e perdeu-se uma oportunidade de fazer uma coisa boa em termos de arquitectura”.

Se em Singapura “todas as partes beneficiam” do desenvolvimento do jogo, em Macau isso não acontece. Entre as consequências negativas está a questão do espaço. “Foi muito muito espaço desperdiçado. É difícil encontrar terrenos para habitação social porque os casinos são lotes enormes. O Governo tem muito dinheiro mas não tem imaginação para o aplicar para bom fim”, critica o arquitecto.

Além disso, o jogo trouxe “depois especulação imobiliária e todas essas coisas”. “Desapareceram as indústrias tradicionais, as lojas. Só vemos ourivesarias e perfumarias. Aquela vida que era de Macau perdeu-se”, lamentou José Maneiras.