Dois estudantes da Universidade Cidade de Macau estiveram durante mais de uma semana em Timor-Leste para um projecto de investigação sobre a influência da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” no país. Além dos participantes fazerem um balanço muito positivo da experiência, Francisco José Leandro, professor que coordena o projecto, garantiu que esta iniciativa foi apenas a primeira, tendo como objectivo fazer algo semelhante em todos os países de Língua Portuguesa
Inês Almeida
Kelvin Chen e Amélia She Yue regressaram recentemente de Timor-Leste onde estiveram a desenvolver um projecto de investigação coordenado pelo professor Francisco José Leandro, da Universidade Cidade de Macau.
“Queríamos saber qual a influência da iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ em Timor-Leste e receber sugestões das pessoas sobre como tornar a iniciativa melhor para elas. Mas, na nossa investigação descobrimos que muitas pessoas não sabem o que é a iniciativa ‘Uma Faixa Uma Rota’, mesmo um professor na universidade. Os meios de comunicação não chegam às áreas mais rurais e a maioria das pessoas não se preocupa com relações internacionais”, referiu Amélia She Yue em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
De qualquer forma, a jovem diz compreender a razão do desconhecimento. “Consigo perceber porque o país está no início do seu desenvolvimento. Acredito que as pessoas, mais tarde, vão ficar a conhecer a iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’”, afirmou.
Durante o processo de investigação, Kelvin Chen, a frequentar o primeiro ano do doutoramento, e Amélia She Yue, no primeiro ano de mestrado, fizeram visitas ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, ao Ministério da Educação e ao Gabinete do Comércio e Investimento, além de algumas escolas primárias. “Ainda me lembro de um nome – Escola dos Amigos de Jesus. Também fomos visitar o edifício da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e outros edifícios governamentais, como o local onde os ministros têm debates sobre o orçamento para o próximo ano”, contou a mestranda.
A passagem por Timor-Leste implicou ainda a visita a um museu histórico e ao Arquivo Nacional. “Vimos algumas imagens e registos, além de vestuário antigo de prisioneiros. Eram registos em papel. Conhecemos o director do museu e ele contou-nos algumas histórias sobre como foram ocupados pelos japoneses e pelos indonésios e, depois de 1999, tudo ficou destruído e teve de ser reconstruído a partir do zero”, acrescentou.
Fazendo um balanço muito positivo da experiência, Amélia She Yue destacou que “é completamente diferente” visitar o país, ao invés de basear a sua investigação unicamente na pesquisa em Macau. “Se não se for ao país, não é possível perceber por completo o conhecimento que já se tem das aulas. A realidade é muito diferente. Lá é que sentimos as coisas. Não podemos fazer investigação apenas através dos livros. Há coisas que temos de ir ao país e experienciar por nós próprios”.
A viagem dos dois estudantes a Timor-Leste aconteceu porque o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES) disponibilizou algum financiamento para um projecto de investigação sobre aquele país lusófono. “Quando abrimos esta oportunidade aos estudantes queríamos ter um estudante de mestrado e outro de doutoramento. Kelvin foi recomendado por um professor por ter boas capacidades ao nível da investigação e Amélia foi sugerida por mim porque tem muito interesse na cultura portuguesa e está a estudar Português. Pensei que era uma boa combinação para ambos, e acho que funcionou”, defendeu Francisco José Leandro, subdirector do Instituto para o Estudo dos Países de Língua Oficial Portuguesa.
A ideia foi sempre convidar estudantes que ainda estivessem no início do ciclo de estudos: Kelvin Chen frequenta o primeiro ano de doutoramento e Amélia She Yue o primeiro ano de mestrado para terem “tempo” para partilhar a experiência.
Um projecto a oito anos
Alunos visitaram a Universidade de Timor-Leste
O projecto deverá agora continuar e estender-se a outros países, dado o balanço positivo da viagem. Ainda assim, desta vez, teve de ser feito apenas um ligeiro ajustamento no plano inicial.
“O financiamento foi dado a um estudante para que ficasse quase um mês, mas dado que era a primeira vez, achei que era melhor enviar dois estudantes porque podiam apoiar-se e não se sentir tão sozinhos. Amélia abordou-me e disse que gostava de participar. Ficaram menos tempo porque o orçamento teve de ser ajustado”, explicou Francisco José Leandro. De qualquer modo, “tudo correu bem e para primeira experiência foi óptimo”.
A decisão de começar por Timor-Leste não foi apenas devido à questão da maior proximidade. “Temos um Memorando de Entendimento com a Universidade de Timor-Leste, o reitor esteve aqui em Outubro e tivemos a oportunidade de clarificar alguns detalhes sobre o apoio do representante de Timor-Leste no Fórum Macau que nos ajudou muito e também recebemos apoio do gabinete do reitor ao nível da coordenação e da Embaixada de Timor-Leste, que tratou dos vistos muito depressa”. Fica na memória um processo em que “todas as instituições cooperaram muito”, destacou Francisco José Leandro.
Os dois estudantes estão actualmente a concluir o relatório que será submetido ao GAES. Está também a ser finalizado um livro sobre Timor-Leste que deverá ser publicado em Abril e que vai conter algumas das imagens conseguidas por Kelvin Chen e Amélia She Yue.
“No final de contas, isto também é um aspecto importante de fazer investigação. Deve ser tudo combinado para produzir alguma coisa. Quando se faz investigação, deve-se publicar porque senão não se contribui para o prestígio da universidade”, realçou o professor. A intenção é que os alunos publiquem algo também em língua chinesa, no entanto, é prioritária a conclusão do relatório a entregar ao GAES.
A ideia é que o projecto agora continue. “O mais importante é que começámos. Depois vamos à volta. Tenho um projecto para oito ou nove anos, dependendo se consideramos a Guiné-Equatorial um país de língua portuguesa. Não tenho a certeza se é possível passar por todos os países nesse período, mas o foco do nosso instituto são os países lusófonos”, sublinhou Francisco José Leandro.
Para o próximo ano, o foco deverá ser colocado sobre Cabo Verde ou a Guiné-Bissau. “A Guiné-Bissau é importante para a nossa universidade por o presidente do conselho ser cônsul-honorário mas ainda não tenho a certeza sobre a situação do país no próximo ano. Cabo Verde é um lugar que podemos visitar, temos relações com instituições do país e o apoio do Fórum Macau, além dos contactos. Gostava de dar a oportunidade a mais dois estudantes de irem a Cabo Verde e que depois se juntassem para fazer qualquer coisa”, explicou o subdirector do Instituto para o Estudo dos Países de Língua Oficial Portuguesa.
Para a concretização destes projectos, o reitor da Universidade Cidade de Macau deu indicações administrativas para que as aulas começassem um bocadinho antes, no início de Agosto, criando maior disponibilidade para em Dezembro e Janeiro os envolvidos se dedicarem ao projecto. “Também terminamos as aulas em Junho para termos Julho e Agosto livres para este tipo de projectos”, acrescentou.



