Miguel de Senna Fernandes falou com jornalistas da Rádio Renascença para explicar a importância do Patuá a ouvintes que não sabem nada sobre o crioulo de Macau. O presidente da Associação dos Macaenses e encenador do grupo “Dóci Papiaçám di Macau” acredita que o crescente interesse de órgãos de comunicação internacionais pelo Patuá é sinal de que a cultura macaense já vai além fronteiras

 

O jornal “The Guardian” publicou há mais de um mês um artigo sobre a situação do Patuá num território que registou um enorme desenvolvimento nos últimos anos, o que despertou também o interesse da Rádio Renascença que esteve a conversar com Miguel de Senna Fernandes sobre o crioulo em vias de extinção.

“Vinte minutos não é suficiente para falar de tudo para um público que não sabe o que é o Patuá mas tentei fazer uma coisa que fosse perceptível para, pelo menos, localizar o problema”, contou o presidente da Associação dos Macaenses em declarações à TRIBUNA DE MACAU. No fundo, o também encenador do grupo “Dóci Papiaçám di Macau” falou de “como o grupo consegue ter o alento para fazer peças de teatro e tentar reavivar este crioulo em vias de extinção”.

Miguel de Senna Fernandes frisa que a ideia de manter o Patuá vivo não é voltar a torná-lo numa língua de uso diário. “Não queremos fazer com que as pessoas voltem a falar Patuá até porque os contextos são completamente diferentes. O contexto em que nasceu o Patuá não tem nada a ver o actual. Ele já não tem utilidade mas ganhou outro sentido que é o de reconstruir uma memória colectiva”.

“As pessoas perguntam porque acarinhamos tanto uma língua que já não tem utilidade ao que eu respondo que cada um de nós tem coisas do passado, seja um par de óculos do pai, um leque, uma máquina fotográfica. Aquilo já não serve para nada, se calhar nem funciona, mas guarda-se com muito carinho porque faz lembrar determinados momentos”, explicou Miguel de Senna Fernandes, acrescentando que “há uma obrigação cultural e comunitária” de proteger o Patuá.

Questionado sobre o que pode estar a gerar um crescente interesse no crioulo local por parte de meios de comunicação do exterior, Miguel de Senna Fernandes acredita que um dos motivos pode ser o facto de estar a desaparecer. “Nunca iríamos focar a nossa atenção em algo que temos a certeza que vai durar muito tempo. Se alguma coisa está ameaçada, há uma tendência natural para começar a dar atenção. É instintivo”.

Além disso, o território já não é o que antes foi. “Macau é uma cidade que passou a estar no mapa por causa do jogo e, tendo isso em conta, havendo conhecimento de que há uma língua em extinção ainda evoca mais interesse”, frisou Miguel de Senna Fernandes. “No fundo, o caso de Macau é muito interessante. É praticamente ponto único no mundo com esta realidade. No meio da China encontramos um território com um substrato cultural que foge à regra”.

Há sempre outras razões, entende Senna Fernandes, apontando como exemplo a descoberta de outra variante da Língua Portuguesa que ainda é falada tão longe de Portugal.

E que importância poderá ter este crescente interesse internacional pelo Patuá? “Para já, conseguimos chamar a atenção. A voz que reclama a importância da cultura macaense dentro de Macau já passou para fora das pequenas fronteiras. Isso já é importante”, sublinhou Miguel de Senna Fernandes.

Ao mesmo tempo, “o facto de outros saberem da existência do Patuá faz com que as pessoas que estão em Macau olhem com outros olhos e dêem outra importância ao que existe aqui na terra”. “Não quer dizer que passemos a ser olhados de diferente, mas seguramente [as pessoas que vivem na RAEM] não vão levar as coisas sobre a comunidade macaense ao de leve”, defendeu.

 

I.A.