Na hora da despedida, Carlos André, coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau (IPM) confessa-se “francamente satisfeito” com o trabalho desenvolvido ao longo de cinco anos no cargo. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, considera que, através do Centro, o IPM teve um papel preponderante na definição da rede de universidades chinesas a leccionar Português, sendo líder tanto no Continente como em Macau. Esta posição foi atingida graças à estratégia do IPM pensada pelo presidente cessante, Lei Heong Iok, que, na perspectiva de Carlos André, é merecedor de uma condecoração pelo governo português pela contribuição em prol da língua de Camões. Um dos pontos chaves é o facto do Centro ter um orçamento independente que lhe permite ter margem de manobra. Em termos do rumo da língua, não antevê uma quebra na procura, mas uma mudança no corpo docente chinês que em 10 anos pode passar a ter 50 doutorados, com outras necessidades a que o Centro terá de responder
Liane Ferreira
-Recorda-se do convite para dirigir o Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau (IPM)?
-O Centro foi inaugurado em Novembro de 2012 e eu estava presente como convidado, mas só vim a 1 de Maio de 2013. Fui convidado para o colóquio da FORGES e, durante a cerimónia, o presidente do IPM disse que quem gostaria que viesse dirigir este centro era aquele senhor ali sentado, ou seja eu. Claro que já tínhamos falado sobre isso, mas foi uma surpresa. Havia sondagens, tínhamos falado. Nos dois dias seguintes, ficou tudo resolvido.
-Como é que se sentiu? Contente?
-Não sei se contentamento é propriamente a palavra certa. Fiquei perplexo pela situação, contente e satisfeito, porque ter sido feito o convite naquelas circunstâncias foi uma distinção. Mas, fiquei um pouco ansioso e preocupado porque não sabia ao que vinha. Eu gostava muito de aceitar desafios novos, entretanto passaram-se cinco anos! Preocupou-me e confesso que nos meses seguintes entre Novembro e Maio, a minha ansiedade não diminuiu, porque continuei a não perceber bem. Quando vim, sabia que vinha para um caminho que não estava traçado. É aliciante, mas não é fácil. Para alguém com 60 anos de idade era um risco, mas vim.
-E agora que está prestes a deixar Macau? Como se sente?
-Saio a 31 de Agosto, é um dado adquirido. Sinto-me bem. Faço uma avaliação pessoal, que é francamente positiva. Produzimos trabalho e uso a primeira pessoa do plural, porque comecei por ser eu e duas funcionárias e depois o número foi engrossando e agora somos 13, sete dos quais doutorados. Sinto-me satisfeito, de consciência tranquila e orgulhoso pelo trabalho realizado, mas percebo que foi necessário inventar. Olho para trás, para Maio de 2013 e para as expectativas que tinha e, de facto, inventei muita coisa e houve muitas mudanças de rumo. Após três semanas em Macau, sentia que não estava a fazer quase nada, então fiz um programa de trabalho e pedi uma reunião com o presidente. Deve ter sido uma das reuniões mais longas que tivemos. No fim disse-me: “não se esqueça que devagar se vai ao longe”. Pensei que isso deveria trazer água no bico e nem ficou preocupado em ficar com a folha que levava. Ao longo do tempo, percebi muito da sabedoria chinesa que se escondia naquele provérbio português. De facto, foi preciso deixar estar, avançar com calma e fazer as primeiras viagens com ele a Xian e a Xijiang para passados uns meses pensar: “provavelmente é por aqui”. As primeiras actividades do Centro foram a organização de conferências sobre a língua, que não eram meramente académicas, mas à medida que iam acontecendo, vi que não era por ali. No fundo, não estavam a acrescentar nada. Houve ali um momento em que senti um ‘click’ e fui ao presidente. “Se me deixar vou para a China, é lá o caminho, é lá o trabalho”. Ele respondeu-me: “não tinha pensado assim, mas se acha que é capaz”. Eu disse que não sabia se era capaz, mas que iria tentar. Foi este o caminho que tomámos até começar a perceber que tinha de conhecer este imenso território. Eu queria saber o que estava a acontecer e queria ser parte disso. Acho que fui parte, o que me deixa francamente muito satisfeito.
-De facto, na altura parecia haver um desconhecimento da realidade no terreno.
-Havia, mas também existem outros factores. Em Macau, há muitas instituições a desenvolver trabalho e por outro lado, essas instituições nem sempre têm as relações de cooperação desejáveis. Hoje têm mais e penso que contribuímos muito para isso, mas antes não tinham. Macau é demasiado pequeno e o que há a fazer é muito e não é muito, mas se Macau é a plataforma tem de ser entre duas coisas e a outra coisa era ignorada. De facto não se sabia, são 20 e tal, são 15, ninguém sabia quais as instituições da China com português, onde se situavam, qual a dimensão, quais os professores e rumo que tinham. Naquela altura, João Liu Gang, que era do IPM e agora está na Assembleia Legislativa, tinha noção, mas uma coisa é ter os números e outra é ter a realidade. Não foi nada fácil no princípio, foi fascinante, nem era cansativo, porque o fascínio nunca cansa. Cinco anos depois, estou mais velho e já não é a mesma coisa. Foi assim que lá chegámos e me permite ter um olhar muito exacto sobre o que acontece neste momento em relação ao Português na China e ter uma opinião sobre rumos a seguir. Mas o problema agora é: vamos para onde? Fomos capazes de chegar até aqui, mas e agora? Isto é um xadrez numa transformação profunda, daqui a cinco anos nada disto é igual e este é o grande desafio que a equipa que vou deixar vai ter de enfrentar.
-O que é que antecipa para o futuro da Língua Portuguesa em Macau e na China?
-Não prevejo uma quebra, embora se sinta, muito em breve, o problema da empregabilidade. Mas, a empregabilidade está muito relacionada com o desenvolvimento económico dos países de Língua Portuguesa. Ou seja, se o Brasil conseguir sair deste abismo onde se meteu de uma forma estúpida e perfeitamente absurda, está ali um terreno de franca cooperação com a China. A China está preparada para tudo lá, aliás estava na “shortlist” para a construção do caminho-de-ferro de alta velocidade e tem consigo um dos melhores portfólios do mundo. Se isso acontecer, falamos de milhares e milhares de chineses e uns quantos milhares de tradutores que também terão de ir, porque as línguas são tão diferentes que qualquer companhia de engenharia que vá para um país de Língua Portuguesa tem de levar tradutores. Subitamente, aumentaria a capacidade de recrutamento. Isso acontece com o Brasil, Angola e Moçambique e com Portugal, mas este é um mercado mais pequeno. O que sinto é a procura a aumentar, novas universidades a aparecerem para criar o curso de Português. Já tenho 38 na minha lista, mas de repente tenho mais uma universidade em Cantão de grande prestígio, outras em Shandong e Hebei. Também há aquelas que não sei, que escaparam ao rastreio. O meu rastreio deve ser o mais exacto. Estou convicto de que não vai abrandar.
-Onde vão acontecer as mudanças?
-As mudanças vão acontecer nas próprias necessidades do sistema, porque os docentes que começaram esta expansão ainda são muito jovens, muito inexperientes e com pouca competência para o ensino de Português como língua estrangeira, não basta saber falar bem. O problema é que ensinar como língua estrangeira hoje em dia é um domínio de especialização. Estes jovens precisavam de formação nesta área, mas isto está a mudar e depressa. Não havia um único doutorado no Interior da China quando cheguei há cinco anos, agora salvo erro existem cinco doutorados em português, mas daqui a três anos poderão ser 12 ou 14 doutorados e daqui a cinco anos mais 15 ou 16. Neste momento, há números exactos quase até à unidade de que existem 40 docentes de português no Interior da China inscritos em cursos de doutoramento em Macau (poucos) e em cidades portuguesas e brasileiras. E se desses 40, 35 tiveram sucesso, quer dizer que em cinco ou seis anos teremos meia centena de professores doutorados no Interior da China. Isto representa um salto de 0 para meia centena em 10 anos. Nessa altura, não poderemos continuar a tratá-los como se eles enformassem de menoridade. Ai de quem quiser olhar para todas estas equipas espalhadas na China com sobranceria, porque não pode, e há uma certa tendência das pessoas para diminuir e apoucar estes colegas. Mas não, estes colegas trabalham muito e bem e são competentes. Isto já aconteceu na América, na Europa e os melhores especialistas em linguística portuguesa vieram da Alemanha, Itália e dos EUA e não são portugueses. Este caminho foi feito noutros sítios e também será na China, continuam a achar que somos portugueses e sabemos, e eles são os chineses e não sabem, e é um disparate profundo.
-É uma questão de tempo para estas necessidades de assistência, às quais o Centro respondia, serem alteradas…
-A primeira coisa a fazer foi conhecer: quais são as universidades, quem lá trabalha, quais são os projectos e necessidades que têm e foi aí que desenhei um mapa com a ajuda inefável do professor James Li, conhecedor como poucos do território. Comecei por Pequim e à medida que ia visitando as instituições, apareciam mais universidades. Eram sempre visitas simples, um dia na universidade com um responsável de topo, o director de faculdade, os professores de português e uma palestra para os estudantes e depois um dia na cidade para conhecer a realidade envolvente. Em função deste contacto, fazia um diagnóstico das necessidades e reuníamos no Centro para ver o que fazer. Viajei sempre com um membro da equipa do Centro, segundo uma escala, e um tradutor, mas entretanto temos duas professoras bilingues. Percebemos que o primeiro passo consistia nas acções de formação que precisavam. Temos mais de 300 horas de formação, em todas estas universidades, e com centenas de participantes, uma média de oito acções por ano. Este modelo já cansa, as universidades já começam a ficar cansadas, não porque gastam dinheiro, porque é do nosso orçamento, mas porque os professores têm de ter disponibilidade.
-E o passo seguinte?
-Depois percebemos que era preciso produzir materiais. Há mais de dois anos que se agudizou essa percepção de que uma das faltas mais flagrantes era de materiais de apoio ao ensino em todas as áreas. Nessa altura, como houve a sorte e o cuidado de constituir uma equipa pluridisciplinar, foi possível começar a produzir materiais. Desde há três anos e meio, quando a equipa do Centro ficou mais composta, produzimos 16 livros. Em 2017, editámos 10 livros e isto é muito num ano e um ritmo difícil de manter. São livros muito diversificados, desde a fonética, vocabulário, políticas de língua, escrita, análise de texto literário. Falta agora dar um passo que é pôr isto à disposição das pessoas na China, porque eles levam os livros quando vêm cá, mas temos de encontrar uma solução.
-São livros destinados aos docentes ou também aos alunos?
-Aos docentes quase todos, excepto o Português Global e este teve um grande conquista: é editado na China. Há um versão para Macau e para a China, toda adaptada ao mecanismo e preços de lá. São quatro volumes e o quarto sai agora no início de Julho. É o fechar de um ciclo. Não há mais níveis.
-Além dos livros, o Centro tem outras iniciativas como o website…
-O site está em transformação profunda. Será a grande mudança que deixo em curso quando sair. Queremos um site totalmente dinâmico, que viva dos ‘inputs’ dos colegas no Interior da China. Acabou de ser aprovado que os livros serão dinâmicos, alterados todas as semanas. Há aqui outra característica que também não é normal em Macau: para fazermos isto, incluímos na nossa equipa uma pessoa com mestrado na área das tecnologias da comunicação e artes.
-Ainda existe a aplicação para telemóvel.
-Sim e está constantemente a ser transformada. Já estão a pensar em colocar mais coisas, além das três categorias.
-Resumindo…
-Há aqui dois caminhos que têm de se explorar: manter o que existe, a formação, produção de materiais, concursos de declamação de poesia, de debate. Não precisamos de inventar mais, mas temos de ser capazes de antever a transformação que vai acontecer do outro lado. Seria disparate da minha parte dizer que tinha alguma coisa a ver com o aparecimento desta rede de Português na China. Isto aconteceu e nós não interferimos, mas a realidade é que quando cheguei [as universidades] não falavam umas com as outras, a rede não existia, mas hoje existe e acho que o IPM, através deste Centro, teve um papel preponderante na definição dessa rede. Se a rede é uma corda, nós fomos quem levou a corda e quando terminámos elas estavam ligadas. Por isso é que, a 20 de Abril, tivemos o prazer de reunir 32 responsáveis pelo Português em universidades chinesas e nunca ninguém tinha tido conseguido fazer isso em lado algum. Nós convidámos e eles vieram, por ser Macau, por não terem custos, mas também como manifestação de reconhecimento do papel do IPM e deste Centro.
-Quais são os pontos altos e baixos neste percurso de cinco anos?
-Os pontos altos foram a imprevisibilidade do crescimento até este nível, até às 40 universidades a leccionar Português. Segundo ponto alto muito significativo foram as publicações. Somos uma unidade científica e termos materializado a produção de conhecimento em livros é um ponto alto e que contribuiu muito para a avaliação positiva do IPM, porque são livros com muita qualidade. Terceiro, o volume de formação efectuada. O que ficou aquém é mais em Macau do que no Interior da China. A sensação de insatisfação que levo é que não se resolveu o problema da articulação de esforços em Macau.
-Em termos de cooperação universitária?
-Sim, em termos inter e intra-instituições. Entre as instituições e dentro delas, as pessoas vivem de costas voltadas, suscitam-se invejas e outras coisas. Isto é normal, tendo em conta que à escala global, Macau é uma aldeia. Contribuímos muito para a melhoria, porque fizemos aqui um colóquio com a Universidade de Macau, Universidade de São José e o IPM, sentámos as pessoas, fizemos um programa conjunto, impedimos os professores de fazerem as comunicações nas suas instituições e depois tive o gosto, satisfação e espanto de ver que o volume que saiu disso, foi-me dedicado. Ninguém me tinha dito. De facto, foi um momento de cooperação que se sentiu. Depois fizemos isso com uns colóquios, mas nunca mais. Recentemente, foi apresentado um livro do Centro Bilingue da Universidade de Macau, que tem a colaboração de professores do IPM, da Universidade de São José e do IPOR. Este livro sobre o perfil dos aprendentes é um bom exemplo de uma cooperação que precisa de ser estimulada. Vou com alguma insatisfação porque isso não se resolveu, nalguns casos melhorou e noutros casos acho até que se pode ter complicado. Acredito que se vai resolver com o tempo e sob a liderança de chineses. Nós, os portugueses, somos mais paroquiais.
-O papel do IPM em Macau e na China, no que diz respeito ao Português, está mais forte, sólido e definido?
-Está. É muito mais forte e nada disto aconteceu por acaso. Na génese disto há uma estratégia que nasceu na cabeça do professor Lei Heong Iok. Portugal já devia há muito tempo ter dado uma condecoração a este senhor. Tenho uma profunda admiração por ele, por me ter proporcionado esta iniciativa fascinante. Portugal tem uma dívida de gratidão para com ele. Foi na sua cabeça que nasceu a criação do Centro à margem do IPM, esta ideia de que o Centro era para apoiar o desenvolvimento do ensino de Português na China, mas ao mesmo tempo manter uma estreita cooperação na área do ensino com as instituições chinesas, no âmbito da Escola de Línguas. Foi o IPM que favoreceu parcerias entre estas universidades e instituições portugueses. Quando falo que o IPM tem o papel de liderança no Interior da China é verdade, porque não há ninguém que faça isto. Também digo que para fazer isto tem de haver duas ou três condições satisfeitas à partida: uma estratégia e só o IPM teve esta estratégia voltada para a China como um todo; segundo, é preciso que a esta estratégia corresponda um investimento e o IPM tem um orçamento definido para este Centro. Eu não tenho de ir mendigar ao IPM um conjunto de migalhas para poder fazer uma destas viagens. Eu tenho um programa de actividades com um orçamento anual. O problema é quando não se tem orçamento, porque percebo o que dizem colegas meus de outras instituições que, como não têm orçamento, gastam o tempo a mendigá-lo. A isto chama-se organização e ter uma estratégia consequente. Ao longo destes anos, fruto da acção do Centro e da Escola Superior de Línguas e de Tradução, o IPM consolidou o papel de liderança e definiu um rumo. Este rumo agora tem de ser definido, tudo está em transformação, haverá mudança de líder no Centro, na Escola e no Instituto, mas eu sou um optimista. Acredito que o futuro não trará regressões, mas necessariamente progresso.
-O presidente já disse que há candidatos internos capazes.
-Sim e tem falado sempre com uma tónica muito especial nos bilingues de origem chinesa. Este é o caminho. Eu vim aqui cumprir um papel fundamental, numa altura específica, as fragilidades que existiam foram vencidas, portanto não vamos estar com paternalismos à espera de que sejamos nós a ficar aqui e resolver. Este país não é nosso, eu estou aqui porque me convidaram e portanto tenho de ter a atitude do convidado.
-E a percepção geral do trabalho desenvolvido pelo Centro e IPM está mais definida em Macau?
-Sim. É claro o investimento do IPM no Português. O professor Oliveira Dias escreveu recentemente sobre a Maria Antónia Espadinha, uma merecida homenagem. Tenho muita estima e carinho pela professora. Ela fez um bom trabalho num tempo certo e agora fê-lo outra vez. Nesse artigo, Oliveira Dias disse que ela fez muito, mas a liderança do Português e da estratégia do Português em Macau é do IPM. Penso que toda a gente o reconhece, não há nenhuma instituição que tenha uma estratégia semelhante à nossa, depois há uma ou outra, mas com outra dimensão como é o caso do IPOR, mas essa é a sua obrigação. Mesmo aqui há outra mudança, porque o João Neves vai embora e ele fez um papel fantástico.
-Será que há alguma falta de estratégia em relação ao Português na Universidade de Macau (UM), embora seja a principal universidade pública da RAEM?
-A estratégia do IPM para o Português é diferente da UM, porque o Português é um dos eixos estratégicos do Instituto, e não é manifestamente da universidade. Um olhar mais desatento percebe isto. A UM como qualquer instituição de ensino superior tem como um dos objectivos ter um lugar nos rankings e temos de reconhecer que não é à custa do Português que isso vai acontecer. É aborrecido dizer, mas o Português não dá lugar nos rankings. Portanto, se o objectivo estratégico da UM é posicionar-se nos rankings não é à custa do Português e isso provavelmente pode ter prejudicado o Português como objectivo estratégico da UM. Isto é apenas um juízo de valor institucional, com todo o respeito pela universidade e pelos colegas com quem tenho a melhor relação, não é um juízo de valor deles. Se a razão é esta, compreendo.
-O que é que vai fazer a seguir?
-Vou regressar a Portugal. Quero esclarecer que vou porque tenho consciência de ter cumprido uma missão, há um tempo para tudo. Vou porque quando vim tinha 60 anos e não é fácil mudar tudo. Uma casa são pedras aos 30 anos, com 60 anos já temos sentimentos e emoções agarradas. Não acredito em insubstituíveis e acredito que é sempre possível uma pessoa depois de mim, fazer ainda melhor. Não só acredito como desejo. Saio daqui com uma imensa serenidade e um sorriso no rosto. Dito isto, tenho projectos de escrita. A minha editora em Portugal, a Cotovia, ligou-me porque temos dois livros a sair ao mesmo tempo. Também estou a traduzir a Eneida de Virgílio, um projecto de vida para três anos, que dá muito trabalho e exige muita concentração. Também tenho convites, uma universidade chinesa convidou-me para ser professor visitante uma vez por ano.
-Quais os momentos mais marcantes destes cinco anos?
-Não sei. Há uns dias houve um momento que me comoveu, quando Pedro Abrunhosa no final do concerto enalteceu o meu trabalho em torno do Português em Macau. Todo o auditório se levantou para me aplaudir e isso comoveu-me muito. Marcou-me a apresentação do meu livro de poemas, porque do ponto de vista sentimental tem a ver com estes cinco anos. E depois há pequenos momentos do meu dia-a-dia que me marcaram. Vivo num meio essencialmente chinês e levo essa memória, dos cheiros e das minhas conversas com o meu grande confidente, o Rio das Pérolas.
O Centro do IPM em números
Mais de 300 horas de formação
8 acções de formação por ano
16 publicações em três anos e meio
1 aplicação móvel
13 membros do Centro, 7 doutorados
38 universidades chinesas a ensinar Português
3 novos cursos em planeamento na China
5 doutorados chineses em cinco anos, 50 em 10 anos



